A redação da UFRGS

Este janeiro de 2014 marca o 10º aniversário de minha aprovação no vestibular para História na UFRGS. Ver aquele monte de estudantes na frente de colégios me faz sentir um misto de alívio e saudosismo: o primeiro por ter superado tal etapa (por mais que muitas vezes durante a faculdade pensemos que no vestibular “éramos felizes e não sabíamos”, trata-se de um autêntico “rito de passagem”, com suas incertezas e angústias), e o segundo por conta da vontade de recomeçar, ingressar em uma nova fase, assim como aconteceu 10 anos atrás.

Dentre os fatores que geram ansiedade no vestibulando, um deles é, sem dúvidas, a redação. Pois, quando estudamos, nos preparamos para responder às provas objetivas por meio de exercícios que não nos dizem exatamente o que cairá no vestibular, mas já “dão uma pista”. Já com a redação, acontece algo diferente: escrevemos várias, sobre diversos temas, com o objetivo de estarmos preparados; e isso de fato nos ajuda a aumentar nossa capacidade argumentativa – o que é realmente avaliado em uma dissertação. Porém, só sabemos sobre o que teremos de escrever na hora que abrimos a prova.

Claro que podemos ter algumas “pistas”, em alguns casos. Meu primeiro vestibular foi o da PUCRS: no dia 4 de janeiro de 2000, enfrentei um longo congestionamento (mas cheguei a tempo!) para fazer a prova de língua portuguesa; ao final, lá estava a “questão de redação” (como era chamada). A universidade propunha três temas, todos ligados a assuntos que tinham sido noticiados na imprensa; um deles dizia respeito às celebrações dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, que seriam completados meses mais tarde. Não tenho o esboço do texto (não recordo se a folha de rascunho precisava ser entregue com a prova ou se perdi), e por isso não lembro qual tema escolhi, mas uma certeza tenho: achei mais difícil escrever a redação da PUCRS que a da UFRGS, cujo vestibular começaria dentro de alguns dias.

A principal diferença consistia no tipo de tema. Enquanto a PUCRS costumava propôr assuntos noticiados na imprensa, a UFRGS optava por temas mais “subjetivos”, como ética, amor, esperança etc. Algo que, aliás, ainda acontece: o tema de 2014 foi o livro considerado “clássico” pelo candidato. Assim, por um lado ela é mais “imprevisível” (afinal, não é possível dar “palpites” quanto ao tema com base em “assuntos do momento”), mas por outro, escrever sobre coisas “subjetivas” aos 17 anos de idade me parece mais fácil do que, por exemplo, dissertar sobre o povo brasileiro. E como no vestibular da UFRGS o rascunho da redação é escrito no caderno de prova (que o candidato leva para casa no dia seguinte), é possível reler, anos depois, o que escrevemos naquele dia.

Quantas vezes não lemos textos escritos por nós mesmos há muitos anos e praticamente “não nos reconhecemos” neles? Pois bem: foi exatamente isso, estranhamento, que senti ao reler os rascunhos das redações escritas em três vestibulares prestados na UFRGS (2000, 2003 e 2004). Por motivos óbvios, elas não são os melhor textos de nossas vidas; mas, ainda assim, são verdadeiros “documentos históricos” acerca do que pensamos na época em que escrevemos. Por meio dela, podemos ter noção de nossa mentalidade de 10, 15 anos atrás.

Em 2000, quando passei em Física, a universidade fez o seguinte questionamento no tema da redação: “é possível relativizar um princípio ético em nome de um bem maior?”. O título (pelo menos no rascunho) foi “Solidariedade x Moralidade” – ou seja, confundi ética com moral. E o texto soa estranho, se comparado com o que defendo hoje em dia. Pois em um trecho falei sobre a questão da reforma agrária, só que aquilo mais parecia “copiado e colado” de uma matéria da Veja: dizia que ela seria benéfica aos que não tinham onde plantar mas prejudicaria aqueles que já tinham há muito mais tempo e como fruto de muito trabalho. Assim, “no geral”, sem distinguir dentre pequenos, médios e grandes proprietários no grupo dos que “já tinham”. Ou seja, segundo meus valores da época, era preciso respeitar o “direito de propriedade” mesmo que isso significasse manter grandes extensões de terra nas mãos de uns poucos proprietários que muitas vezes produzem quase nada; e ignorando o princípio da função social da propriedade, previsto na Constituição de 1988.

Dois anos depois, larguei a Física e não tinha exata ideia do que faria depois. Decidi fazer o vestibular de 2003 mais para “me testar” com vistas a 2004, e por isso marquei Direito, para “ter certeza” de que não passaria e ingressaria num curso sem ter convicção. Veio a redação, com o seguinte tema: “pode o amor servir de justificativa para qualquer atitude tomada em nome dele?”. O texto no qual sustentei que o amor não justifica tudo ficou inegavelmente melhor que o de 2000, mas alguns trechos são tão “clichê” que é impossível não rir. Mais adiante, aproveitei para fazer uma dura crítica ao stalinismo, mas por um viés de esquerda, bem distante daquele conservadorismo de três anos antes.

Enfim, chegamos a janeiro de 2004, hora de (literalmente) fazer História. Na redação, o questionamento: “nos dias de hoje, ter esperança é lutar pela concretização de projetos pessoais ou alimentar utopias?”. Foi a melhor das três redações escritas, apesar de novamente contar com alguns lugares-comuns do tipo “a esperança é a última que morre”. Argumentei que a esperança é o que faz a humanidade se mover, evoluir, mesmo que signifique, aparentemente, alimentar utopias. Ou seja, mandando às favas os argumentos conservadores de que não vale a pena lutar por causas consideradas “impossíveis” (lembram do que falavam sobre a passagem de ônibus de Porto Alegre antes dos protestos?). Para sustentar o argumento, citei acontecimentos remotos e também recentes. E naquela época, um deles era a reação do Grêmio no Campeonato Brasileiro de 2003, escapando de um aparentemente inevitável rebaixamento – isso mesmo, usei o Grêmio como exemplo! (O que torna imperioso um exercício de imaginação: caso tal tema fosse proposto dois anos depois, certamente choveria “Batalha dos Aflitos”…)

Comparando aqueles textos com o que escrevo (e penso) atualmente, não resta dúvidas: mudei bastante de lá para cá. Como, aliás, qualquer pessoa mudaria em um período de 14 anos. E isso se dá “aos poucos”, não “de uma hora para a outra”. Mas a percepção só é possível com tais “estranhamentos”, comparações entre o que éramos antes e o que somos no momento. Por isso, é muito interessante guardar textos como os rascunhos das redações de vestibular (principalmente caso não se tenha o hábito de escrever regularmente e sem “obrigação”): ela diz muito sobre o que somos em determinada época.

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Um comentário sobre “A redação da UFRGS

  1. Olá…
    Fiquei encantada pela tua retrospectiva e bastante curiosa sobre o que realmente escreveste na íntegra nas tuas redações. Se ainda tens os rascunhos, poderias publicá-los para dar “dicas” àqueles que estão tentando UFRGS. O que achas?
    Abraços,
    Ana

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