Cordeiro em pele de lobo

“É um lobo em pele de cordeiro”, diz o ditado popular. Ele se refere a pessoas falsas, que fingem ser amigas mas que quando menos esperamos, nos fazem mal. Daí a analogia: o cordeiro é visto como um animal “pacato” e “simpático” (logo, simboliza o “bem”), e o lobo como “feroz” e “traiçoeiro” (ou seja, o “mal”).

Porém, algo interessante é repensar as significações associadas aos dois animais. Afinal, as características de ambos não fazem deles “bons” ou “maus” naturalmente. Cada espécie tem um papel a cumprir na natureza: certamente todos nós matamos baratas quando elas aparecem em nossas casas, mas se elas fossem extintas, isso afetaria inúmeras espécies que se alimentam delas.

O cordeiro simboliza o “bem” porque uma de suas características é ser “pacato”. Quando se fala que uma pessoa é “pacata”, pensamos em geral em alguém que não incomoda. Logo, também não contesta nada, se limita apenas a se comportar bem e “seguir o rebanho” – ou seja, um legítimo “cordeirinho”.

Já o lobo é sempre “mau”, geralmente sendo o vilão em histórias infantis. Por ser um caçador, representa exatamente o oposto do “pacato” carneiro: é um animal que incomoda. Representa uma ameaça – característica também associada às pessoas contestadoras, que não aceitam o status quo.

Como é o cordeiro que representa o “bem”, por razões óbvias a tendência é que sejamos educados para nos tornarmos “cordeirinhos” e não “lobos”. A família conservadora é a principal responsável por isso, mas a escola (que é escolhida pelos pais) também tem um papel muito importante, visto que ela não ensina a pensar, mas sim a legitimar a ordem estabelecida: repare que o conteúdo que é passado pelos professores não tem de ser aprendido, e sim decorado (ou seja, tem de ser “daquele jeito”, sem margem para outras interpretações, sob risco de uma nota baixa na prova); o que se aprende mesmo é a passar bastante tempo sentado e calado, por obrigação e não por vontade própria. Obviamente, é difícil achar alguma criança que goste de ir à escola; quando a adolescência chega, muitas vezes a aversão cresce, se voltando tanto contra a escola como também contra os pais: a impressão que é de que não teremos mais um pacato “cordeirinho”, mas sim um feroz e ameaçador “lobo”.

Mas, se engana quem pensa que a “rebeldia juvenil” necessariamente resultará em um adulto contestador: trata-se do tão falado “rebelde sem causa”, que acha tudo “uma merda” e até se diz de esquerda, mas não propõe nem defende nada de diferente para substituir o que considera estar errado (até por muitas vezes não ter maior conhecimento do mundo). Tanto que os pais conservadores sempre falam que a rebeldia dos filhos “é fase”, e que depois eles “amadurecerão”. E de fato, é isso que muitas vezes ocorre, com os filhos passando a reproduzir o mesmo discurso dos pais – e não raro, com uma virulência maior.

Mas, é claro, o “amadurecido” jamais admite seu conservadorismo. Pelo contrário: se diz “contestador”, posa de “politicamente incorreto”, enfim, parece um feroz e ameaçador “lobo”. Mas não ameaça porra nenhuma. Pelo contrário: apenas reage ao que considera uma ameaça ao status quo, que no passado ele dizia combater mas ao qual acabou se adaptando. Este “lobo” é igual ao “cão que ladra” daquele ditado popular: “não morde”. Tem pele de lobo, mas trata-se apenas de um disfarce: por baixo, se esconde mais um pacato cordeirinho.

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2 comentários sobre “Cordeiro em pele de lobo

  1. Pingback: Sul 21 » Cordeiro em pele de lobo

  2. Lobo velho também é triste, acha que vai comer as ovelhinhas, mas já não tem dentes fortes para tal…

    além do mais os cordeiros pastam, seu alimento é abundante e fica junto ao seu rebanho até a morte.

    Já o Lobo caça e, quando já está velho, tem imensas dificuldades de se alimentar e é, por esta e outras razões menores, abandonado pela sua matilha…

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