Que tal detestar a coisa certa?

Está acabando o inverno e isso não me deixa feliz. Mesmo que eu não desgoste da primavera (estação na qual vim ao mundo há quase 38 anos), lembrar que mais um verão está a caminho me leva a já contar os dias para o outono, que é minha estação do ano preferida. Mas entre inverno e verão eu prefiro o primeiro, ainda que para os mais pobres o frio cause muito sofrimento: comigo acontece o contrário pois acho mais fácil lidar com as baixas temperaturas que com as altas, já que para mim basta vestir mais roupas enquanto no calor só o ar condicionado resolve – o que resulta em alto gasto de energia elétrica e, consequentemente, em uma conta mais cara.

Claro que é fácil preferir o inverno quando se está debaixo de um teto e se tem roupas para vestir. Ao mesmo tempo que gostar de verão podendo passar a maior parte dele na praia ou no ar condicionado é “barbada”. Difícil é curtir o frio tendo poucos recursos para se proteger dele, ou calor precisando trabalhar debaixo do sol a pino do meio-dia.

Acredito que os dois parágrafos anteriores deixaram bem claro qual é o maior problema. Não é nada de ordem climática: é a pobreza e a desigualdade social. Não importa a época do ano, para rico não existe adversidade: no verão ele pode curtir uma piscina pois tem condições de manter uma, ir para a praia ou simplesmente pegar um avião e ir para algum país frio sem se preocupar com os custos da viagem; no inverno pode desfrutar de um café colonial em Gramado ou esquiar em Bariloche sem sentir aquela “dor no bolso”, ou embarcar em um voo (igualmente “barato”) para algum lugar quente (vão pra Cuba!); na primavera é possível escapar de eventuais alergias pelo florescimento viajando sem preocupação para onde é outono – a propósito, alguém consegue ter alguma coisa a reclamar do outono?

Ruim mesmo não é inverno ou verão. A falta de grana para se sofrer menos com o clima é que é uma bosta: mesmo detestando calor eu tenho ar condicionado e posso usá-lo com frequência mesmo isso que pese no bolso depois. Para os mais pobres, isso significa menos comida na mesa – e a fome independe da estação do ano.

Logo, que tal passar a atacar e detestar o que realmente importa? Pois não adianta “sentir pena” dos pobres no inverno só para “fazer média” nas redes sociais e a cada duas primaveras votar na direita…

O tempo voou e minha paciência se foi

Estou gostando desse negócio de voltar a escrever. Uma consequência disso é que tenho lido textos que escrevi um bom tempo atrás – alguns, há mais de 10 anos – para comparar tanto o pensamento que eu tinha na época como também meu zelo com a língua portuguesa.

Até não mudou muita coisa em termos de pensamento. Já o cuidado com o idioma aumentou – a ponto de algumas vezes eu reler um texto lá de 2007, notar uma palavra repetida no mesmo parágrafo ou uma pontuação fora de lugar, e editá-lo mesmo que esteja quase esquecido nos arquivos de 12 anos atrás. Ultimamente sempre termino um texto e fico um tempinho longe dele para depois revisar.

Mas a maior diferença que notei foi no tocante à minha paciência com comentaristas – em especial, os que “opinavam” sem fundamentação alguma nos textos sobre política. (Aliás, vale uma observação: reclamamos tanto das redes sociais por ajudarem a propagar fake news e criarem uma “bolha ideológica” em torno de seus usuários, e esquecemos que a maioria das pessoas já era assim e “bostejava” em caixas de comentários de grandes portais e blogs.)

Desde o início do Cão nenhum comentário é publicado sem antes passar por minha moderação. É algo de que sinto muita falta em redes como o Facebook: tem gente que só fala merda e faz questão de “opinar” só por gostar de “ver o circo pegar fogo”, e não tenho como exercer papel de moderador a não ser excluindo o “bostejo” – muitas vezes depois do estrago já feito. No Cão, por algum tempo deixei passar praticamente tudo – inclusive comentários com ofensas pessoais contra mim – em nome de uma “defesa da democracia”, até que um dia me liguei no óbvio: democrática tem de ser a internet e o acesso a ela, e ninguém impor regras de como devo administrar meu blog pessoal também é democracia; por isso, passei a impedir a publicação de muitos comentários odiosos – exceto quando a tosquice era tanta que nem precisava de resposta, a pessoa já se expunha ao ridículo só por escrever tamanha asneira.

Ainda assim, por um tempo continuei “debatendo” com os que dissimulavam seu ódio “falando bonito”, respeitando as regras gramaticais etc. Não adiantava nada, mas eu era muito paciente e insistia. Depois os comentários de forma geral diminuíram pois o Facebook “canibalizou” a audiência dos blogs, e muitas vezes eu postava o link na rede de Zuckerberg e as pessoas comentavam lá, não aqui.

