Olimpicamente político (ou politicamente olímpico)

Os Jogos Olímpicos de Londres terminaram ontem, e a Grã-Bretanha teve um de seus melhores desempenhos na história olímpica: com 29 ouros, os britânicos acabaram em terceiro lugar no quadro de medalhas, embora tenham subido menos vezes ao pódio do que a Rússia (que obteve 24 ouros e 82 medalhas no total, contra 65 da Grã-Bretanha).

Porém, nesta mesma semana ouvi a notícia de que o Estado britânico cortará investimentos em esportes, devido à recessão que atinge o país – fruto da crise econômica quase que generalizada na Europa. Ou seja, os britânicos investiram bastante apenas com vista aos Jogos de 2012, para irem bem em casa – provavelmente, o governo temia que sua popularidade caísse com um mau desempenho da Grã-Bretanha, como se a população já não tivesse outros problemas para se preocupar.

A verdade é que os Jogos Olímpicos há muito tempo são uma arma política, vistos como oportunidade de um país demonstrar, através do esporte, que é uma potência. Não por acaso a China, que busca se afirmar como a nova superpotência mundial, também cresceu muito na área esportiva – por mais contestáveis que sejam seus métodos de formação de esportistas, assim como eram os de extintos países do antigo “bloco socialista” como União Soviética e Alemanha Oriental.

Sendo assim, relembremos alguns outros momentos em que os Jogos tiveram importância não só esportiva, como também política.

  • No início da década de 1930, Berlim foi escolhida para organizar a Olimpíada de 1936. Adolf Hitler ainda não chegara ao poder; e além disso, o COI tinha uma “dívida” com os alemães, visto que Berlim sediaria os Jogos de 1916, não-realizados devido à Primeira Guerra Mundial. Porém, a crise econômica mundial iniciada em 1929 atingira com força a Alemanha, e um dos resultados disso foi o crescimento eleitoral dos nazistas, que acabaram por chegar ao poder em 1933 (embora sem terem conquistado a maioria dos assentos no parlamento). Hitler percebeu que os Jogos Olímpicos podiam ser mais do que um evento esportivo: eram também uma excelente oportunidade de propaganda, para mostrar ao mundo a “superioridade” da tal “raça ariana”; mas, claro, era preciso esconder a perseguição às minorias, e todos os sinais da estupidez foram escondidos durante a Olimpíada. Os Jogos ficaram marcados como um dos mais bem organizados até então, e a Alemanha acabou em primeiro lugar no quadro de medalhas; porém, nos pódios do atletismo o predomínio foi de atletas negros dos Estados Unidos, com destaque para Jesse Owens, que conquistou quatro medalhas de ouro – uma humilhação não só para os nazistas, como mesmo aos racistas nos EUA.
  • Após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida em quatro zonas de ocupação, correspondentes a cada potência aliada que derrotara o nazismo; tal divisão daria origem às Alemanhas Ocidental e Oriental, e seria um símbolo da Guerra Fria que se iniciava – ainda mais em Berlim, cortada ao meio por um muro erguido em 1961 e que separou famílias por 28 anos. Porém, nos primeiros tempos pós-guerra, o país seguiu sendo um só nos Jogos Olímpicos: após a Alemanha ser impedida de participar da Olimpíada de Londres em 1948, os alemães (apenas do oeste, é verdade) disputaram os Jogos de 1952, em Helsinque; já em Melbourne (1956), Roma (1960) e Tóquio (1964), ocidentais e orientais competiram por uma única bandeira, na chamada Equipe Alemã Unida. Só a partir de 1968, na Cidade do México, as duas Alemanhas enviaram delegações separadas.
  • Com a Guerra Fria, os Jogos Olímpicos viraram mais um campo de disputa aberta entre Estados Unidos e União Soviética, com vantagem para a segunda: em todos os Jogos que disputaram (1952 a 1988, exceto 1984), os soviéticos só não acabaram em primeiro no quadro de medalhas em 1952, 1964 e 1968. Aconteceram alguns embates épicos, como a decisão do ouro no basquete de 1972 (só havia a disputa masculina), em Munique: os Estados Unidos (campeões desde a introdução da modalidade, em 1936) venceriam por 50 a 49, porém, a arbitragem ordenou que fossem disputados mais três segundos de jogo devido a um problema com a cronometragem da partida; neste tempo, os soviéticos fizeram uma cesta e venceram por 51 a 50, conquistando o ouro. Os jogadores dos EUA não aceitaram as medalhas de prata, que jamais foram entregues.

