“Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”

Em 30 de outubro de 1969, o general Emílio Garrastazu Médici, fanático por futebol e que costumava frequentar estádios, tornou-se ditador do Brasil. Durante seu período de governo (até 15 de março de 1974), o país viveu o período mais sangrento da repressão política, com a intensificação da tortura e dos desaparecimentos forçados.

Cena corriqueira de 1969 a 1974: o general Emílio Garrastazu Médici (à esquerda), ditador do Brasil, em um estádio de futebol.

Como fã de futebol e ditador, Médici não se limitava a torcer (o que ajudava a aumentar sua popularidade): também se metia a dar palpite na escalação da Seleção Brasileira.

O time, treinado por João Saldanha, fizera uma campanha irretocável nas eliminatórias para a Copa do Mundo do México, se classificando com facilidade e recebendo o apelido de “as feras do Saldanha”. Porém, no início de 1970, as “feras” pareciam “domadas”: os resultados dos amistosos preparatórios para o Mundial eram ruins, com direito a uma derrota por 2 a 0 para a Argentina (que ficara fora da Copa) no Beira-Rio. O temperamento de Saldanha, que tinha ligações com o clandestino Partido Comunista Brasileiro, apenas conturbou mais o ambiente da Seleção: o técnico chegou a dizer, por exemplo, que Pelé tinha “problemas de visão”.

Então, veio a polêmica que acabou sendo a “gota d’água” que resultou na substituição de João Saldanha por Mário Zagalo: Médici, que era admirador do estilo de jogo adotado pelo técnico, também gostava do centroavante Dario (ele mesmo, o Dadá Maravilha), do Atlético-MG. Em resposta aos jornalistas que comentaram sobre a admiração do ditador pelo artilheiro do Galo, Saldanha disse: “o presidente escala o ministério dele, que eu escalo o meu time”.

Não se sabe ao certo se Médici estava tão empenhado na escalação de um jogador específico, em um momento em que os desafios governamentais eram tão grandes. Certo, sim, é que a figura de Saldanha era considerada muito inconveniente pelo seu destempero e por sua pretensa independência política. Temia-se que o treinador chegasse ao México com uma lista de presos políticos no bolso, e, em entrevista coletiva, diante de microfones e câmeras do mundo todo, denunciasse o desrespeito aos direitos humanos que vinha ocorrendo no Brasil. (AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional. Rio de Janeiro: Mauad/FAPERJ, 2002, p. 160)

Com Zagalo no comando, Dario foi chamado – apenas para agradar o ditador e esquentar o banco de reservas. Sem Dadá em campo, mas com Clodoaldo, Jairzinho, Rivellino, Tostão e Pelé, a Seleção Brasileira conquistou a Copa de forma encantadora, vencendo todos os seis jogos disputados e marcando época como um dos maiores exemplos do chamado “futebol-arte”.

O desempenho brilhante da Seleção no México ajudou a alimentar a campanha ufanista promovida pela ditadura. A cada vitória do Brasil no Mundial, Médici fazia questão de aparecer na televisão demonstrando “sua paixão” pela Seleção – e consequentemente, “pelo Brasil”. Quando do retorno do time campeão, o ditador posou para fotos junto aos campeões. A Seleção Brasileira, mais do que uma equipe de futebol que representava o país, passou a ser usada pela ditadura como símbolo das realizações e do “Brasil forte e unido” que os militares propagandeavam. E a marchinha “Pra frente Brasil”, de apoio à Seleção, tornou-se uma “canção patriótica”.

Porém, a Copa de 1970 também motivou manifestações de orgulho regional. Pois pela primeira vez um jogador de um clube do Rio Grande do Sul era titular de uma Seleção Brasileira campeã mundial: tratava-se do lateral-esquerdo Everaldo, do Grêmio. O feito foi tão exaltado pelos gaúchos que uma concessionária de automóveis de Porto Alegre decidiu presentear o jogador com um Dodge Dart zero quilômetro – carro que futuramente acabaria tendo um significado trágico para Everaldo.

No Grêmio, Everaldo foi homenageado com uma estrela dourada na bandeira do clube (que muitos, equivocadamente, pensam ser referência ao Mundial Interclubes de 1983).

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Em 1972, o Brasil celebrava os 150 anos de sua independência política. Dentre os diversos eventos previstos para comemorar a data (os quais todos eram também vistos pela ditadura como oportunidade de propagandear a “pujança do Brasil”), havia um torneio internacional de futebol, chamado “Taça Independência”. A competição, disputada por 20 equipes, também ficou conhecida como “Minicopa”, apesar das ausências das únicas seleções europeias campeãs mundiais na época (Alemanha Ocidental, Inglaterra e Itália). O motivo: a evidência de que a importância do campeonato era mais política que esportiva – e não apenas por parte da ditadura militar: o presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange, convidou algumas seleções fraquíssimas como a Venezuela (pagando uma cota bem maior do que a cobrada por amistosos da Seleção Brasileira), de olho em seus votos na eleição para a presidência da FIFA que ocorreria dois anos depois.

