Eliminatórias da Euro 2016: por que Gibraltar pode jogar, e Catalunha e País Basco não?

O fato esportivo da sexta-feira foi, sem dúvida alguma, a partida entre Alemanha e Gibraltar, em Nuremberg, válida pelas eliminatórias da Eurocopa de 2016. Quatro meses e um dia depois de conquistar seu quarto título mundial, a Seleção Alemã venceu por 4 a 0 e ouviu algumas vaias de uma torcida exigente e que espera ver o time repetir as mesmas atuações da Copa do Mundo. (Talvez os alemães estejam precisando de um joguinho com o Brasil – sabem como é, para “arrumar a casa”…)

Para os gibraltinos, perder por apenas 4 a 0 para os campeões mundiais foi uma façanha histórica. Não simplesmente por terem levado em 90 minutos (e na casa do adversário) o mesmo número de gols que a Seleção Brasileira tomou em menos de 30 na semifinal da Copa (jogando diante de sua torcida). É que a associação de futebol do pequeno território só foi aceita na UEFA (e ainda não na FIFA) em 2013, com sua seleção tendo disputado sua primeira partida oficial há menos de um ano (e, vamos combinar, começou bem: empate em 0 a 0 com a Eslováquia, que na Copa de 2010 eliminou a Itália).

Gibraltar é uma pequena península rochosa localizada ao sul da Espanha, e que a este país pertenceu até 1713, quando foi cedida ao Reino Unido pelo Tratado de Utrecht. Porém, posteriormente o Estado espanhol voltou a reivindicar o “rochedo” como parte integrante de seu território, e durante a ditadura de Francisco Franco a Espanha decidiu fechar a fronteira com Gibraltar, “isolando” a península (situação que perdurou até 1985) e tornando possível a chegada ou saída apenas por via marítima ou aérea: sim, o pequeno território possui um aeroporto que devido à falta de espaço tem a pista atravessada por uma avenida, cujo trânsito de veículos é interrompido quando algum avião pousa ou decola.

Mesmo possuindo aeroporto, Gibraltar não tem como abrigar as partidas de sua seleção de futebol pelas eliminatórias da Euro 2016 pois seu único estádio, com capacidade para 5 mil pessoas, não atende às exigências da UEFA. Devido à rejeição espanhola à filiação da Associação de Futebol de Gibraltar, o selecionado mandará seus jogos em Portugal.


A oposição espanhola a Gibraltar não impede sua seleção de disputar partidas oficiais pois o “rochedo” tem a “sorte” de pertencer ao Reino Unido, e não à Espanha. Segundo o artigo 10 dos estatutos da FIFA (à qual a UEFA é submissa), para uma seleção nacional poder disputar competições internacionais, sua associação precisa representar um país independente ou ter autorização expressa da associação do país ao qual pertence a região por ela representada; mas o mesmo artigo reconhece as quatro associações britânicas (inglesa, escocesa, galesa e norte-irlandesa) como membros independentes.

O resultado disso? Como Gibraltar é pertencente ao Reino Unido, sua associação não precisa de autorização para poder se filiar à UEFA (e muito provavelmente, logo integrará também a FIFA), já que não existe uma entidade única britânica.

Em compensação, a Espanha tem uma associação única (Real Federação Espanhola de Futebol), que não autoriza a filiação das associações da Catalunha e do País Basco, regiões cuja identidade não é meramente regional: tratam-se de nacionalidades históricas, com idiomas próprios – a língua basca, inclusive, não tem nenhum parentesco com a castelhana. O resultado disso é que as partidas disputadas pelas seleções da Catalunha e do País Basco sempre são amistosos sem caráter oficial, mesmo que os adversários sejam filiados à FIFA (caso do Brasil, que já enfrentou – e venceu – duas vezes a Seleção Catalã).


Em abril de 2001, a pequena cidade australiana de Coffs Harbour sediava uma das etapas das eliminatórias da Oceania para a Copa do Mundo de 2002. A Austrália (na época ainda filiada à Confederação Oceânica) era favorita não só por jogar em casa, mas também devido ao nível dos adversários, todos amadores: Fiji, Tonga, Samoa e Samoa Americana – esta última era uma dependência dos Estados Unidos, onde o futebol mais apreciado pela população é aquele cuja bola é oval.

A Austrália estreou no dia 9 de abril, aplicando 22 a 0 em Tonga. Achou muito? Pois dois dias depois os anfitriões foram ainda mais arrasadores: 31 a 0 sobre Samoa Americana, estabelecendo os recordes de maior goleada tanto de partidas entre seleções como de jogos organizados pela FIFA; com 13 gols marcados, o australiano Archibald Thompson tornou-se o maior artilheiro de uma só partida de futebol. Assistindo ao vídeo com os gols do jogo, é fácil perder as contas.

Três dias depois a Austrália venceu Fiji por (apenas) 2 a 0, e em 16 de abril encerrou a demolidora campanha na fase goleando Samoa por 11 a 0. Em apenas quatro partidas, os australianos marcaram 66 gols: para se ter uma ideia, o melhor ataque do Campeonato Brasileiro de 2014 até agora é do líder Cruzeiro, que balançou as redes adversárias 60 vezes em 34 jogos.


Por que tal lembrança? Para chamar a atenção quanto a esta bizarra situação: seleções de pequenos países (que não são independentes) como Samoa Americana e Gibraltar têm direito (e isso está corretíssimo) a disputar competições internacionais, enquanto outras de nações maiores e que contam inclusive com idioma próprio (casos da Catalunha e do País Basco) podem apenas jogar amistosos sem reconhecimento oficial.

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