Um retrato do “novo Brasil”

Um deputado deixando o país por ameaças de morte. E o cidadão que, incrivelmente, foi eleito presidente deste mesmo país, comemora o fato ao invés de se indignar com ele e garantir a segurança do parlamentar.

Esse é o Brasil de 2019. O país que elegeu um completo despreparado para a presidência – que tem uma horda apoiadora, a qual não pensará sequer uma vez antes de apontar o dedo para a oposição a cada burrada cometida por seu “mito”. Dirão que é “tudo culpa dessa esquerdalha que fica torcendo contra”, como se política fosse futebol e como se não tivéssemos direito de criticar o governo quando ele erra.

Bom, mas é exatamente isso que essa turma fascista aí quer. Que fiquemos calados e não critiquemos nada. Que nos resignemos e andemos pela rua de cabeça baixa. O pior que pode acontecer é justamente fazermos o que eles querem.

Inclusive por isso não critico Jean Wyllys. Não acho que ele tenha sido “covarde” ao deixar o Brasil por ter medo de ser assassinado. Por mais importante que Jean fosse na Câmara de Deputados, é melhor tê-lo vivo no exterior, para denunciar os absurdos que, infelizmente, acontecerão com ainda mais frequência em nosso país. De mártir, já nos basta Marielle Franco – cujo assassinato completará um ano em menos de dois meses e duvido que um dia os autores (e os mandantes) sejam presos…

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Há 15 anos eu entrava na História

Tanto tenho criticado o Facebook, e eis que ele me ajudou a reparar em uma importante efeméride. Na seção “neste dia” apareceu que cinco anos atrás lembrei o décimo aniversário de minha aprovação no vestibular para História na UFRGS. Ou seja, hoje faz 15 anos daquele 16 de janeiro de 2004, uma das sextas-feiras com mais cara de sexta-feira que já tive.

Fiz uma captura de tela que postei no Instagram, um dos meus ex-colegas relembrou os tempos em que ler pilhas e pilhas de textos e bater um papo regado a (muito) café nos intervalos era parte do nosso dia-a-dia. Então reparei que no final de 2019 fará 10 anos que concluí o curso de História.

Saudades? Não posso dizer que não sinto nenhuma. Foram seis anos de muito aprendizado na faculdade, ainda que profissionalmente eu não tenha seguido na minha área de formação e no momento nem cogite isso – por enquanto, não acho que valha a pena.

Mas algo que aprendi na História é justamente que ela “não volta”, ao contrário de muitas pessoas que acreditam em um “eterno retorno” de líderes, reis e messias. Já ouvi amigos dizerem que gostariam de ter 16 anos com a mesma cabeça que têm aos 36, o problema é que isso é impossível: o que somos e pensamos hoje foi moldado ao longo de nossa existência, fruto da experiência obtida com acertos e – principalmente – erros cometidos durante a caminhada.

Como diz o ditado popular, “o que passou, passou”. Mesmo que o mundo de forma geral fosse melhor em 2009 do que é agora em 2019, não há como voltar atrás: é melhor procurar entender os motivos pelos quais ele piorou nestes últimos 10 anos. Aliás, é justamente por isso que a História é tão importante e não pode ser negligenciada como os donos do poder querem que aconteça.

Conselhos: se fossem bons, seriam pagos

O ditado é um tanto “dinheirista”, mas concordo demais pois faz muito sentido.

Ontem postei uma foto cujo objetivo maior era o escárnio ao (des)governo instalado em Brasília na última terça-feira. Captura de tela do meu celular informando a temperatura de 37°C e dizendo que após o coisa ruim tomar posse, “estávamos no inferno”.

Pra quê… Recebi “conselhos” para “aproveitar melhor o verão”, como “me associar em clube com piscina”.

É o seguinte: isso não cabe no meu orçamento. Se coubesse, talvez já tivesse me associado… Talvez. Pois ser sócio de clube com piscina não me livraria desta noite de merda, com 30°C depois de uma hora da madrugada e ar condicionado não dando vencimento. E ainda tenho de torcer para não ter corte de luz – algo muito possível numa noite como essa. Sair de Porto Alegre me parece muito mais eficaz do que clube com piscina: pena que só tenha direito a 30 dias anuais de férias e o verão dure (pelo menos) 90… Sem contar que eu sequer teria dinheiro para passar um mês fora dessa fornalha.

“Ai mas no inverno os pobres sofrem, moradores de rua passam frio”: sim, mas eles não sentem calor também? O problema do inverno é meramente de ordem sócio-econômica: com um teto para se abrigar e roupas para vestir, dificilmente se sofrerá realmente com o frio por aqui.

Isso me dá muito nojo: gente que pode tranquilamente usar estufas e mesmo tirar férias durante o inverno para viajar a um lugar mais quente (ou simplesmente dormir até mais tarde já que, de fato, o frio dá preguiça de sair da cama), ao invés de fazer isso, prefere ficar de “mimimi” em rede social fingindo que se preocupa com os pobres, quando apenas quer uma desculpa “nobre” para sua preguiça de vestir algumas roupas a mais. E nem é no inverno inteiro: dá para “contar nos dedos” o número de dias de “renguear cusco” a cada ano – e em alguns deles não temos nenhum.

A pobreza não acaba quando a temperatura sobe, acho bom lembrarem disso. E eu mesmo reclamo de “barriga cheia” do calor: felizmente tenho ar condicionado (espero que haja energia para ele funcionar a noite inteira), os pobres que sofrem com o frio certamente estão com imensa dificuldade de dormir nesta noite de merda.

Larguem de ser populistas: vocês que reclamam de um inverno que é “fichinha” na comparação com Sibéria, Canadá, Escandinávia e mesmo a nossa vizinha Argentina, são de dar inveja a Trump e Bolsonaro.

E não me deem conselhos. Já tenho idade suficiente para saber o que quero. Se eu precisar de qualquer dica, pedirei. Caso eu simplesmente reclame de alguma coisa e não peça ajuda, reclame junto ou mantenha um respeitoso silêncio. E se quiser mandar contra, ao menos seja engraçado ao invés de passar conselhos que mais parecem “spam”.