Em 15 de maio de 1972, Zagalo anunciou a lista de jogadores convocados para a Seleção Brasileira que disputaria a “Minicopa”. E nela não constava o nome de Everaldo, que desde a Copa de 1970 nunca perdera a titularidade, apesar de no início de 1972 não atravessar uma boa fase. Zagalo não se limitou a tirar o gremista do time titular: sequer o relacionou para a reserva. E também não convocou nenhum outro jogador de clubes do Rio Grande do Sul.

A lista de Zagalo provocou uma “dor de cabeça” para a CBD e o regime militar: a ausência de Everaldo despertou a ira de jornalistas e torcedores gaúchos, que viram a “desconvocação” como um “desprestígio” ao Rio Grande do Sul. O colunista Antônio Carlos Porto, da Folha Esportiva, propôs um boicote aos jogos da “Minicopa” em Porto Alegre, como forma de retaliação à CBD pela ausência de Everaldo na Seleção.

A reação foi imediata. João Havelange afirmou que o boicote à “Minicopa” era uma atitude “antipatriótica”, visto que era um torneio de celebração da “brasilidade”. Palavras que foram confirmadas em nota oficial da CBD. Porto respondeu em sua coluna do dia 18 de maio:

Até por uma questão de cheiro, poluição ou coisas desta ordem, vamos dispensar qualquer lição de brasilidade que parta do próspero empresário Jean Marie, presidente full-time da CBD. Não vamos invocar os sentimentos de brasilidade de nossa gente e trazer os múltiplos exemplos. Infantilidade ou maldade o chamamento deste sentimento para as coisas simples do futebol, especialmente em se tratando de uma “microcopa” vergonhosamente desprezada pelas seleções mais representativas do Velho Mundo.

Surgiu aí a genial ironia: Havelange acusava os gaúchos de não terem “sentimento de brasilidade”, mas tinha um nome “estrangeiro”; filho de belgas, foi registrado como “Jean Marie Faustin de Godefroid Havelange”. Dali em diante, os colunistas da Folha Esportiva começaram a constantemente chamar o dirigente apenas por seu “afrancesado” nome de batismo, sem sequer citarem o sobrenome. Alguns, inclusive, chegaram a apelar ao ditador: Médici era gaúcho de Bagé, e certamente não lhe agradaria ter sua “brasilidade” posta em xeque.

Um dos amistosos da Seleção preparatórios para a “Minicopa” – ou “microcopa”, como os colunistas também passaram a constantemente ironizar – estava marcado para o dia 17 de junho, um sábado, em Porto Alegre. O adversário ainda era indefinido quando do início da polêmica pela não-convocação de Everaldo, mas não demorou a surgir por parte da Federação Gaúcha de Futebol (FGF) uma proposta que, hoje em dia, pareceria notícia de O Bairrista: uma “seleção gaúcha” (na verdade, um combinado Gre-Nal) desafiar a Seleção Brasileira. Tanto que, no início, ninguém levou a sério.

Mas o presidente da FGF, Rubens Hoffmeister, falava sério. E a CBD topou o desafio. A princípio, a decisão foi muito criticada pela imprensa (afinal, os gaúchos queriam jogar na Seleção, e não contra ela). Mas depois acabou sendo vista como uma oportunidade de se “lavar a alma”, mostrar aos dirigentes do futebol nacional que “o Rio Grande do Sul deveria ser levado em conta”.

Folha Esportiva, capa de 17 de junho de 1972.

Naquele 17 de junho de 1972, o Estádio Beira-Rio registrou o maior público de sua história: mais de 110 mil pessoas estiveram presentes. Na preliminar, a Seleção Olímpica do Brasil venceu o Hamburgo por 4 a 1 e foi bastante aplaudida. Já no jogo principal (que acabou empatado em 3 a 3, sem que em nenhum momento os “gaúchos” ficassem atrás no placar), de nada adiantou os dois times entrarem em campo juntos e carregando uma bandeira brasileira: a Seleção de Zagalo foi intensamente vaiada pelo público. Que também lembrou Havelange e sua afirmação quanto à “falta de brasilidade” dos gaúchos, com uma faixa: “Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”.

Faixa levada por torcedores ao Estádio Beira-Rio em 17 de junho de 1972.