  • Mas para além da disputa entre EUA e URSS, os Jogos também ajudavam a exibir as “fissuras” do dito “monolítico” bloco liderado pelos soviéticos no Leste Europeu. Em outubro de 1956, a URSS invadiu a Hungria, para reprimir a rebelião que se iniciara contra a ocupação soviética do país. No final do ano, foi realizada a Olimpíada de Melbourne, na Austrália (pela primeira vez os Jogos aconteciam no hemisfério sul, e para fazerem jus à denominação “de verão” e não serem disputados no inverno australiano, foram marcados para o período de 22 de novembro a 8 de dezembro), e os atletas húngaros tiveram grande apoio por parte dos australianos. Na penúltima rodada do torneio de pólo aquático, Hungria e URSS se enfrentaram numa partida lembrada como uma das maiores “batalhas campais” da história olímpica; os húngaros venceram por 4 a 0 e no jogo seguinte, conquistaram a medalha de ouro. Após o fim dos Jogos, vários atletas húngaros desertaram.
  • Outra “fissura” importante foi em Moscou (1980). Na final do salto com vara masculino, o público que apoiava o soviético Konstantin Volkov também apupava intensamente o polonês Władysław Kozakiewicz, que acabou conquistando a medalha de ouro e não se conteve: na comemoração, “deu uma banana” ao público, um gesto que na Polônia ficou conhecido como gest Kozakiewicza, por ter sido visto como um ato de contestação à excessiva influência soviética sobre o governo polonês.

  • Em 1976, 26 países africanos, mais Iraque e Guiana, boicotaram a Olimpíada de Montreal em protesto contra a presença da Nova Zelândia, cuja seleção de rugby disputara partidas na África do Sul, condenada internacionalmente devido ao regime racista do apartheid.
  • No final de 1979, a URSS invadiu o Afeganistão, e em protesto os EUA decidiram liderar um boicote de 69 países – dentre os quais, nossos vizinhos Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai – aos Jogos de Moscou.
  • Quatro anos depois, em resposta, a URSS e seus aliados não compareceram à Olimpíada de Los Angeles. A única exceção – e mais uma amostra de “fissura” no “monolítico” bloco soviético – foi a Romênia do ditador Nicolae Ceauşescu (o conducător costumava manter certa distância de Moscou para obter apoio com base no nacionalismo), que assim ficou em segundo lugar no quadro de medalhas com 20 ouros e 53 no total, sua melhor participação olímpica até hoje.
  • Os Jogos de Munique, em 1972, não tiveram como maior acontecimento a acirrada disputa entre EUA e URSS no basquete: o evento ficou mais marcado pelo ataque à delegação de Israel, quando onze de seus membros foram feitos reféns pelo grupo palestino Setembro Negro em plena Vila Olímpica, acabando por serem todos mortos.
  • Outro acontecimento memorável foi relacionado à ocupação militar da Coreia pelo Japão, na primeira metade do Século XX. Nos Jogos de Berlim em 1936, as medalhas de ouro e bronze na maratona ficaram com dois coreanos, Sohn Kee-chong e Nam Sung-yong, que competiram respectivamente com os nomes japoneses de Son Kitei e Nan Shōryū. No pódio, eles tiveram de ouvir o hino nacional do Japão – ou seja, do país invasor – e reagiram olhando para o chão durante a execução da música. Nas entrevistas logo após a vitória, Sohn fazia questão de lembrar sua verdadeira nacionalidade, e dessa forma virou um herói para os coreanos. Assim, na abertura dos Jogos de 1988, aos 76 anos de idade, ele foi o responsável por ingressar a tocha olímpica no Estádio Olímpico de Seul, emocionando o público presente à cerimônia.

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