A beleza dos Jogos Paralímpicos

O Brasil fechou o domingo em 7º lugar no quadro de medalhas dos Jogos Paralímpicos de Londres, com sete ouros – dois a menos que os Estados Unidos. Se surpreende quem não está acostumado a acompanhar os Jogos Paralímpicos, nos quais o Brasil costuma se sair bem melhor do que nos Olímpicos – inclusive estabelecendo recordes mundiais, como fez Yohansson Nascimento na categoria T45 dos 200 metros. Em Pequim (2008), aconteceu a melhor participação brasileira até hoje: com 16 medalhas de ouro e 47 no total, acabamos em 9º lugar – posição que para o Brasil até hoje é apenas sonho nos Jogos Olímpicos.

Os Jogos Paralímpicos surgiram a partir de uma ideia do neurologista alemão Ludwig Guttmann. De origem judia, Guttmann teve de deixar a Alemanha em 1939 para escapar da perseguição nazista. Se estabeleceu na Inglaterra, e em 1943 foi indicado pelo governo britânico para chefiar o Centro Nacional de Traumatismos, na cidade de Stoke Mandeville, com o objetivo principal de reabilitar soldados que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Lá, desenvolveu uma nova forma de tratamento para pacientes portadores de deficiência: o estímulo à prática esportiva.

A ideia deu tão certo que em julho de 1948, Guttmann promoveu em Stoke Mandeville um evento esportivo para pessoas portadoras de deficiência, paralelamente aos Jogos Olímpicos que começavam em Londres. Os chamados “Jogos de Stoke Mandeville” continuaram a acontecer anualmente, e em 1952 se tornaram internacionais, com a participação de atletas holandeses.

O evento cresceu tanto que, em 1960, pela primeira vez deixou a Grã-Bretanha: foi realizado em Roma, mesma cidade que sediou os Jogos Olímpicos daquele ano. Esta edição é considerada a primeira dos Jogos Paralímpicos, que como diz o nome (o “para” é um prefixo grego que significa “junto a” ou “ao lado de”, embora também remeta a “paraplegia”), ocorre em paralelo aos Jogos Olímpicos.

Dali em diante os Jogos Internacionais de Stoke Mandeville originais continuaram com sua periodicidade anual, mas a cada quatro anos aconteciam paralelamente aos Jogos Olímpicos, mesmo que nem sempre na mesma sede: em 1964, Tóquio recebeu os dois eventos, mas depois os Jogos Olímpicos e Paralímpicos só voltaram a ser realizados na mesma cidade em Seul (1988). Foi a partir de então que o nome “Jogos Paralímpicos” começou a ser oficialmente utilizado, e também que a sede dos dois eventos passou a ser sempre a mesma cidade.

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Pois percebo o quão importante foi a iniciativa de Ludwig Guttmann ao assistir à arrancada de Alan Fonteles para o ouro nos 200 metros T44, que foi das coisas mais incríveis que já vi no esporte (e falo no geral, não apenas no paralímpico). O brasileiro entrou na reta final em quarto, e nos últimos metros da prova desbancou o favorito, o sul-africano Oscar Pistorius.

A ideia de Guttmann ao propor que os pacientes praticassem esportes era a de reabilitá-los tanto física como psicologicamente: até então, pessoas portadoras de deficiência praticamente não tinham a perspectiva de uma vida feliz. Meu pai conta que antigamente ter um filho deficiente era motivo de vergonha, e pessoas nessas condições geralmente ficavam dentro de casa, isoladas do mundo.

Eles ainda são vítimas de preconceito hoje em dia. Mas têm belos exemplos a seguirem, que os ajudam a elevar a auto-estima. Sem contar o direito a esfregar na cara dos preconceituosos o orgulho de serem vencedores, independentemente do resultado obtido no esporte.

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