Como estou vendo a Copa

Em 2007, quando a FIFA confirmou que o Brasil sediaria a Copa do Mundo de 2014, me declarei contra a decisão devido aos diversos problemas que o país tinha – e continua a ter. Não fui exatamente uma “voz solitária”: várias outras pessoas que conhecia também diziam ser contra o Mundial acontecer por aqui; mas de forma geral, os brasileiros celebraram em 2007.

Diversos motivos fizeram com que eu não me empolgasse com a Copa no Brasil mesmo com a aproximação do momento da bola rolar. Desde questões pessoais (o final de 2013 e o começo de 2014 simplesmente não precisavam ter existido na minha vida), políticas (os abusos da FIFA são inaceitáveis, por mais que se goste de futebol), chegando até a previsões de que o Mundial seria um desastre (mesmo sabendo que em geral tais prognósticos eram supervalorizados pela oposição que sonhava com um caos na Copa para poder culpar o governo, com tanta gente martelando a mesma coisa era difícil não ser influenciado de alguma maneira).

Pois bem: a Copa começou, e então passei a, enfim, curti-la. Afinal de contas, gosto de futebol. Não é toda hora que se tem a oportunidade de assistir a grandes jogos (embora eu não tenha comprado ingresso para nenhum), e também de presenciar momentos memoráveis como a “Orange Square” (tradicional festa dos torcedores da Holanda antes dos jogos de sua seleção); e depois a caminhada da “massa laranja” em direção ao Beira-Rio embalada pelo ritmo empolgante da sensacional banda Factor 12.

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Isso quer dizer que mudei de ideia em relação à Copa, que considero um erro minha contrariedade em 2007? Claro que não. Ainda prefiro um Brasil melhor do que o Mundial. Porém, algo que andei pensando muito ultimamente foi: e se a Copa não tivesse vindo para cá, será que o país teria melhorado mais nestes últimos sete anos? Respondo: provavelmente não…

Minhas críticas à Copa do Mundo não se resumem em “ela tirou dinheiro da saúde e da educação”: tal frase corresponde a uma meia-verdade. As reformas e construções de estádios tiveram dinheiro público, mas boa parte dele corresponde a empréstimos do BNDES, ou seja, é grana que voltará aos cofres do governo. A “perda” foi em impostos que deixaram de ser arrecadados, visto que várias obras tiveram isenção fiscal – logo, menos arrecadação pelo poder público. Mas, os problemas da Copa não são apenas esses.

Afinal, muitos dos que criticam os gastos da Copa o fazem por puro e simples moralismo (aquela história de “abaixo a corrupção”, mas apenas atacando os agentes públicos corruptos sem se dar um pio quanto aos corruptores privados). Mas não estão “nem aí” para famílias que sofreram remoções forçadas por conta de “obras da Copa”, acham boa a “higienização social” nas cidades-sede do Mundial, e vibram quando a PM “desce a porrada” nos manifestantes (concorde-se ou não com suas pautas, eles têm todo o direito a protestar, a não ser que a democracia tenha sido revogada). Sem contar os operários que morreram nas obras dos estádios da Copa, alguns dos quais se tornarão “elefantes brancos” após o Mundial.


“Enquanto te exploram tu grita gol!”, diz uma frase que li em vários muros. Eis algo que considero o principal erro de muitos que não gostam de futebol: tratar quem gosta como “burros”, “alienados” etc. Aliás, declarando isso muitas vezes pelo Facebook: se o futebol é o “ópio do povo” como tantos gostam de dizer, a rede de Mark Zuckerberg (na qual a imensa maioria das postagens é pura bobagem) é o quê? Beber até cair, então, deveria ser atestado de “alienação” eterna.

Se há pessoas que gostam de futebol e são “alienadas”, isso não se deve ao esporte bretão: no lugar dele haveria outro “ópio do povo” (Facebook?). Assim como existem diversos casos de torcidas e mesmo clubes politicamente engajados. Um dos mais famosos é o St. Pauli, da Alemanha, que baniu de seu estádio quaisquer membros de movimentos extremistas de direita e por conta disso passou a ser cultuado por militantes anarquistas, socialistas e comunistas em vários outros países; em entrevista ao programa “Futebol, uma viagem”, o chefe de segurança do clube disse algo sensacional: “eu não jogo fora meu cérebro quando vou para um estádio”.

