Sobre a visita de Yoani Sánchez ao Brasil

No início da semana passada, a blogueira cubana Yoani Sánchez deu início a uma “turnê” mundial, na qual pretende visitar diversos países, após o governo de Cuba ter diminuído as restrições para viagens ao exterior. Sánchez começou seu “giro” pelo Brasil, onde foi alvo de protestos tanto em sua chegada ao país, no aeroporto do Recife, como em Feira de Santana (BA).

Sinceramente, achei uma tremenda burrice tais manifestações. Serviram apenas para a velha mídia repetir suas teses hipócritas de que a esquerda é contra a liberdade de expressão: embora saibamos que os campeões da restrição à livre expressão são justamente as grandes corporações midiáticas, ao mesmo tempo ficou claro que para alguns militantes de esquerda, o fato de Yoani Sánchez criticar o governo de Cuba é um incômodo.

“Ah, mas Yoani Sánchez é agente da CIA e blá-blá-blá”. Pode até ser. Inclusive, há muita coisa mal-explicada sobre ela. E justamente por isso que é preciso deixá-la falar: para que mais de suas contradições se tornem visíveis (uma delas já é notória: Yoani, a “defensora da democracia”, apareceu numa foto junto com o deputado Jair Bolsonaro, nostálgico da ditadura militar).

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Em geral, as opiniões sobre Cuba são “contaminadas”, variando conforme a ideologia de cada um. É muito grande a probabilidade de que o país não seja nem um inferno como costuma definir a direita, nem o “paraíso” pintado por muitos da esquerda: obviamente tem qualidades (como a educação e a saúde famosas por serem públicas e de qualidade), mas também problemas. (Recentemente o Alexandre Haubrich esteve lá e escreveu uma matéria sobre as eleições gerais que aconteceram no dia 3 de fevereiro, em breve certamente teremos mais relatos dele sobre Cuba.)

Um dos problemas certamente diz respeito à liberdade de expressão: há muitas acusações de que ela não existe em Cuba. Dar uma opinião sem correr risco de perseguição política tem de ser um direito assegurado, e a luta por ele é das mais legítimas.

Porém, é preciso que ela se dê em toda a parte, não só onde os Estados Unidos não têm seus interesses atendidos. Muitos dos que endeusam Yoani Sánchez não costumam falar nada sobre Julian Assange, fundador do WikiLeaks, que há meses está refugiado na embaixada do Equador em Londres para não ser preso devido a uma acusação por crime sexual na Suécia (que veio à tona, curiosamente, logo após o WikiLeaks revelar telegramas secretos da diplomacia dos EUA): há o temor de que caso o australiano seja entregue às autoridades suecas, ele acabe sendo extraditado para os EUA e condenado à morte.

Charge de Carlos Latuff

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5 comentários sobre “Sobre a visita de Yoani Sánchez ao Brasil

  1. Em geral, todas opiniões são contaminadas por ideologia, inclusive esta :) O fato dos EUA reprimirem o Assenge é motivo para criticarmos os EUA, não a Yoani.

  2. Dúvida, tu achas que a charge acima poderia ser subsituída (terias coragem de publicar?) com as 3 modificações abaixo?
    1- Yoani por Chaves
    2- EUA por PT
    3- Assange por Povo da Síria (já que nosso governo não se posicionou contra o que está ocorrendo)

    A mão que bate nos EUA deveria bater também no governo do PT ou é uma questão de servidão??? Antes de falar de quem tem uma educação, economia, infra-estrutura e tradição democrática muito melhor que a nossa, olhemos para nosso país e seus apoios… O lutador cubano entregue pelo Lula para ser deportado, não se compara ao caso do Assenge? Não né, afinal o lutador não era acusado de nenhum crime, só queria viver num país (sic) livre… Do Batistti nem vou falar…

    • Olha, em primeiro lugar acho meio estranho quereres comparar uma blogueira a um chefe de Estado… Hugo Chávez não precisaria de “ajuda” do PT para poder falar. Aliás, eu adoraria que todos os blogueiros não precisassem de um “megafone amigo” para que suas opiniões fossem conhecidas por mais pessoas.

      Em segundo lugar, quero entender a mania de muitos adorarem basear sua opinião num tosco anti-petismo (sendo que sequer falei em “PT” no texto). Sou de esquerda e não tenho a menor vergonha de deixar isso bem claro (ao contrário do que costuma se passar com quem é de direita), mas não tenho obrigação alguma de defender o governo do PT.

      Sobre a Síria, acho lamentável que muita gente considere Assad como heroi e já escrevi sobre o assunto (falando também da Líbia): http://www.sul21.com.br/blogs/caouivador/2011/09/03/todo-apoio-as-lutas-dos-povos-libio-e-sirio/

      Agora, querer dizer que os Estados Unidos têm uma “tradição democrática”… Engraçado que os mesmos que criticam Cuba (não sem razão) nada falam sobre o fato dos EUA também serem, na prática, um regime de partido único: Republicanos e Democratas são mais ou menos como duas alas do mesmo partido de direita (uma abertamente reacionária, e outra “envergonhada”).

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