Ah, se fosse na Argentina…

Via Facebook, acessei uma entrevista publicada na Veja em dezembro de 1998 (época em que a revista ainda não tinha alcançado o nível de degradação jornalística que vemos hoje). Um ex-tenente do Exército no período da ditadura diz, sem rodeios, ter torturado “umas trinta pessoas” e não se arrepender disso.

Na Wikipédia, leio que ele faleceu em 2009 (até busquei por mais informações sobre isso e não achei). Ou seja, sem pagar por crimes que confessou ter cometido! E ainda tem gente que, com a maior cara-de-pau, nega não só que tenha havido tortura no Brasil, como também a própria existência da ditadura militar. Mesmo que, 13 anos atrás, um dos agentes da repressão tenha dito que tudo aquilo realmente aconteceu (e que quem nega isso é um idiota).

Aí alguém diz que o Brasil não é um país sério, e um monte de gente, do nada, vira “patriota” e sai xingando o coitado que falou uma grande verdade. E lembram que o povo brasileiro é acolhedor, cordial…

Pura balela. Fossem os brasileiros realmente cordiais, não se aceitaria que a falta de cordialidade, como a dos torturadores com suas vítimas, pudesse ficar impune como ficou.

Dizem que a impunidade serve para “não reabrir velhas feridas”, mas a verdade é que elas jamais cicatrizaram. Ainda mais para quem enfrentou sessões de tortura e anos depois precisa passar por seu algoz na rua e fingir que nada aconteceu.

————

Tivesse isso acontecido na Argentina, alguém duvida que o cara estaria no mínimo sofrendo processo judicial por um crime de lesa-humanidade?

Anúncios

2 comentários sobre “Ah, se fosse na Argentina…

  1. É a mesma moral pela qual não se fala nos massacres dos negros que eram enviados para as guerras na linha de frente com a promessa de liberdade… tanto aqui como na Argentina. Era apenas uma das maneiras de exterminar os negros na Argentina e embranquecer o país com a imigração italiana e alemã… e alguns desses torturadores nunca são vistos nas ruas para não serem reconhecidos, eles simplesmente vivem dentro de carros e nos pátios de suas mansões amealhadas com chantagens e outras falcatruas… recebem ainda as gordas aposentadorias que nada mais são do que pagamento pelos “honrosos” serviços prestados à pátria. Vivem ainda sob a proteção do exército e da polícia, não só eles mas a família inteira. Na verdade, sobrevivem protegidos pelo mesmo exército que os contratava e financiava. Esta é a máfia brasileira. Believe it or not.

  2. E isso não é veiculado.

    Acho interessante a maneira como a própria mídia coloca as matérias, sempre sob uma ótima funcionalista. Em outras palavras, a privataria tucana nunca seria capa da veja, assim como a saída de Berlusconi não foi capa, no lugar dele, foi a mecânica da novela.

    A ditadura ainda é tida como uma época em que “bandidos não ficavam nas ruas” – o problema é que todo mundo com barba e camisa vermelha era bandido.

Os comentários estão desativados.