Dia de perdas

A política brasileira está de luto com a trágica morte de Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e candidato à presidência pelo PSB. É uma grande perda, a ser lamentada independente da opção política. (E, numa triste coincidência, Campos faleceu exatos nove anos depois de seu avô Miguel Arraes, que também governou Pernambuco e foi um dos nomes mais importantes da política brasileira no Século XX.)

Hoje o dia também é triste para o jornalismo esportivo. Conforme anunciado três semanas atrás, o site Impedimento deixa de ser atualizado após a final da Libertadores, que será jogada logo mais. Mas é uma perda que vai além do mero jornalismo esportivo: a partir do futebol (e com foco na América do Sul), o Impedimento fala também de cultura, sociedade, política etc. Foi lá que li alguns dos melhores textos sobre os protestos de 2013, por exemplo.

Quem não conhece o Impedimento deve estar achando que os dois parágrafos acima não têm relação alguma, relatam apenas (mais) uma triste coincidência. Mas sim, eles têm a ver um com o outro, conforme explicarei agora.

O Impedimento tem vários fatores que o diferenciam dos principais portais e páginas sobre futebol. Um deles é tratar o esporte por uma ótica que foge do senso comum (algo sobre o qual pretendo escrever mais). Uma das consequências disso é o outro diferencial: os comentários em alto nível (salvo raríssimas excessões), com muitas discordâncias, mas que constituem uma discussão em seu sentido original, de “trocar ideias”; não raramente ela acabava fugindo do tema original (ou seja, o artigo publicado), mas não porque algum “troll” o fazia com esse objetivo e sim por uma “evolução natural”, justamente porque os textos fugiam do senso comum e por conta disso atraiam leitores com características semelhantes. Se toda a internet fosse como o Impedimento, aquela máxima “nunca leia os comentários” não faria sentido.

Mas infelizmente a realidade é outra. A maioria dos comentários em portais de notícias é simplesmente odiosa. Mas isso não se resume aos portais: quem comenta lá tem seus perfis em redes sociais, e neles reproduzem as mesmas “opiniões”. Que, ao contrário dos comentários do Impedimento, exalam muito senso comum. É o caso daquela máxima tão difundida de que “político é tudo igual, nenhum presta” (como se eles “chegassem lá” sozinhos, sem necessitarem de votos). Cria-se uma ojeriza à política que tem como resultado comentários celebrando o falecimento de Eduardo Campos, assim como em 2011 comemoraram o câncer de Lula e torceram pela morte do ex-presidente. E tenho certeza de que a maioria que disse tais sandices sequer tem conhecimento do que ambos fizeram como governantes.

Ah, se toda a internet fosse como o Impedimento…

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2 comentários sobre “Dia de perdas

  1. O próprio Impedimento, de certa forma, foi vítima da trollagem: ao colaborar com o infame Globo Esporte, o Ceconello acabou, involuntariamente, atraindo imbecis para o Impedimento. Se uns dois ou três desses fossem processados por danos morais (insultaram a mim, a outros que comentavam no site e aos próprios jornalistas), talvez o site tivesse uma sobrevida do ponto de vista financeiro, sempre um ônus para aquela equipe tão brilhante.

    Como disse o Flávio Gomes ao saber da triste notícia: o Impedimento era bom demais para a internet brasileira.

    • Pois é, quando falei sobre os comentários imbecis serem “raríssimas exceções” no Impedimento, esqueci justamente de dizer que a maioria dessas exceções era recente. De fato, nos últimos tempos era notório o aumento de comentários ofensivos (ainda que não fossem a maioria), tanto que recordo de um comentarista (dos sérios) chegar a dizer certa vez que “os comentaristas do globoesporte.com estão invadindo o Impedimento”.

      Quanto a essa frase do Flávio Gomes, é perfeita!

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