Mas há um detalhe importante sobre o jogo: muitos dos presentes ao estádio não estavam “nem aí” para Everaldo. Um exemplo é o meu pai, colorado, que dirigia suas vaias não à Seleção em si, mas sim ao que ela simbolizava: o Brasil “de fantasia” da ditadura militar. Que a propaganda oficial pintava como “forte, feliz e unido”. Mas que a realidade mostrava ser bem diferente: muitos não estavam felizes com a situação, ainda mais no Rio Grande do Sul, que, apesar de ser o estado natal de muitos membros do governo (inclusive o próprio Médici), não era o mais favorecido pelas políticas de Estado da ditadura, sendo relegado à condição de produtor de grãos para exportação. A “desconvocação” de Everaldo, por critérios discutíveis (segundo a revista Placar de 26 de maio de 1972, de todas as queixas relativas à lista de Zagallo, a única que tinha algum fundamento era quanto ao lateral-esquerdo gremista, apesar de sua fase não tão boa), era vista como uma arbitrariedade, igual a tantas que vinham acontecendo no Brasil e não tinham como serem contestadas devido à feroz repressão da época. Com o esvaziamento do debate político – tanto no dia-a-dia como na imprensa – restava apenas o futebol como “válvula de escape” para ressentimentos quanto a questões que iam muito além da escalação da Seleção Brasileira.

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No centro do país, pouca importância se deu à revolta dos gaúchos pela “desconvocação” de Everaldo. A partida foi vista mais como um excelente teste para a Seleção Brasileira, mas também foram feitas críticas à “falta de patriotismo” dos gaúchos. A lista de Zagalo, como era de se esperar, não foi alterada. Luís Fernando Veríssimo disse tudo em sua coluna na Folha da Manhã do dia 19 de junho:

Mas a questão não é essa, dirá o Leitor Mais Afrontado. Mostramos ao Zagalo que o futebol gaúcho não pode ser desprezado. E eu respondo que não mostramos ao Zagalo nada e que o futebol gaúcho tanto pode que continua sendo desprezado. O próprio jogo foi um gesto de desprezo. Vieram aqui nos acalmar, mandaram o circo para distrair os nativos, nos trataram – merecidamente – com a paternal condescendência que todo provinciano recebe da corte, e pronto. O que vamos fazer agora, pedir revanche? O mal do protesto passional é que as suas razões se extinguem quando termina a paixão. E todas as legítimas perguntas que se poderia fazer sobre critérios de convocação e as contradições do Zagalo serão, de agora em diante, anticlimáticas. O clímax foi o jogo de sábado. A província teve o seu dia de circo, agora que se acalme.

Sem os “gaúchos”, o Brasil conquistou o título da “Minicopa”, vencendo Portugal por 1 a 0 na final. Aos poucos começou a ser montada a Seleção que disputou a Copa de 1974: o time que foi à Alemanha Ocidental e acabou em 4º lugar contou com dois “gaúchos”, os colorados Carpeggiani e Valdomiro (este último, catarinense de Criciúma).

Um brasileiro, porém, se deu bem no futebol mundial em 1974: João Havelange foi eleito presidente da FIFA, cargo que ocuparia até 1998. Durante seu “reinado”, Havelange expandiria a Copa do Mundo para 32 seleções, aumentando o número de vagas para África, Ásia e Américas Central e do Norte; por outro lado, cumpriria a promessa de “vender um produto chamado futebol”, transformando-o em um grande negócio.

Já Everaldo não foi tão feliz depois daquele jogo. Foi agraciado com o prêmio Belfort Duarte em julho de 1972 por sua conduta leal dentro de campo, mas três meses depois agrediu um árbitro e acabou suspenso por um ano. Pouco tempo após voltar aos gramados, pendurou as chuteiras. E decidiu entrar para a política, se candidatando a deputado estadual pela ARENA (partido que apoiava a ditadura militar) em 1974. Porém, ele sequer conseguiria participar daquela eleição.

Na noite de 27 para 28 de outubro de 1974, Everaldo morreu junto com sua mulher e uma das filhas em um acidente na BR-290, quando voltava de Cachoeira do Sul. O carro que ele dirigia era aquele Dodge Dart que ganhara de presente por suas atuações na Copa do México.

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Para saber mais:

  • GUAZZELLI, Cesar Augusto Barcellos. “500 anos de Brasil, 100 anos de futebol gaúcho: a construção da “província de chuteiras”. In: Anos 90. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000, n. 13.
  • Minha monografia de conclusão de curso, na qual também falei sobre a partida.
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7 comentários sobre ““Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”

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  2. Muito bom o texto. Parabéns. Em 17 de junho daquele ano, eu completava dez anos e estava completamente alheio ao futebol, esporte que continua não me interessando. Minha família recém chegara do interior (1970). Meus pais compraram um bar e restaurante na zona norte de Porto Alegre. O que eu me lembro daquela época é a nossa redenção econômica. Independentemente de posições políticas, meus pais nunca tiveram tanto dinheiro (para os padrões deles, ex-viticultores). E dinheiro honesto, fruto do trabalho deles.

  3. o marinho do inter não foi o zagueiro da semifinal contra a holanda em 74 pelo menos?

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  6. Gostaria de ver a imagem da faixa “Jean Marie o brasil vai até o Chui”.
    Não consigo ver, não sei o que acontece que a imagem não me aparece. Há como passar a foto para o meu email para eu ver???
    Obrigado desde já, bom post!!

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