O brasileiro classe média não curte autocrítica

A escritora Carol Bensimon publicou um artigo na Zero Hora da última segunda-feira, no qual fez uma sensacional crítica ao típico cidadão brasileiro de classe média. O texto sofreu muitas críticas, pelos mais variados motivos, mas o principal me parece ser aquele tradicional “serviu o chapéu”.

Lendo o artigo, tinha a impressão de que estava diante de meus olhos um “resumo” do genial blog satírico Classe Média Way of Life, escrito entre 2009 e 2010 como se fosse um manual de instruções, dando várias “dicas” de como se comportar como a classe média brasileira. Decidi ler os comentários (algo que não costumo fazer em sites de notícias) e também me deparei exatamente com o mesmo tipo de opiniões críticas que lia no Classe Média Way of Life, que podem ser resumidas na expressão “ofensa à classe média”.

Alguém obviamente fará aquele comentário que, de tão óbvio, irrita: “mas de que classe tu és?”. Pois bem: sou da mesma classe média, tão massacrada criticada. Porém, prefiro refletir sobre minhas atitudes ao invés de sair xingando e assim confirmar que “serviu o chapéu”. O que, aliás, apenas dá mais razão às críticas.

Os questionamentos quanto à classe social que pertencem os críticos apenas confirmam minha impressão lá do final de 2009: o brasileiro classe média odeia autocrítica. Acha que criticar o grupo ao qual pertence é atacar a si próprio. Se pertencemos a um grupo que é criticado (por alguém que pertença ou não a ele), o mínimo que devemos fazer é refletir sobre isso, ver se tais questionamentos são realmente aplicáveis a nós – e caso sejam, responder com argumentos ou mesmo repensar nossas atitudes.

Sem contar que quem se sente ofendido por uma crítica genérica, muito provavelmente é merecedor dela.

2 respostas em “O brasileiro classe média não curte autocrítica

  1. A classe média brasileira odeia ser identificada como tal, pois considera muito natural a sua ascendência soberba sobre as demais classes sociais, situadas abaixo dela, e cujo destino inexorável é servi-la da maneira mais ordinária possível. Quando alguém do grupo lembra que o espírito democrático e republicano não é incompatível com a classe média, mas é incompatível com a autorepresentação da classe média brasileira, a grita é grande, pois nós somos herdeiros de uma modernidade periférica impermeável a qualquer noção de igualdade que transcenda os limites da legislação.

  2. A classe média vai servir de estudo em um futuro bem distante e vai dar prova de que zumbis sociopatas existiram de fato. E eram muito fiéis ao seu bando de cidadãos de bem.

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