Das efemérides

Depois do ótimo almoço de domingo (feijão tropeiro, feito por gaúchos com feijão argentino), conversando com o meu pai recordei uma efeméride: 1º de setembro é o aniversário do início da Segunda Guerra Mundial. Neste caso em específico, foi o de 80 anos.

Meu pai comentou que o fato era digno de uma postagem no blog. Pensei que realmente era. E que isso aconteceria sem dúvida alguma nos meus bons tempos, em que bastava pensar em um assunto e sentar à frente do computador que o texto sairia quase ao natural. Então lembrei que não precisava ficar apenas me lamentando: exatos dez anos atrás escrevi um sobre o 70º aniversário do início da guerra que eu não mudaria muito nos dias de hoje, pois só foi preciso corrigir um ou outro erro de português (nada como uma década para ajudar na revisão, e os equívocos que sobrarem serão corrigidos em setembro de 2029).

A efeméride me fez pensar que nosso mundo atual anda cada vez mais parecido com aquele de 1939. Em várias partes do mundo a extrema-direita ganha força, por mais que as pessoas digam rejeitar o nazi-fascismo: ele é pintado como algo “anormal”, e a humanidade acredita estar “vacinada” contra ele.

Mas não está: uma das principais características do fascismo (do qual o nazismo era a versão alemã, com algumas particularidades) é oferecer “soluções simples” para tudo e, principalmente, ter um “inimigo” que sirva para dividir a sociedade entre “nós” e “eles”. Na União Europeia, o medo dos imigrantes de origem árabe que fogem da guerra e da pobreza em seus países de origem deu força à extrema-direita até mesmo na Alemanha (onde ela obteve em 2017 seus melhores resultados eleitorais no pós-guerra) e elegeu governos que descambaram para o autoritarismo puro e simples, como é o caso da Hungria. Nos Estados Unidos, Donald Trump foi eleito presidente prometendo construir um muro na fronteira com o México para barrar a imigração de latino-americanos, por lá chamados pejorativamente de cucarachas (baratas).

Já aqui no Brasil, várias pessoas culpam o PT por todos os males, desde a crise econômica iniciada em 2014 (que qualquer pessoa com o mínimo conhecimento de geopolítica sabe que foi causada apenas por erros do governo petista) até mesmo a problemas que podemos chamar de “sistêmicos” (como a corrupção) e também imaginários como a tal “ameaça comunista” (que já tinha “justificado” o golpe civil-militar de 1964, e mesmo que em 13 anos de governo o PT jamais tenha implantado uma só política que se assemelhasse ao comunismo). Contra ele vale tudo, até votar em um político que em 2016 foi apontado como um dos mais repulsivos do mundo por um importante site de notícias australiano.


Adolf Hitler não era levado a sério com suas promessas de romper os humilhantes tratados de 1919 que tinham sido impostos à Alemanha; quando seu Partido Nazista chegou ao poder em 1933, não foi visto como ameaça pelos grandes industriais alemães (alguns dos quais aderiram com entusiasmo ao nazismo) nem pelas potências europeias rivais (França e Grã-Bretanha), que temiam mais o comunismo e a União Soviética de Josef Stalin que um renascimento do expansionismo alemão (que anteriormente já tinha sido uma das causas da Primeira Guerra Mundial). Ainda mais que Hitler também elegia como “inimiga” a URSS. Logo a Alemanha começou a anexar territórios estrangeiros: primeiro a Áustria (terra natal do ditador), depois a região tchecoslovaca dos Sudetos e na sequência a Tchecoslováquia inteira. O máximo que ouviram foi uma ameaça de britânicos e franceses de que não tolerariam uma invasão da Polônia: fazendo concessões, acreditaram que seria possível “segurar” Hitler e deram com os burros n’água.


Jair Bolsonaro não era levado a sério com seus discursos odiosos e que teciam loas à ditadura, e não era visto como ameaça pela direita tradicional, liderada pelo PSDB, visto que ambos tinham como “inimigo” o PT, que queriam derrotar a qualquer custo. Quando Bolsonaro tornou-se líder nas pesquisas de opinião sobre a eleição presidencial de 2018, boa parte da direita tradicional teve certeza que ele “perderia força”, mas depois, quando o candidato da extrema-direita foi ao segundo turno e venceu, ela acreditou que fazendo concessões (leia-se “oferecendo apoio parlamentar a reformas de caráter ultraliberal”) seria possível “segurá-lo”, tornando seu governo “normal”, respeitador da Constituição de 1988 e do pacto sócio-político que foi vigente por quase 30 anos. Vários setores do empresariado e do agronegócio viram nele uma opção “menos pior que o PT”, e alguns aderiram ao bolsonarismo com entusiasmo…

Ei, já não vimos um filme parecido?


No fim, acabei escrevendo um texto bem maior do que imaginava, ainda mais que não estou nos meus bons tempos. Mas nada de novo, ao menos no tocante à Segunda Guerra Mundial.

E nem sequer respeitei o prazo: só terminei no dia 2 de setembro, quando a efeméride já passou.

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