Viver bastante vale a pena, seja por muito ou pouco tempo

O título parece uma frase sem sentido, mas não é. Viver bastante, não é a mesma coisa que viver por muito tempo.

Na última segunda-feira, 5 de março, minha avó Luciana completou 90 anos de idade. Mais que isso: 90 anos de vida. Pois ela nunca aceitou aquele papel que costuma ser designado aos idosos, o de apenas existirem. Faz comida (com especial preocupação voltada ao almoço de sábado, que é quando meu irmão e eu costumamos visitá-la), toma cerveja, lava louça, roupa, e até pouco tempo atrás, ia sozinha ao supermercado e ao banco – só não tem mais ido porque já levou dois tombos graças às “maravilhosas” calçadas de Porto Alegre, o que é muito perigoso para quem tem osteoporose.

A verdade é que existir não é igual a viver. Conheço idosos que são “úteis”, não no sentido de “trabalhar para fazer o sistema funcionar” (como pregam os defensores do status quo), e sim, de procurarem fazer alguma diferença, e assim serem importantes para as pessoas que conhecem – e muitas vezes, até para quem não conhecem.

Ao mesmo tempo conheço gente com menos idade que a minha avó, mas que só existe para se alimentar e assistirem televisão – e falo da programação de domingo da TV aberta; antes fossem os documentários do National Geographic ou do Discovery. Sinceramente, não consigo me imaginar vivendo assim: só de tentar, já me vem à cabeça a palavra “depressão”.

Não sei se viverei por tanto tempo, igual à minha avó (que deve ir ainda mais longe). Mas se eu chegar aos 90, quero que seja igual a ela: podendo fazer a maior parte das coisas que gosto. Mas, caso eu tenha muitas limitações, espero que não me impeçam de ler bastante.

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2 comentários sobre “Viver bastante vale a pena, seja por muito ou pouco tempo

  1. Parabéns pela sua avó, Rodrigo! Infelizmente a maioria das nossas avós, quando chegam a esta idade estão muito mal, a minha morreu com 91, mas passou meses agonizando em cima da cama, acho haveria menos sofrimento se morresse logo e não sifresse tudo aquilo.

    Realmente você disse uma verdade: eu não me imagino vivendo só para trabalhar, comer, ver Pânico, novela, Big Bosta…Isso não é vida para um ser humano, eu não consigo entender como há gente que vive assim. É melhor ir ao Estádio, ver o seu jogar; ir ao bar, beber uma cerveja (sem ficar embriagado, é claro); ir à balada, à boate, ter prazer, muito prazer….Isso é que é vida. E assim pretendo viver enquanto for jovem e ter saúde. Se na juventude você não aproveita, o que deixa quando estiver com a idade da avó do Rodrigo?

    No entanto, não podemos esquecer aquele princípio do Descartes: “Cogito, ergo sum” (o Rodrigo e seus leitores são pessoas bem educadas e bem informadas, então não preciso traduzir). Ou seja, seguindo este raciocínio, um indivíduo que vive só para o pão e circo, mas não lê, não estuda, não se informa e nunca questiona a ordem social vigente, então poderíamos concluir que este indivíduo não pensa, né? E segundo Descartes…Só uma pergunta: sua avó falhou nesta parte? Claro, ela pode nunca ter estudado (na época dela, as oportunidades e acesso ao ensino eram muito mais escassas, e também, ter estudo não significa que você vai questionar a ordem vigente), mas ela questiona alguma coisa da ordem vigente? Algumas coisas que você escreve aqui, você aprendeu com ela e com a família?

    • Ela não é uma pessoa contestadora politicamente, mas podemos considerá-la como “contestadora” na situação de não aceitar que queiram limitar as atividades dela, que em regra é o que se costuma fazer com as pessoas idosas. Que são aquelas típicas de dona de casa (lavar roupa, fazer comida etc.), mas não podemos esquecer que ela foi criada em uma época bem diferente, sem contar que nasceu e cresceu no meio rural, que é geralmente mais conservador.

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