O “crime” de sofrer um crime

Era uma vez um lugar onde ser vítima de um crime era crime. Lá, quando o sujeito estava na rua e era roubado, não ia à polícia nem contava nada a ninguém. Quando as autoridades sabiam do acontecido, o assaltado era detido, e levava umas porradas para “aprender a não ficar andando em lugar perigoso”.

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Surreal, né? Mas engana-se quem pensa que algo desse tipo não existe de verdade. A diferença é que não acontece com todo mundo que é vítima. Só integrantes de certos grupos sociais (que obviamente não são os dominantes, ou seja, homens brancos heterossexuais) cometem o “crime” de sofrerem certos crimes.

É o que se passa, por exemplo, com as mulheres que são assediadas na rua ou no ambiente de trabalho, sofrem abusos sexuais etc. A “culpa” é sempre delas: andam com roupa muito curta, se insinuam etc. É capaz de muitos chegarem a sentir pena dos homens que as violentam: afinal, essas “vadias” ficam “provocando”.

(Então acontece de um programa de televisão, que dizem ser de humor, mandar uma equipe que conta com uma moça vestindo uma saia curta ao lançamento de um livro, com o objetivo de entrevistar o autor. O entrevistado enfia a mão entre as pernas dela, por baixo da roupa.  E todo mundo acha normal. Afinal, “a culpa é dela”: foi de vestido muito curto, a calcinha aparecia, ela provocou… Sempre o mesmo papo furado.)

Responsabilizar a mulher pelo abuso sexual sofrido é igual a dizer que num caso de roubo a culpa é da vítima. Rigorosamente igual.

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6 comentários sobre “O “crime” de sofrer um crime

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  2. coisa do tipo também a – aconteceu comigo – quem perde o emprego é aquele que aponta o crime.

  3. Bah, discordo cara. Todo mundo conhece esse programa televisivo e sabe que eles não foram lá “entrevistar” o autor. Foram lá “sacanear” o autor, isso sim. Como sempre fazem. A atitude dele, obviamente foi uma espécie de revide, uma forma de também “sacanear” quem estava lá para tirá-lo do sério. Certamente ele não faria isso com uma equipe séria de reportagem, por mais curta que fosse a saia, não é essa a questão. O abuso contra mulheres, na verdade, é o que essas redes de TV fazem, empregando mulheres para serem expostas exclusivamente como objetos sexuais. Na minha opinião a revolta deve ser contra estas emissoras que ainda utilizam este artifício para conseguir audiência de uma platéia de cabeça ôca, tão vazia de conteúdo quanto os próprios programas.

    • Que o programa é apelativo e trata as mulheres como objeto, é fato, e nesse aspecto concordo totalmente contigo. Porém, isso não dá ao cara o direito de apalpar a mulher contra a vontade dela.

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