A falácia dos “dois lados”

Foi instalada, na última quarta-feira, a Comissão da Verdade, que terá por objetivo esclarecer violações dos direitos humanos cometidas pelo Estado brasileiro entre 1946 e 1988. O foco, porém, deverá ser o período de 1964 a 1985, correspondente à ditadura militar.

A reação não tardou. Os clubes militares divulgaram nota na qual deixam claro o desejo de que a Comissão investigue “os dois lados” – ou seja, tanto os agentes do Estado como os opositores. Como se tivéssemos realmente “dois lados”, iguais em força e capacidade de coerção.

Acontece que a luta armada contra a ditadura militar nunca teve força suficiente para de fato ameaçar o regime. A própria Guerrilha do Araguaia, que resistiu por três anos (1972-1975) à feroz ação do Exército, era formada por menos de cem militantes. Ou seja, nem sequer podemos falar de “dois lados em disputa”: havia mesmo era um Estado autoritário que reprimia violentamente os poucos focos de resistência armada.

Mas, mesmo que consideremos a ditadura como “dois lados em disputa”, ainda assim não faz sentido querer que se julgue os militantes da esquerda armada. Pois eles já foram punidos pela própria ditadura (perseguição, prisão, tortura, morte). Tanto que quando da luta pela anistia, ela acabou servindo de desculpa para que também os agentes da repressão fossem incluídos no “pacote”, de modo a que ficassem impunes, como estão até hoje.

Querer que se investigue e se puna os “dois lados” no tocante à ditadura militar equivale a defender que em Nurenberg não só os nazistas fossem julgados: a Resistência Francesa, por exemplo, também deveria ser levada ao tribunal. Absurdo, né?

E quanto ao rótulo de “terroristas” que a direita põe nos militantes da esquerda, é bem típico de regimes autoritários para deslegitimar os opositores. Independentemente de sua vertente ideológica: em 1989, quando o povo se levantou contra a ditadura de Nicolae Ceauşescu na Romênia, o déspota acusou “terroristas” de serem os responsáveis pelos distúrbios. (E então, amigo reaça, vais virar “comunista” e defender Ceauşescu?)

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13 comentários sobre “A falácia dos “dois lados”

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  2. Esta “Comissão da Verdade”, que como já disse o próprio governo não terminará em punição aos torturadores, é mais um ato infame de traição do governo petista! E o atabalhoamento da ultra-direita e/ou dos militares golpistas não mudam esse fato!
    O governo da ex-guerrilheira entrará para a História como aquele que enterrou o desejo de justiça reivindicada pelos amigos e parentes daqueles que tombaram na luta contra a ditadura.

    • O problema não é o governo, e sim a Lei da Anistia. Mas acho que o governo deveria se empenhar, com o apoio da sociedade, em revogar esta absurda lei que protege os torturadores. Enquanto ela vigorar, a Comissão da Verdade terá o papel apenas simbólico de revelar os criminosos de lesa-humanidade, mas sem o principal, que é fazer eles pagarem por isso.

      • Discordo do camarada: o governo é responsável sim! Além de não ter nenhum historiador na Comissão ainda nomeou dois homens que são hostis a revisão da lei da anistia: José Carlos Dias e Gilson Dipp.

        • Por isso é que a sociedade deve se mobilizar para revogar a lei da anistia, assim de nada adiantará os membros da comissão que são favoráveis a ela.

          Quanto a não haver nenhum historiador na comissão, aí concordo que é uma falha grave. Acho inclusive que ela deveria ser formada SÓ por historiadores.

  3. A Guerrilha do Araguaia é exemplo que devemos sim investigar os dois lados. Quem enviou aquele grupo de jovens ao Araguaia, sabendo de como seria a reação do governo, deve também ser responsabilizado pelas suas mortes.

    • Esta tua lógica é a mesma de culpar uma mulher quando ela é estuprada, por ela ter “se insinuado”. Sendo que tal “insinuação” muitas vezes é uma roupa mais curta – que ela usa pelos mais diversos motivos, sendo que um é mais do que óbvio: o calor que nos faz destilar suor no verão…

      Ou, de culpar a vítima de um assalto caso ela tome um tiro após reagir. Sabemos que a reação é temerária, mas não dá para relativizar o crime do assaltante.

      • Negativo, estou falando de quem mandou os jovens para a morte, ou será que os mandantes imaginavam poder derrubar o governo da época com um pequeno grupo de jovens despreparados no meio do nada? As comparações não procedem.

        • Provavelmente imaginavam que sim (embora estivessem errados), inspirados nas experiências de Cuba e da China, de guerrilhas rurais que dariam início à revolução.

        • E por fim, não podemos falar em “dois lados”, justamente porque na verdade havia apenas um lado só: o Estado ditatorial contra pequenos focos de luta armada, que jamais ameaçaram o regime.

          • Não precisamos mesmo falar em dois lados, precisamos é verificar as ações feitas. Eu não participei dos governos militares, nada tenho a ver com eles, nem concordo com a tortura e o assassinato sistemático feito naquela época. Mas acredito piamente que as ações covardes praticadas neste período, por quem que seja, devam sim ser apontadas (já que a Comissão da Verdade não tem o poder de cancelar a Lei da Anistia). E se dirigentes de um determinado grupo, por um crasso erro de avaliação, mandaram jovens à morte, devem sim ser apontados.

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