Algumas (?) linhas mais sobre os protestos

Os protestos das últimas semanas, confesso, me deixaram confuso. Inicialmente, achei fantástico ver multidões nas ruas do Brasil, embora a mudança de postura da mídia conservadora me intrigasse. Veio a quinta-feira e os relatos da infiltração da extrema-direita nas manifestações, em especial na de São Paulo, e então me preocupei, defendendo que era preciso dar uma trégua – o que não aconteceu.

Com isso, tinha decidido não ir ao protesto de segunda-feira em Porto Alegre. Ouvi diversos argumentos pró e contra participação nas manifestações de massa, que tinham perdido seu foco inicial de luta por um transporte público acessível e de qualidade. Em favor de ir aos atos, a necessidade de não deixar a direita falando sozinha nas ruas. Já por outro lado, também havia o problema de ir ao protesto sem saber bem o que reivindicar, e acabar dividindo espaço com gente que carrega cartazes com mensagens que significam o oposto do que defendo.

Assim, acabei ficando em casa – ainda mais que tinha trabalhos por terminar. Eis que, lendo relatos (além da bela reportagem feita pela equipe do Sul 21), fiquei ao mesmo tempo preocupado mas também esperançoso, e motivado a ir ao próximo protesto.

A preocupação se deve ao aumento do número de vândalos nos atos. Antes dos protestos “virarem moda”, eles eram uma minoria (mas sempre eram o destaque na cobertura da mídia conservadora, que não falava da maioria pacífica, ao contrário do que acontece agora). Agora, eles estão se infiltrando em maior número graças ao aumento da quantidade de manifestantes, promovendo roubos e arruaça em proporção maior do que antes. (E a Brigada Militar, ao invés de pegar somente os vândalos, joga bomba de gás lacrimogêneo a esmo, atingindo gente que nada tem a ver com o distúrbio.)

Por outro lado, o que me agradou foi saber que, ao contrário do que aconteceu na última quinta-feira, a manifestação de segunda em Porto Alegre teve pauta. Havia vários cartazes “contra a corrupção”, mas um caminhão de som dava o tom dos gritos de protesto, focando no passe livre e no transporte público – ou seja, a causa inicial da onda de manifestações.

Pode ser que um protesto focado tenha menor adesão, mas acho melhor assim: menos pessoas, mas com todas defendendo a mesma causa, ao invés de 100 mil que gritam tantas coisas diferentes diferentes a ponto de não se entender quase nenhuma delas. Afinal, com um grito em uníssono, fica mais fácil saber o que é reivindicado – e assim, conseguir novas adesões à causa.

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3 comentários sobre “Algumas (?) linhas mais sobre os protestos

  1. Tem muita gente interessada em acabar, ou desvirtuar, as mobilizações: a mídia, a direita, os fascistas mas também, e principalmente, o governismo. Este último superdimensiona o peso do fascismo para pregar abertamente a desmobilização, como visto em alguns artigos de defensores do governo. Falam em golpe, mas omitem que muitos golpistas apóiam o governo federal e o que dizer dessa lei de terrorismo apoiada pelo PT? Isso não é golpe?
    http://www.sul21.com.br/jornal/2013/06/protestos-apressam-votacao-da-lei-de-crimes-de-terrorismo-no-brasil/#comment-165721

  2. Comigo foi o contrário, no início, não gostei, achei que fosse só um quebra-quebra passageiro (e de passageiros) como ocorre quando do aumento das tarifas, mas o movimento ganhou contornos muito maiores e enfoques idem. Voltou-se contra a Copa do Mundo (confesso que jamais pensei em ver isso no Brasil) e os governos, de forma generalizada. Falta foco, objetivos definidos? Sim, talvez sim. A tônica é o descontentamento, é o saco cheio do brasileiro.
    Têm que continuar.
    Mais:
    http://amarretadoazarao.blogspot.com.br/2013/06/ate-quando-esperar-plebe-ajoelhar.html

  3. Se de alguma forma isso puder responder aos seus questionamentos, passadas duas semanas, o Brasil está muito mais “a direita” do que antes. Até o momento, as manifestações tem servido mais aos conservadores… Isso é fato.

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