Quero entrar em Porto Alegre pela Avenida da Legalidade

Está prevista para a quarta-feira que vem, 14 de dezembro, a votação na Câmara Municipal de Porto Alegre de um projeto de lei dos vereadores do PSOL Fernanda Melchionna e Pedro Ruas, que mudará o nome da principal entrada da cidade. Atualmente chamada Avenida Presidente (que na verdade foi ditador) Castelo Branco, passará a ser designada como Avenida da Legalidade caso a proposta seja aprovada.

Não é uma mera mudança de nome, como muitos podem pensar. Pois as denominações de ruas não servem apenas para nos localizarmos na cidade: também preservam para a posteridade a memória de muitas pessoas, eternizadas em placas indicativas. Bom, eternizadas desde que não se decida retirar a homenagem… Pois já passa da hora de ditadores deixarem de ser homenageados com avenidas, ruas, praças, bairros e mesmo cidades em nosso país. E nada melhor do que trocar o primeiro dos cinco ditadores militares do Brasil pela Campanha da Legalidade, quando o povo na rua impediu que o golpe de 1964 fosse antecipado para 1961.

Já ouvi um argumento contrário: é aquele clássico “mas quanto vai custar essa mudança?”, obviamente se referindo à sinalização viária que teria de ser trocada. Quanto vão custar as novas placas eu não sei, mas certamente será bem menos do que a dor causada por ditadores como Castelo Branco a muitos brasileiros. (Dor que se traduziu muitas vezes sim em prejuízo financeiro, pois várias pessoas perderam o emprego por simplesmente serem contra a ditadura.)

É muito mais cômodo manter, em nome da “facilidade de se localizar”, os nomes atuais. Quem mora em Porto Alegre há algum tempo sabe que a Avenida Castelo Branco é a principal entrada da cidade: já é algo meio que “naturalizado” na memória coletiva da população. Só que nada disso é tão “natural”: não podemos esquecer que a referida avenida não existe desde sempre (inclusive a área onde ela se encontra é aterrada), ou seja, um dia ela foi novidade. Assim como será o novo nome, Avenida da Legalidade, caso o projeto de lei seja aprovado.

Com a mudança do nome, as pessoas terão de se acostumar. E também pensar, afinal, a referência antiga não existirá mais. Provavelmente muitos se perguntarão o motivo da mudança – e assim conhecerão melhor a nossa história.

E acredito que o novo nome irá pegar, por um motivo simples: muita gente como eu fará questão de chamar a via por sua nova denominação, Avenida da Legalidade. O que é diferente de termos um nome oficial e cada um chamar o logradouro como bem entender: assim ninguém mais se acha…

Aí reside um dos grandes méritos da proposta de Fernanda Melchionna e Pedro Ruas: dar uma referência a quem se opõe à atual denominação da via – e fazendo isso de homenageando um dos momentos mais belos de nossa história. Espero que, além de ser aprovada, a proposta “abra a porteira” para o fim de muitas homenagens não só em Porto Alegre, como em todo o país.

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18 comentários sobre “Quero entrar em Porto Alegre pela Avenida da Legalidade

  1. Estou fora do RS, mas estou torcendo pelo novo nome. Essas homenagens a ditadores estão com os dias contados. Acho q toda a América Latina deveria seguir o exemplo.

  2. Interessante… E a Av. Getúlio Vargas, continuará a homenagenar o também ditador? Nos livros de História, irão apagar o passado? Qualquer um que tenha lido ou assistido a 1984 encontrará tanta semelhança com o “modus operandi” esquerdopata que será difícil dizer o que é ficção, o que é realidade. Sds!

    • Acho que a Av. Getúlio Vargas também tinha de mudar de nome – poderia ser, quem sabe, Av. Olga Benario, que foi entregue por Getúlio a Hitler em 1936, e morta em uma câmara de gás em 1942.

      Só não entendi esse teu “‘modus operandi’ esquerdopata”… Pois foi um “‘modus operandi’ direitopata” que levou tantos ditadores a serem homenageados no Brasil. E nem só brasileiros: em Guaratuba, Paraná, há uma praça chamada “Presidente Alfredo Stroessner”, em memória do general que governou o Paraguai com mão-de-ferro de 1954 a 1989.

      E ninguém apagará o passado, apenas se contribuirá para que uma outra versão de nossa história seja escrita.

  3. Discordo. E minha discordância nada tem a ver com a história. É de caráter prático. A avenida já é conhecida por esse nome, então acredito que uma mudança formal não vai acarretar em efeitos práticos. A homenagem à legalidade é interessante, mas acho que isso pode ser feito em outro logradouro, praça, monumento, etc.

  4. buenas. então, vamos mudar o nome da av. getulio vargas…e também mudar o nome da escola costa e silva.

  5. Em outros países mudaram até o nome de cidades (ciudad Presidente Stroessner – hoje Ciudad del Este no Paraguai e Stalingrado na Rússia – hoje Volgogrado), qual o problema em mudar o nome de uma via de acesso a nossa cidade?

  6. Que monte de m….tomara que essengócio não passe. Deixem a Castelo Branco como está.

  7. Muitos direitistas, em dia de festa, se dizem contrários a ditadura militar e defensores de liberdades e democracia. Mas basta que surja um projeto, simples, como a mudança de nome de rua ou avenida que absurdamente homenageia um ditador, para que saiam da toca correndo com seus “mas”, “poréns”, “isso eu não quero”, entre outras relativizações hipócritas.

    Há pouco tempo atrás o prefeito de Rio Grande avalizou um busto ao General Golbery do Couto e Silva com a alegação de que não viveu essa época para reprovar tal medida (tsc!).
    http://blogdomonjn.blogspot.com/2011/09/em-meio-vacilos-do-pt-rio-grande.html

    É dessa forma patética e envergonhada que defendem os militares. Defendem fingindo não defender. Mas lamentavelmente não estão sós em suas fanfarronices. O Bordignon, por exemplo, está propondo um dia de homenagem à “revolução” de 30!
    http://blogdomonjn.blogspot.com/2011/11/deputado-do-pt-quer-dia-da-revolucao-de.html

    A proposta do PSOL é um contraste pertinente diante desses acontecimentos lamentáveis.

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