Quanto falta para o fundo do poço?

Na madrugada de segunda-feira, Porto Alegre foi palco de uma barbárie. Próximo ao Mercado Público, um morador de rua foi linchado por um grupo de pessoas, devido ao fato de supostamente ter tentado assaltar uma delas.

“É um a menos, tem de dar uma camaçada de pau nesses vagabundos mesmo!”, diz, espumando, o “comentarista-padrão” dos grandes portais. E sai bradando “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos para humanos direitos”, dentre outras pérolas típicas dos mais apaixonados “defensores da civilização ocidental” – sim, eles acreditam que são “civilizados” empreendendo uma “cruzada” contra os “monstros” que querem “destruir nossa sociedade”.

Só que tem um problema: monstros não existem, são personagens de ficção. Todas aquelas pessoas que só de lembrarmos dá medo, por conta dos atos “desumanos” que cometeram, eram tão humanas quanto nós. Por mais incômodo que seja, todos temos algo em comum com Adolf Hitler e quaisquer criminosos: somos da mesma espécie biológica.

É muito fácil dizer que um criminoso é um “monstro” e que, por isso, é irrecuperável e não deve ter seus direitos humanos respeitados (o que obviamente não significa tolerar o crime cometido). E muito cômodo também. Pois reconhecer naquele “bandido” ou naquele ditador sanguinário um ser biologicamente igual a nós significa a necessidade de refletir sobre o quão culpados somos, enquanto sociedade, pela existência de pessoas assim. (Afinal de contas, nem todos os criminosos são psicopatas – ou seja, pessoas acometidas de um transtorno de personalidade.)

Em março de 2010, escrevi um texto sobre a estupidez que aflora toda vez que se fala sobre criminalidade. Muita gente exige pena de morte, “pau nos vagabundos” etc. Ou seja, o “cidadão médio” defende o uso da violência justamente para acabar com ela: é algo como o alcoólatra que sofre uma crise de abstinência achar que a solução para seu problema é encher a cara… Uma frase de Martin Luther King, que usei como epígrafe naquele texto, resume bem minha ideia.

A velha lei do olho por olho deixará a todos cegos.

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4 comentários sobre “Quanto falta para o fundo do poço?

  1. Olha, até concordo com a proposta geral do artigo, e o tal linchamento foi uma das coisas mais absurdas que vi ultimamente. Mas querer equiparar todos a Adolph Hiltler por pertencer a mesma espécie “apenas” ignora a psiquiatria e todos distúrbios e doenças estudadas pela mesma. Como a sociopatia, por exemplo, que provavelmente AH sofria e certamente o norueguês sofria. Aliás, essa é uma grande diferença entre um maluco destes e um Mainardi :)

    • Não ignorei a sociopatia/psicopatia, citei-a no penúltimo parágrafo (lembrando que nem todo criminoso é um psicopata).

      Obviamente os sociopatas têm essa diferença em relação a nós, mas não deixam de ser da mesma espécie, ou seja, qualquer um de nós pode vir a sofrer de um transtorno de personalidade (que não é causado apenas por fatores “químicos” ou biológicos).

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