Vários anos se passaram, e a minha paciência se foi. Não à toa, no Facebook muitas postagens sobre política têm público restrito, para evitar a incomodação causada por bolsominions que gostam, antes de tudo, de ter palco para defender seu ídolo (tanto é que quando o post vai nos “stories”, onde a resposta vai direto para mim sem que mais ninguém veja, eles ficam quietos). Pois, além de não ter como impedir a publicação de comentários que não acrescentam absolutamente nada a um bom debate de ideias, também não tenho mais saco para discutir com essa gente: posso argumentar um monte, mostrar fatos, que no final vão acabar dizendo os já “clássicos” chavões “e o Lula, e o PT?” e “o Lula tá preso babaca”. Por que perder tempo com isso?

Quem precisa de autocrítica?

Nos últimos tempos tem-se falado muito sobre a necessidade da esquerda brasileira fazer uma autocrítica acerca de seu passado recente. A cobrança maior recai sobre o PT, maior partido brasileiro deste campo do espectro político.

Concordo que haja tal necessidade e inclusive lamento que a autocrítica praticamente não tenha ocorrido mais de três anos após o golpe travestido de impeachment em 2016 e a consequente eleição de Jair Bolsonaro para a presidência. Porém, há um outro ponto importante, sobre o qual pouco se fala: e a autocrítica dos liberais, quando será feita? Pois não podemos esquecer que eles têm a maior culpa pela situação atual.

Seu candidato na eleição presidencial de 2014, o então senador Aécio Neves (PSDB), foi derrotado por estreita margem. Tal resultado (48,36% dos votos válidos, contra 51,64% para a reeleita Dilma Rousseff) indicava que o PSDB, como principal partido da oposição, chegaria forte em 2018 para a sucessão de Dilma Rousseff. Ainda mais que ela iniciaria seu segundo mandato com a economia claudicante e com a rejeição ao PT em uma crescente.

Porém, o PSDB e seus aliados optaram pelo caminho do golpismo. Um dia após o encerramento do processo eleitoral, já havia gente falando em impeachment e convocando manifestações (que começaram a ocorrer, ainda que pequenas, já no final de 2014), com pouquíssimas vozes oposicionistas manifestando contrariedade a isso. Em seu retorno ao Senado, Aécio prometeu oposição “incansável e instransigente” ao governo recém reeleito. E para completar, houve o pedido de auditoria nas urnas eletrônicas, insinuando uma fraude que a própria verificação provou não ter ocorrido – mas que contribuiu para não se virar a página de uma virulenta campanha eleitoral.

Tanto insistiram que o impeachment veio em 2016, com uma justificativa duvidosa: as tais “pedaladas fiscais”, que nunca tinham motivado a perda de mandato de nenhum governante anterior, agora eram “crime de responsabilidade”. Mas não foi apenas uma troca de presidente: a oposição se aliou ao vice-presidente Michel Temer e voltou ao governo “pela porta dos fundos” ao invés de esperar até 2018, quando provavelmente triunfaria nas urnas e entraria no Palácio do Planalto pela “porta da frente”, subindo a tradicional (e simbólica) rampa.

O resultado disso é que quem viria forte em 2018 virou “vidraça” por ter se tornado governo (por sinal, péssimo) antes da hora. Quem virou oposição – o PT e seus aliados à esquerda – foi também culpabilizado pelo desastre (“quem votou na Dilma votou no Temer”, lembram?). O resultado é que a soma de insatisfação com o irracional antipetismo nos conduziu à eleição (ainda que mediante o uso de incontáveis mentiras) de um sujeito que está jogando a imagem do Brasil na lama e nos envergonhando dia sim, dia também.

A esquerda – e em especial o PT – cometeu muitos erros, os quais nem vou elencar, por isso prefiro falar apenas da campanha eleitoral de 2018. Penso que o ideal teria sido o PT abrir mão de ser cabeça de chapa: alguém acreditava que deixariam Lula ser candidato quando condenaram ele sem provas justamente para prendê-lo e impedi-lo de disputar – e provavelmente vencer – a eleição? Mas, cometido o primeiro erro, e com Fernando Haddad concorrendo no lugar de Lula e indo ao segundo turno, penso que qualquer pessoa que diga defender a democracia deveria ter apoiado o petista incondicionalmente contra alguém que nunca escondeu sua admiração pela ditadura de 1964 e seus enojantes métodos. Sim, isso é um recado a Ciro Gomes (em quem votei no primeiro turno e que encerrada a primeira votação saiu de férias) mas também – e principalmente – aos autoproclamados liberais, muitos dos quais não hesitaram em apoiar Bolsonaro (que nunca foi liberal) e agora se dizem arrependidos e – incrivelmente – decepcionados com alguém que como presidente não está sendo nem um pouco diferente do que foi em 28 anos como deputado.

Quero muito a autocrítica da esquerda, sim. Mas quero ainda mais a da direita liberal, principal responsável por nos jogar no abismo atual.

