Os valores conservadores e a influência da escola

Em 1970, o sociólogo francês Pierre Bourdieu publicou, em parceria com o colega Jean-Claude Passeron, “A reprodução”, obra que faz uma análise do sistema educacional na França. Embora não a tenha lido, tive acesso a sinopses e resumos dela, sabendo que o livro demonstra, de forma geral, que a função principal das escolas francesas não era a de estimular o pensamento, e sim, de legitimar o status quo.

Semana passada, tive um excelente exemplo de como a análise de Bourdieu e Passeron é correta. Percebi o óbvio: alunos de colégios conservadores tendem a ser adultos conservadores, ainda mais se vindos de famílias assim. (E se estudarem em universidades conservadoras, então…)

Notei isso semana passada, quando conversei com uma ex-colega do segundo grau com quem não falava há muitos anos, e uma das primeiras coisas que ela me perguntou foi se eu tinha casado… Foi quando reparei que, dentre o pessoal da época do segundo grau que mais encontro, o casamento – seja formal ou informal (o famoso “se juntar”) – é regra.

Então comparei com a turma de amigos do tempo do primeiro grau: nela, não só o casamento não é regra, como há mais contestação à “obrigatoriedade” de se ter uma relação afetiva estável. Como prova uma manifestação de uma de minhas ex-colegas, solteira e descompromissada, no Facebook em dezembro passado: comentando os “votos” para que arranjasse um namorado em 2012, ela questionou por que uma mulher solteira aos 30 anos incomoda tanta gente.

O que diferencia ambas as turmas? O colégio. Cursei o primeiro grau em escola pública (Colégio Estadual Marechal Floriano Peixoto); a maioria dos colegas também cursou o segundo grau em escolas públicas (muitos ficaram no próprio Floriano), ou seja, oficialmente laicas. Bem diferente do segundo grau, que cursei no Colégio Marista São Pedro; embora houvesse uma separação nítida entre a religião e o conteúdo ministrado nas aulas (em Biologia e História estudávamos Biologia e História mesmo, não criacionismo), o colégio era oficialmente católico, portanto, conservador (me digam qual religião não é conservadora?), e muitos colegas já eram alunos do São Pedro desde o jardim de infância.

A visão de mundo conservadora dá uma importância muito grande à “defesa da família”. Logo, é compreensível que um dos principais objetivos de vida para quem é conservador seja “constituir família”, antes de crescer profissionalmente, fazer algo para melhorar o mundo etc. (Não que eu considere ruim alguém querer constituir família: só acho que não é a única opção.)

Surge assim parte da resposta ao questionamento da minha amiga solteira: ao não dar tanta importância à busca por um namorado, ela subverte a lógica de que “toda pessoa solteira está em busca de um amor”, o que a impede de “constituir família”. E isso realmente incomoda muita gente – principalmente os machistas, que não suportam a ideia de uma mulher ser independente e não estar a fim de assumir compromisso com homem algum: para eles, a função da mulher ainda é “pilotar fogão”, limpar a casa e cuidar dos filhos.

Por fim, alguns devem estar querendo saber como não me tornei um conservador (e, “pior” ainda, agora sou ateu!). Certamente pesaram para isso o fato de não ter vindo de família conservadora (apesar de minha mãe ser católica, meu pai é agnóstico e de esquerda, logo, questionador), além de ter estudado predominantemente em instituições laicas: foram apenas três anos no São Pedro, contra dezesseis na soma de Floriano e UFRGS (Física inclusive). Pois como foi dito lá no começo, o conservadorismo trata-se de uma tendência, e não de um destino inevitável.

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6 comentários sobre “Os valores conservadores e a influência da escola

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  2. Interessante a abordagem. Felizmente sou uma exceção: toda a minha educação formal foi em colégio e universidade particular, contudo não me sinto como mais uma ovelinha do rebanho.
    Abraço.

  3. Mas a principal questão não abordastes. Priorizar a família não vejo como o prejuízo central. Até porque acho que uma sociedade bem constituída passa por uma família igualmente bem constituída em seus valores, sejam eles laicos ou religiosos. Mas o que o “ensino católico” trouxe para países a serem explorados de todas as formas, como o nosso, foi sua doutrina educacional que formou ao longo do tempo, indivíduos com valorações distorcidas, somos resultantes da doutrina jesuítica, conhecido exército criado pela Igreja Católica com dois objetivos, combater os Protestantes e moldar civilizações sul-americanas de acordo com seus interesses. Bem pior do que na França…

  4. Uma música “rap” escrita por Artis Ivey, Jr. (Coolio) expressa muito bem o niilismo e o desespero que toma conta das mentes que clamam por orientação, mas são abandonadas a construir autonomamente o seu futuro. Um de seus trechos afirma:
    They say I’ve got to learn, Eles dizem que eu preciso aprender,
    But nobody’s here to teach me. Mas ninguém está aqui para me ensinar.
    They think they understand, Eles acham que entendem,
    But how can they reach me? Mas como podem me alcançar?
    I guess they can’t, Acho que eles não podem,
    I guess they won’t. Acho que eles não o farão. 23
    Ausência de direcionamento é o que o construtivismo defende. Na prática, essa situação está expressa nos versos acima, mas o resultado de tal omissão não é “conhecimento construído,” mas caos educativo implantado. Com tantos anos de prática dessa filosofia, não podemos nos surpreender quando a frustração e a indisciplina tomam conta das salas de aula.Não deveríamos ficar abismados quando os alunos, deixados à sua inclinação natural, começam a “construir” formas hedonísticas de satisfação e são levados à marginalidade e às drogas. Deveríamos entender que a busca do conhecimento sem direcionamento leva ao envolvimento com as mais diversas questões que competem entre si pelo prêmio da irrelevância suprema na vida que se descortina aos futuros cidadãos.solanoportela.

  5. Mais do que difundir as ideias dominantes, que se fazem presentes em outras esferas de uma determinada sociedade, mais perverso ainda é a escola reproduzir a estrutura de classes, reproduzindo as injustiças sociais.

    O Governo Tarso, por exemplo, com a sua contra-reforma na educação pública acaba estabelecendo uma determinada “escola para pobres” (onde o máximo a ser atingido é o curso técnico) e “escola para classe média e a elite” (cujo objetivo é adentrar a universidade e ocupar postos de trabalho de maior destaque).

  6. Pingback: Cordeiro em pele de lobo | Cão Uivador

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