O Natal é ditatorial

Há quase três anos, escrevi sobre a “obrigação” de se estar feliz no Natal. É aquela história: experimente manifestar desagrado, e lá vem o rótulo – “rabugento”!

Porém, há a opção de se ficar de mau humor. Em 2009, por exemplo, quando a “noite de Natal” foi terrivelmente abafada em Forno Alegre, não fiz questão alguma de fingir felicidade. No dia seguinte, claro, só ficavam falando da minha “rabugice”, mas como eu sabia de antemão que teria de arcar com as consequências de optar pela autenticidade ao invés do fingimento, não me importei – e sigo não me importando.

Agora, se há a alternativa de fazer cara feia para a celebração, isso não quer dizer que o Natal seja uma festa democrática. Pois não há possibilidade de se fazer qualquer coisa que não participar da “reunião de família” ou ficar sozinho no seu canto. Mesmo para quem não é cristão, já que há muito tempo a religião celebrada em 25 de dezembro é outra.

Caso eu queira reunir amigos ateus e agnósticos para tomar uma cerveja, por exemplo, não encontro nenhum bar aberto na noite de 24 de dezembro. Nenhum! Deve haver pelo menos um bar que pertença a um ateu ou a um agnóstico, porém, ele sabe que abrir as portas na “noite de Natal” é prejuízo na certa.

Bom, na impossibilidade de ir tomar cerveja num bar, que tal reunir os amigos em casa para uma “sessão de cinema”? Também não dá. Justamente por causa da porra da “obrigação” de se “estar em família” – mesmo que não faltem oportunidades melhores para reunir os familiares durante o resto do ano, inclusive sem esse clima de imposição. Tenho certeza de que, não fosse “obrigatório” a noite de 24 de dezembro ser de reunião familiar, se registrariam muito menos brigas e “maus humores” como os meus.

Ou seja, é praticamente impossível romper a polarização “família x sozinho no canto”. Digo praticamente porque, em tese, nada é impossível. Porém, enquanto a maioria das pessoas seguir aceitando essa “obrigatoriedade”, mesmo que a contragosto, nada mudará, pois vozes isoladas contra a ditadura do Natal não a derrubarão.

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E quase dois anos depois, o texto escrito pelo Milton Ribeiro continua atual – acho que também pode servir como um “manifesto”. (Não costumo copiar na íntegra, mas esse eu “assino embaixo”, e não deixe de ir ao original dar sua opinião.)

Abaixo o Natal!!!

O Natal devia ser como a Copa do Mundo, de quatro em quatro anos. O que há de bom nestes dias? Estar com a família? Sou alguém bastante sociável, gosto de minha familia e já os vejo frequentemente. Então, prefiro estar com eles sem as besteiras mesquinhas e os milagres da época. Mais do que o primado do consumo, detesto as promoções de bons sentimentos, a hipocrisia, a religião, a obrigação de felicidade. Pior, hoje serão servidas iguarias irresistíveis, vai se comer muito e não quero engordar. Por mim, dormia cedo. E amanhã todos voltarão porque haverá comida demais…

É uma festa legal quando temos crianças pequenas, mas agora, qual é o sentido? Há a necessidade de estarmos alegres após passar o dia arrumando a casa e lembrando de detalhes… Pois é, já viram, vai ser aqui em casa. Se a gente fica sério, as pessoas se preocupam. Então, o negócio é beber. Haja saco. Ainda bem que chove. Podia vir uma tempestade e faltar luz no meio da festa! Seria uma novidade!

Festa por festa prefiro a virada do ano. Ao menos é sem presentes e com menos religião. E, associada à data, há uma simbologia de renovação, de planos e mudanças quase sempre falsas, mas ao menos pensadas. Já o Natal… é pura merda. Na minha infância, era comemorado na manhã do dia 25. A gente acordava e havia presentes sob a árvore. Fim. Hoje é um happening, vão tomar no cu.

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4 comentários sobre “O Natal é ditatorial

  1. Bah, faz muito tempo q passo o natal e ano novo sozinha vendo os fogos do alto do meu quinto andar em POA. Aliás, a única coisa boa nessas festas são as luzes, mas bem de longe. Nunca mais ficar na mira do vizinho q jogou um torpedão raspando na minha janela. Ainda bem que se mudou. Nem pensar em ficar aqui no interior de SC no natal. O comércio é uma festa só. TOdos pagam seus dízimos e ganham de brinde a folhinha do ano novo. E as musiquinhas nas lojas dingobéu… créu créu créu … neles. E o papai noel que se move sorrindo? Tem coisa mais besta? Tem alguém q gosta daquilo? Parece saído de um filme de terror… imagino como não é a noite de natal por aqui. Forno Alegre é refresco perto da temperatura deste apartamento… ainda bem que a rodoviária é bem pertinho…

  2. Mas pior mesmo do que o natal é o tal amigo secreto com o pessoal do serviço. Bah!

  3. Pois meu caro, aqui deixo meu comentário. Tenho comigo que esta data representa mais do que trocar presentes, mais do que unir familiares e amigos. Se festejamos com familiares e também amigos o aniversário de alguém querido, que representa ou é importante para nós. Pois nesta data não faço diferente presto minha homenagem a alguém que admiro e por tal o nascimento e aniversário de um homem que, não por ser santificado como o faz a igreja católica, mas por tratar-se de um individuo como eu ou você de carne e osso que, porém diferentemente foi ao suplicio e diga-se que de tão brutal o flagelo resiste até hoje sua história, por ser contestador, um indivíduo que não compactuava com o modelo e a política social no meio em que vivia, que abolia e condenava a desigualdade social, e pregava (nos dias de hoje… protestava) através de suas sábias ideias, mas que acima de tudo (ai que me reverencio a ele) teve a coragem em nome de vários, dar sua cara a tapas e enfrentar o poder dominante e opressor da época em que viveu. Sou inteligente o suficiente para saber que como ele existiram vários, mas este em especial mesmo após sua morte, consegui que seus ensinamentos se propagassem e que efetivamente encorajassem as pessoas, cidadãs de sua época a revoltar-se contra o sistema opressor e ganancioso do poder politico concentrado na mão de poucos. E se hoje protestamos, levantamos a bandeira da igualdade e por vezes vencemos algumas batalhas em prol da liberdade e da justiça, muito devemos a Ele.
    Meu nome é Márcio Santos, advogado e tecnólogo em gestão publica além de minha mãe Elisa Santos professora de Historia e Sociologia formada pela UFPEL compactuamos desta ideia.

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