Caminhadas forçadas

Desde o começo desta semana, larguei o ônibus. Passei a ir para o trabalho a pé, e também a voltar.

Na verdade, eu já fazia isso antes, mas tinha parado, pois de julho a dezembro tinha carona para a ida – assim, apenas voltava a pé, e isso quando não chovia. Foi na sexta passada que dei um “basta” à preguiça: chovia, já tinha embarcado no ônibus de volta – e pago os R$ 2,70 da passagem – quando notei que tinha esquecido a chave de casa no trabalho… Por sorte não tinha andado muito: desci, voltei e peguei a chave. Mas decidi voltar a pé, com chuva e tudo, irritado por ter gasto R$ 2,70 a toa.

Quem usa um ônibus para a ida ao trabalho, e um para a volta, gasta toda semana R$ 27 apenas em deslocamento. Agora pensemos num mês inteiro: dá mais de R$ 100. É dinheiro que faz falta no bolso dos mais pobres. E geralmente são eles que moram mais longe do Centro, que é justamente para onde a maioria tem de se deslocar para trabalhar.

Pois eu tenho a opção de me deslocar “de graça”, a pé, por não morar muito longe de onde trabalho. Indo e voltando a pé todos os dias, economizarei bastante dinheiro, que poderei usar da maneira que achar melhor. E isso sem contar os benefícios à saúde (para alguém que foi assíduo frequentador de consultórios médicos e odontológicos em 2011, qualquer benefício à saúde é lucro). Já quem mora longe não tem esta opção: é pagar o ônibus ou perder o emprego.

Pois agora, reparem no que acontece: os motoristas e cobradores reivindicam aumento salarial de 22%, enquanto as empresas de ônibus oferecem bem menos e, com a maior cara-de-pau, usam a justíssima reivindicação de seus trabalhadores como desculpa para pedir mais um aumento na tarifa, que pode subir de R$ 2,70 para R$ 2,90! Obviamente teremos protestos, manifestações na rua, mas o histórico de insensibilidade da nossa prefeitura (mesmo em ano eleitoral) não me deixa ter esperança: a passagem vai subir.

Diante disso, só me resta caminhar ainda mais, mesmo com muito calor… Ônibus (de preferência, procurando trocar uma nota de R$ 50* na roleta), só quando tiver de ir a algum lugar muito longe ou estiver chovendo muito. E se estiver com mais três pessoas, dependendo da distância sai mais barato ir de táxi.

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* A Lei do Troco determina que o passageiro de ônibus ou lotação fica liberado do pagamento da passagem caso não seja fornecido o devido troco, desde que o montante utilizado não exceda em 20 vezes o valor da tarifa. Com isso, se usarmos uma nota de R$ 50 na roleta e o cobrador não tiver troco, podemos andar de graça; já uma nota de R$ 100 não nos dá tal direito. Vamos combinar que, se bastante gente fizer isso, é uma boa maneira de se vingar de tantos aumentos, pois os empresários do transporte coletivo sentirão onde mais dói neles: no bolso.

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2 comentários sobre “Caminhadas forçadas

  1. Ontem pela manhã peguei ônibus (com ar condicionado, claro) para ir a um churrasco com os colegas de trabalho, e paguei com nota de R$ 50. O cobrador fez a maior cara de que não gostou, e compreendo. Mas acho que a cara feia ele deveria fazer mesmo era para o patrão dele, já que a lei permite que eu pague com nota de R$ 50 (sem contar que, de alguma maneira, eu precisava trocar aquela nota). Os caras aumentam tanto a passagem, que aguentem ter de transportar gente de graça (e a culpa jamais será dos cobradores, ou vão querer obrigá-los a andar com R$ 500 de troco para serem alvo fácil de assaltos?).

    Já hoje ao meio-dia, para voltar do concurso que prestei lá na (para mim) longínqua FAPA, ia pegar o ônibus desde que fosse com ar condicionado, mas como não vinha acabei pegando lotação…

  2. Pingback: Para “sair bem na foto” | Cão Uivador

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