Das efemérides

Depois do ótimo almoço de domingo (feijão tropeiro, feito por gaúchos com feijão argentino), conversando com o meu pai recordei uma efeméride: 1º de setembro é o aniversário do início da Segunda Guerra Mundial. Neste caso em específico, foi o de 80 anos.

Meu pai comentou que o fato era digno de uma postagem no blog. Pensei que realmente era. E que isso aconteceria sem dúvida alguma nos meus bons tempos, em que bastava pensar em um assunto e sentar à frente do computador que o texto sairia quase ao natural. Então lembrei que não precisava ficar apenas me lamentando: exatos dez anos atrás escrevi um sobre o 70º aniversário do início da guerra que eu não mudaria muito nos dias de hoje, pois só foi preciso corrigir um ou outro erro de português (nada como uma década para ajudar na revisão, e os equívocos que sobrarem serão corrigidos em setembro de 2029).

A efeméride me fez pensar que nosso mundo atual anda cada vez mais parecido com aquele de 1939. Em várias partes do mundo a extrema-direita ganha força, por mais que as pessoas digam rejeitar o nazi-fascismo: ele é pintado como algo “anormal”, e a humanidade acredita estar “vacinada” contra ele.

Mas não está: uma das principais características do fascismo (do qual o nazismo era a versão alemã, com algumas particularidades) é oferecer “soluções simples” para tudo e, principalmente, ter um “inimigo” que sirva para dividir a sociedade entre “nós” e “eles”. Na União Europeia, o medo dos imigrantes de origem árabe que fogem da guerra e da pobreza em seus países de origem deu força à extrema-direita até mesmo na Alemanha (onde ela obteve em 2017 seus melhores resultados eleitorais no pós-guerra) e elegeu governos que descambaram para o autoritarismo puro e simples, como é o caso da Hungria. Nos Estados Unidos, Donald Trump foi eleito presidente prometendo construir um muro na fronteira com o México para barrar a imigração de latino-americanos, por lá chamados pejorativamente de cucarachas (baratas).

Já aqui no Brasil, várias pessoas culpam o PT por todos os males, desde a crise econômica iniciada em 2014 (que qualquer pessoa com o mínimo conhecimento de geopolítica sabe que foi causada apenas por erros do governo petista) até mesmo a problemas que podemos chamar de “sistêmicos” (como a corrupção) e também imaginários como a tal “ameaça comunista” (que já tinha “justificado” o golpe civil-militar de 1964, e mesmo que em 13 anos de governo o PT jamais tenha implantado uma só política que se assemelhasse ao comunismo). Contra ele vale tudo, até votar em um político que em 2016 foi apontado como um dos mais repulsivos do mundo por um importante site de notícias australiano.


Adolf Hitler não era levado a sério com suas promessas de romper os humilhantes tratados de 1919 que tinham sido impostos à Alemanha; quando seu Partido Nazista chegou ao poder em 1933, não foi visto como ameaça pelos grandes industriais alemães (alguns dos quais aderiram com entusiasmo ao nazismo) nem pelas potências europeias rivais (França e Grã-Bretanha), que temiam mais o comunismo e a União Soviética de Josef Stalin que um renascimento do expansionismo alemão (que anteriormente já tinha sido uma das causas da Primeira Guerra Mundial). Ainda mais que Hitler também elegia como “inimiga” a URSS. Logo a Alemanha começou a anexar territórios estrangeiros: primeiro a Áustria (terra natal do ditador), depois a região tchecoslovaca dos Sudetos e na sequência a Tchecoslováquia inteira. O máximo que ouviram foi uma ameaça de britânicos e franceses de que não tolerariam uma invasão da Polônia: fazendo concessões, acreditaram que seria possível “segurar” Hitler e deram com os burros n’água.


Jair Bolsonaro não era levado a sério com seus discursos odiosos e que teciam loas à ditadura, e não era visto como ameaça pela direita tradicional, liderada pelo PSDB, visto que ambos tinham como “inimigo” o PT, que queriam derrotar a qualquer custo. Quando Bolsonaro tornou-se líder nas pesquisas de opinião sobre a eleição presidencial de 2018, boa parte da direita tradicional teve certeza que ele “perderia força”, mas depois, quando o candidato da extrema-direita foi ao segundo turno e venceu, ela acreditou que fazendo concessões (leia-se “oferecendo apoio parlamentar a reformas de caráter ultraliberal”) seria possível “segurá-lo”, tornando seu governo “normal”, respeitador da Constituição de 1988 e do pacto sócio-político que foi vigente por quase 30 anos. Vários setores do empresariado e do agronegócio viram nele uma opção “menos pior que o PT”, e alguns aderiram ao bolsonarismo com entusiasmo…

Ei, já não vimos um filme parecido?


No fim, acabei escrevendo um texto bem maior do que imaginava, ainda mais que não estou nos meus bons tempos. Mas nada de novo, ao menos no tocante à Segunda Guerra Mundial.

E nem sequer respeitei o prazo: só terminei no dia 2 de setembro, quando a efeméride já passou.