Mas não é preciso ir tão longe: o Ferroviário Atlético Clube, de Fortaleza, foi fundado em 1933 por trabalhadores da Rede de Viação Cearense (RVC) – ou seja, é um clube operário inclusive em suas origens. Terceiro maior vencedor do Campeonato Cearense, o Ferroviário revelou jogadores como Jardel (campeão e artilheiro da Libertadores de 1995 pelo Grêmio) e Iarley (campeão da Libertadores e do Mundo pelo Inter em 2006), e também tem uma torcida declaradamente de esquerda: a Ultras Resistência Coral, criada em 2005 por torcedores anarquistas e comunistas, combatendo o machismo, o racismo, a homofobia e a intolerância comum a diversas organizadas.

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Um comentário sobre “Como estou vendo a Copa

  1. Reproduzo aqui o comentário que fiz em um artigo publicado no Sul21 sobre os gastos com a Copa:

    “A questão dos gastos da Copa devem ser melhor aprofundados. Essa comparação dos valores absolutos do Orçamento da União para a saúde e a educação e os da Copa apenas confundem e nada esclarecem.
    Em primeiro lugar, é preciso que se diga que, do Orçamento da União, são destinados, em média, por ano, nada mais de 4% para a saúde e pouco mais de 3% para a educação, valores pífios que como sentido e reclamado são insuficientes para dar conta de um serviço de qualidade. Em 2008 um estudo da USP mostrava que o gasto per capita em saúde no país era similar ao do início dos anos 90. De lá para cá a situação não se alterou. Para piorar todo o ano o governo corta dessas áreas para fazer o superávit primário.
    Contrastando com essa realidade vimos a promessa de dinheiro privado não ser cumprida e o Estado brasileiro desembolsar o dinheiro necessário para garantir a construção dos Estádios. O Maracanã, apenas para ficar em um exemplo, tinha o custo inicial de 400 milhões, foi gasto quase 2 bilhões e entregue para o Eike Batista e Cia por 185 milhões! A população, embora não disponha de conhecimentos econômicos mais apurados e sequer saiba o que é superávit primário, acabou percebendo que tinha por um lado, estádios padrão FIFA e por outro saúde e educação próximos de um padrão várzea, percebendo assim que ela não é prioridade dos governos.
    Em segundo lugar, quando se fala de infraestrutura é preciso que se diga que os aeroportos estão sendo privatizados com dinheiro público, o que expõem outras duas contradições do governo: o de não ser privatista e o de não possuir recursos para investir (argumento utilizado para privatizar os aeroportos e outras áreas).
    Do item anterior vem o terceiro ponto a ser melhor esmiuçado: o BNDES. A maior parte dos recursos desse banco são oriundos de emissão de títulos do Tesouro, prática que eleva o endividamento público, que depois é pago às custas de superávits que tiram recursos da saúde e da educação. Ou seja, os financiamentos para a Copa retiram sim dinheiro da saúde e da educação.
    Como as transações do BNDES não são transparentes, não se sabe se seus empréstimos são ou não devolvidos. Há pelo menos dois casos de calotes bilionários conhecidos: Eike Batista e AES.
    Mas mesmo que o fossem, não se pode perder de vista que esses recursos são subsidiados pelo Estado e que o conjunto da população, além de perder recursos para áreas essenciais, ainda paga a diferença do subsídio para garantir os lucros dos grandes grupos econômicos.
    Os desembolsos do BNDES para o grande capital, essa verdadeira “bolsa-empresário”, é, em média, 3 vezes superiores ao orçamento anual da educação!”
    http://www.sul21.com.br/jornal/a-copa-do-mundo-e-o-brasil-como-se-posicionar-por-livi-gerbase-e-leonardo-albarello-weber/

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