A vida é uma soma de insignificâncias

O avião é o meio de transporte mais seguro que existe. Mas ao mesmo tempo é também o mais apavorante para muitas pessoas. Afinal de contas, por mais que as estatísticas nos mostrem que morrer em um acidente de carro a caminho do aeroporto é mais fácil do que na aeronave, também sabemos que um erro do piloto pode ser fatal – ou seja, sentimos que nossas vidas está nas mãos de outra pessoa. Quando viajamos de carro, temos a ilusão de que está tudo sob controle: sim, uma ilusão, pois mesmo tomando todos os cuidados necessários quando se dirige, um outro motorista pode estar bêbado ao volante e na próxima curva nos acertar em cheio, de frente, sem que tenhamos tempo suficiente para desviar.

Acredito que tenha sido mais ou menos assim que o papo com o Alexandre Haubrich, do Jornalismo B, tenha tomado a direção que tomou quinta-feira passada, no Parangolé. Resumindo: somos resultados de escolhas que nós mesmos e outras pessoas fazemos. E que, por mais insignificantes que sejam aparentemente, definem o que será de nossas vidas a curto, médio, ou longo prazo.

Desde que nascemos fazemos inúmeras escolhas, a maioria das quais esquecemos pouco tempo depois. Não lembro, por exemplo, de onde almocei e do que pus no meu prato dois meses atrás. Mas, acreditem, isso foi e é importante: caso eu coma um pastel aparentemente bom, mas cujo recheio seja muito velho, a chance de eu ter dor de barriga é elevada. E a recíproca pode ser verdadeira, pois o fato de eu não estar com dor de barriga agora pode muito bem se dever a não ter comido algo que me faria mal (hoje eu lembro que não tinha pastel no almoço).

O exemplo que dei foi bem simples. Mas, como disse, sofremos as consequências de todas as escolhas. A dor de barriga pode passar logo, ou fazer com que busquemos atendimento médico; no hospital ou no posto de saúde, o tempo de espera não depende de nós, e sim da quantidade de médicos disponíveis e do número de pessoas que também precisam de atendimento, que pode ser bom ou ruim dependendo do profissional que for designado para nos atender etc. Perceba: a decisão de comer aquele pastel aparente inofensivo, que causou nossa dor de barriga, pode influenciar os humores de várias pessoas, desde os médicos (que como quaisquer seres humanos, se estressam com trabalho em excesso) até às outras pessoas que buscam atendimento (estamos aumentando o tamanho da fila). Mas, olhem só: não fosse aquele maldito pastel, menos pessoas estariam esperando atendimento? Não necessariamente, pois a opção contrária (ou seja, de não comer o pastel) é de consequências imprevisíveis, por não ter sido a escolhida: sabe lá se com o desprezo ao odiado pastel não teríamos escolhido algo pior? (Como disse certa vez um professor de História que tive, é impossível fazer a “história do se”.)

Outras situações aparentemente insignificantes podem ser ainda mais decisivas. Como o relatado no belíssimo texto do Igor Natusch, que lembra o episódio em que uma menina que estudava no mesmo colégio perguntou se ele nunca tinha pensado em ser jornalista: será que, caso ele tivesse optado por outra profissão, lembraria daquele dia? Volto à impossibilidade de fazer a “história do se”, mas é certo que, por ter optado pelo jornalismo, aquele momento tornou-se muito importante na vida dele.

Assim como não sei exatamente o momento em que decidi cursar História, mas recordo em especial de uma tarde no Campus do Vale da UFRGS, quando ainda estudava Física mas já pensava muito em mudar, na qual passei um tempão sentado em uma escadaria pensando no futuro e fui encontrado por uma colega que também pensava em trocar de curso. Tenho certeza de que a percepção de que eu não era o único em tal situação me motivou decisivamente para tomar a decisão de recomeçar – e tal mudança, sem dúvida alguma, é muito decisiva quanto ao que sou hoje e ao que posso vir a ser.

Será que, caso não tivesse tomado tal decisão há mais de 10 anos, agora eu estaria aqui escrevendo este texto? Impossível dizer, não há “história do se”. Mas considerando as possibilidades de que estaria bastante ocupado com alguma equação ou quem sabe bolando alguma teoria (que poderia, quem sabe, servir de base para a criação da máquina do tempo…), considero altamente improvável que tivesse sequer criado o Cão, apesar de que sempre gostei de escrever.

Mas, como um dia decidi criar um blog, acabei posteriormente conhecendo vários outros, e também as pessoas que os escrevem ou escreviam (vários dos blogs que conheci não são mais atualizados). Um dos que acompanho é o Jornalismo B, editado pelo Alexandre Haubrich. Para trocar ideias fomos tomar cerveja, na quinta-feira passada. Algum tempo depois, quando já pensávamos em pedir a saideira, o Milton Ribeiro chegou ao bar, falou um pouco conosco e foi se sentar com o pessoal que ele acompanhava. Aparentemente não demorou tanto para os amigos do Milton irem embora, e o convidamos para sentar à nossa mesa: acabamos ficando muito mais tempo lá, e “fechamos” o bar.

As muitas horas que passei no Parangolé quinta passada são resultado de inúmeros fatos, sendo que a chegada do Milton é aparentemente o mais “decisivo” (afinal, não fosse isso provavelmente a saideira teria sido bem antes). Porém, se repararmos bem, também se devem à decisão de ir tomar cerveja naquele dia, à criação do Cão, à mudança de curso lá em 2002 etc. Posso até chegar ao meu nascimento (afinal, só pude ir ao bar porque existo), mas ainda não “completa” tudo: só existo pois meus pais me geraram, e consequentemente porque eles existem, e por aí vai. Também vale lembrar que muito provavelmente não ficaria tanto tempo no bar sem amigos para dividir a mesa: então temos que pensar no que levou os camaradas a estarem lá… Mas é melhor parar por aqui, antes que nos percamos em tantos “ses”.

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