Falta muito?

Criança viajando sempre é ansiosa. Entra no ônibus, no carro, no avião, louca para chegar ao destino. Tanto que depois de um tempo, começa a perguntar, toda hora, se falta muito para chegar. Afinal, já viajamos tanto que certamente já estamos chegando. Mas não, o destino ainda está longe.

Com o tempo, aprendemos a apreciar o trajeto, as paisagens que nos separam do lugar para onde vamos. Inclusive, em uma das tantas máximas que usam viagem como exemplo, dizem que a felicidade não é nosso destino, mas sim o caminho. Afinal de contas, quem vive em busca da felicidade, obviamente não tem uma vida feliz – e provavelmente nunca terá.

Isso não significa que aprender a apreciar o caminho torne qualquer viagem boa. Pois saber que o destino é ruim faz com que o trajeto até ele torne-se também ruim. Dá vontade de ir para outro lugar, ou de voltar ao ponto de onde saímos.

Pois é mais ou menos essa sensação que tenho no Brasil de hoje. Vivemos dias de muito ódio, muita raiva, muita mentira. Inventam imbecilidades do tipo “PT vai dar um golpe comunista” (Karl Marx, aniversariante de hoje, dá um duplo twist carpado no túmulo toda vez que alguém curte ou compartilha essa merda), ou difundem absurdos sobre programas sociais e seus beneficiários, reproduzidas constantemente por gente que tem preguiça de fazer uma rápida pesquisa no Google. Um boato de Facebook se espalha, vira “verdade”, e pessoas são linchadas até a morte por conta disso. E isso que a campanha eleitoral ainda não começou: 2010 é brincadeira de criança perto do que se verá neste ano.

Pior é abrir o Facebook e dar de cara com essas coisas. Farei logo a mais ampla seleção de contatos desde que criei minha conta lá, de modo a manter apenas o que vale a pena. Afinal, tenho o direito de não visualizar manifestações do quão maldosa pode ser a espécie humana. Porém, sei que isso equivale apenas a fechar a cortina do ônibus para não enxergar a paisagem que se encontra no lado de fora da janela: ela continua lá, e seguimos viajando.

O destino dessa viagem? A barbárie.

Será que falta muito? Há algum retorno antes de chegarmos lá?

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2 comentários sobre “Falta muito?

  1. Muito bom Rodrigo. É difícil perceber essa realidade, mas ela está bem abaixo do nosso nariz. E a sensação de impotência é grande.

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