A beleza da qual Porto Alegre abre mão

Diz-se que antigamente, o porto-alegrense que ia a Montevidéu não notava muita diferença. E, de fato, não foram poucas as ruas da capital uruguaia que me deram a sensação de estar “em casa” quando lá estive pela primeira vez, em agosto de 1998.

Voltei a Montevidéu em fevereiro de 2006. Lendo o principal jornal do Uruguai, El País, me deparei com uma matéria que fazia justamente a tradicional comparação entre a capital uruguaia e Porto Alegre. E o texto chamava a atenção para o fim da “semelhança” entre as duas cidades: antigamente ambas tinham um ritmo mais, digamos, “pacato”; já em 2006, Porto Alegre lembrava muito mais São Paulo do que Montevidéu.

Engana-se quem pensa que o “distanciamento” entre Porto Alegre e Montevidéu deva-se apenas ao trânsito cada vez mais caótico da capital gaúcha. Há outros aspectos que mostram como estamos abrindo mão de nosso lado “montevideano”.

Um deles diz respeito à arborização. É verdade que Porto Alegre ainda tem muitas ruas com árvores, extremamente necessárias para que a cidade não se torne totalmente inóspita durante o verão. Porém, abre-se mão delas com uma facilidade constrangedora. Como prova o caso das árvores derrubadas no final de maio para que uma avenida seja alargada: trocou-se sombra, barulho de pássaros e ar menos poluído por sol inclemente, roncos de motores e fumaça. Montevidéu, por sua vez, tem árvores até nas ruas centrais.

Uma rua arborizada em pleno Centro

Uma rua arborizada em pleno Centro

Porto Alegre também sofre de uma estúpida fixação por edifícios altos e “modernos”, com muitas vagas de estacionamento para carros. A cidade, capital de um Estado que tanto se vangloria de ser “o melhor em tudo”, quer a todo custo aderir a um modelo padronizado de “modernidade”, que despreza a memória.

Um caso pessoalmente emblemático é o do Esquilo Travesso, escola de educação infantil que frequentei de 1986 a 1988. Ela encerrou suas atividades no final de 2008, pois funcionava em uma casa alugada, que foi vendida. Imaginei que em seu lugar seria erguido um edifício desses “modernosos”, todo envidraçado (o que acarreta em maior gasto de energia devido ao necessário uso constante de ar condicionado durante o verão); mas na última vez que passei por lá (em 2011) vi que o destino da área não foi menos simbólico do “progresso” porto-alegrense: um estacionamento. Crianças aprendendo e brincando foram substituídas por carros.

A escolinha ficava na Rua Dona Laura, bairro Rio Branco. Foi indicada pela terapeuta com a qual me tratava, que atendia em uma rua próxima, a Luciana de Abreu, no vizinho bairro Moinhos de Vento. De tal forma que aquela região da cidade está bastante associada à minha infância, mesmo que pouco frequentada depois de 1988, quando concluí o Jardim de Infância e deixei o Esquilo – morava no bairro Floresta, por cujas ruas andei muito mais.

Praticamente defronte ao prédio onde ficava o consultório, pouco depois de uma curva, há um conjunto de casas da década de 1930, típico do Moinhos de Vento, que se depender dos interesses do poder econômico será posto abaixo e substituído por um edifício “moderno”, igual a vários que se espalham pela cidade. Literalmente igual, pois as construtoras parecem sofrer de uma terrível falta de criatividade, seguindo padrões e os repetindo em todos os prédios que constroem. Porto Alegre está se “pasteurizando”: os bairros perdem suas características peculiares, e fica difícil saber se estamos no Moinhos de Vento, no Bom Fim ou no Menino Deus, pois os espigões são iguais; e tal processo se dá em inúmeras cidades, tornando-se difícil distingui-las.

E agora, pense: se isso acontece mesmo em “bairros nobres” (nos quais “todo mundo quer morar”, desculpa usada pelas construtoras para derrubar casas e erguer espigões), imagine o que se passa nas regiões periféricas que atraem o olho grande do poder econômico

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O pior é perceber que para ser “cosmopolita” uma cidade não precisa abrir mão de suas características. Porto Alegre quis deixar de parecer com Montevidéu e optou por copiar os erros de São Paulo, quando poderia ter apenas “desviado os olhos” da capital uruguaia buscando inspiração em Buenos Aires, uma grande metrópole que, assim como Montevidéu, preserva os prédios antigos – o Centro da capital argentina é encantador justamente por conta disso.

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Caso exemplar é o do antigo teatro Grand Splendid, que fechou as portas e teve sua arquitetura original mantida, sendo apenas adaptada ao funcionamento de uma filial da rede de livrarias El Ateneo, uma das mais tradicionais da Argentina. A remodelação do prédio resultou em uma das livrarias mais belas do mundo; no antigo palco, no qual cantou Carlos Gardel, funciona um café, que tem os livros como “plateia”.

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9 comentários sobre “A beleza da qual Porto Alegre abre mão

  1. Usar um teatro fantástico desses como livraria me parece mais um erro grotesco do que uma bela ideia.

    • Olha o tamanho da merda que acabastes de falar… Quer dizer que se o teatro fechou as portas, era melhor o prédio ficar abandonado (ou construir uma daquelas estúpidas torres envidraçadas)?

      • Dá dó ver um espaço como este perder seu valor, sua arte e cultura. Achei melhor uma livraria lá do que acontece por aqui, já que no Brasil é muito mais fácil demolir e levantar algo mais lucrativo, especulatório… Aqui as memórias valem pouco, lamentavelmente.

  2. Essa tal “preservação do patrimônio histórico” é uma grande ignonímia contra o direito à propriedade. Se o dono do terreno onde o referido teatro encontra-se erigido assim desejasse, tal construção poderia muito bem vir abaixo para dar seu lugar a um estacionamento, estabelecimento muito mais de acordo com os valores e preferências da sociedade.

  3. Precisamos criar uma “cultura de paisagem” em Porto Alegre, onde as pessoas aprendam a valorizar os elementos construídos e naturais como parte da história e do cotidiano da cidade. Mesmo de um ponto de vista economicista, seria falacioso argumentar que o desenvolvimento imobiliário e a verticalização são os únicos caminhos para o desenvolvimento econômico. Do contrário, cidades como Paris e Amsterdam (praticamente congeladas arquitetonicamente há pelo menos 100 anos), não poderiam ter dinamismo econômico nenhum. Para dinamizar, basta refuncionalizar. Os grandes equipamentos culturais (como cinemas) estão completamente degradados, e nenhum arquiteto minimamente inteligente cria formas de refuncionalizar antigos espaços. Do ponto de vista social e do planejamento urbano, é necessário que todas as decisões sobre as alterações passem por um controle público e uma participação no processo decisório, junto com os técnicos.

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