A escolha de um nome

Alguns dias atrás, li esse texto muito interessante da Nikelen Witter sobre o ato de nomear – desde coisas a até mesmo pessoas. É daquelas coisas aparentemente simples mas que, se paramos para pensar, percebemos ter uma grande complexidade.

Tecnicamente falando, nomes são substantivos, e estes têm a função de designarem seres, coisas, situações etc. Existem diversas classificações para os substantivos, todas as quais não vêm ao caso especificar aqui. Recordo de quando estava no colégio e aprendi isso, em especial da diferenciação entre “substantivos comuns” e “próprios”: os comuns nomeavam espécies e eram escritos em letras minúsculas (por exemplo, “país”), e os próprios algo específico dessa espécie e por isso grafados com inicial maiúscula (por exemplo, “Brasil”).

Todas as palavras (sejam substantivos ou não) carregam algum significado. “Brasil”, por exemplo, não é simplesmente o nome de nosso país: foi adotado por conta da abundância na Mata Atlântica, quando da chegada dos colonizadores portugueses, de uma árvore conhecida como “pau-brasil” por conta de sua madeira avermelhada, “cor de brasa” (“brasil” em português arcaico). Os nomes, portanto, não surgem “do nada”: todos eles têm muita história por trás.

No caso de nomes de pessoas, eles também têm significados de longa data – inclusive há “dicionários de nomes próprios” aos montes na internet. Mas, por fazerem referência a pessoas – que têm um tempo de existência limitado – acabam assumindo significados diversos daqueles “originais”, variando de acordo com lugares, visões de mundo etc. Muitos nomes próprios “nascem” devidos a personalidades de grande importância: há pessoas que têm nomes como “Bolívar” e “Lenine”, em óbvias referências a Simón Bolívar (líder da luta pela independência de vários países sul-americanos) e a Lenin (revolucionário comunista russo que inclusive nem fora batizado com tal nome, mas ficou conhecido pelo apelido).

Toda essa “enrolação” acima foi para começar a contar a razão de meu nome. Segundo um “dicionário de nomes próprios” consultados, “Rodrigo” vem do latim Rodericus, que por sua vez se origina do germânico antigo Hrodrich, significando “poderosamente famoso” ou “governante famoso”. Mas, antes do leitor se finar de rir (afinal, não governo porra nenhuma), convém lembrar a inspiração: meu pai conta que decidiu pelo nome quando, em sua juventude, leu as histórias de El Cid, como era conhecido o nobre guerreiro castelhano Rodrigo Díaz de Vivar, que combateu os Mouros (muçulmanos que ocuparam a Península Ibérica durante a Idade Média). El Cid faleceu em uma cama no seu castelo, em 1099; porém, a lenda diz que ele foi morto pelos Mouros e, diante do acontecido, a mulher de Rodrigo ordenou que o corpo fosse amarrado ao cavalo com uma espada na mão e enviado ao campo de batalha, apavorando os adversários que fugiram e, com isso, El Cid teria vencido sua última batalha “depois de morto”.

Quando minha mãe engravidou, porém, existiam duas propostas de nomes para o “futuro eu”: além de “Rodrigo”, também estava no páreo “Marcelo”, mesmo nome de um irmão da minha avó paterna que faleceu no dia seguinte ao nascimento do meu pai. A família se dividiu entre “rodriguistas” e “marcelistas”, e a única solução para o impasse foi decidir no voto: assim, cerca de um mês antes do meu nascimento, “Rodrigo” foi democraticamente eleito o meu nome em uma reunião familiar realizada em Rio Grande.

Três anos e meio depois, coube à minha mãe decidir o nome do meu irmão que estava para nascer. Mas dessa vez não houve disputas: ela escolheu “Vinicius” em homenagem a Vinicius de Moraes, e meu pai, fã do poeta, sequer pensou em fazer qualquer ressalva…

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Provavelmente alguém queira saber, também, qual é a origem do nome “Cão Uivador”. Certa vez, descobri que existe um romance policial chamado “O Caso do Cão Uivador”, escrito pelo estadunidense Erle Stanley Gardner e publicado em 1934. Porém, nunca cheguei a ler o livro (aliás, eis uma boa ideia de leitura).

Este “Cão Uivador”, portanto, não deve seu nome ao romance, mas sim, a um poema que escrevi em 1991. Antes do Cão eu tinha um blog chamado Kardía (êta criatividade…) e pensava em renomeá-lo; mas acabei decidindo por criar um novo, pois não concordava mais com boa parte do que tinha escrito no antigo. Foi meu pai que lembrou o poema quando eu falava sobre não ter ideias para o nome, em 14 de maio de 2007, e assim surgiu não só o novo blog como também sua postagem inaugural.

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