Onde você guarda o seu racismo?

“Ser de esquerda hoje é ser crítico em relação a todas as formas de dominação, sobretudo às sutis.” (Pierre Bourdieu)

Citei a frase acima, em texto de quase dois meses atrás, não foi por acaso. Havia uma onda de indignação contra uma lei promulgada em 2003 – mas que era tratada como uma “novidade” – que trata sobre a utilização de animais em rituais de religiões afro-brasileiras. A lei (estadual, válida no Rio Grande do Sul) permite o sacrifício de animais voltados à alimentação humana, desde que este não seja feito de forma torturante.

Como eu disse naquela ocasião, pode-se muito bem discordar da lei. Mas também enxerguei racismo naquela onda de indignação. Afinal, os mesmos que queriam “podar” os rituais de religiões afro-brasileiras não tinham atitude semelhante em relação aos ataques de certos pastores à laicidade do Estado brasileiro – o que representa uma ameaça à democracia.

Esse é o racismo do qual falo. Não é aberto, descarado, como se via na época do apartheid na África do Sul. O racismo no Brasil é sutil. Ele se manifesta quando vemos um negro de terno e gravata e achamos que ele é o segurança do local, nas ocasiões em que falamos certas palavras como “denegrir” (que significa “fazer negro” e é usada para “atacar a reputação” de alguém), quando um serviço bem-feito é dito “de gente branca” (quando inúmeras vezes foi feito por negros), quando dizemos que certas coisas são “programa de índio” etc. É ele que leva famílias candidatas à adoção a aceitarem apenas crianças brancas – e certamente tais pais não se consideram racistas.

A perversidade do racismo brasileiro se deve justamente à sua sutileza, que faz menos pessoas ficarem indignadas e lutarem contra ele. E pior, muitas vezes acabam cometendo as atitudes das quais falei acima, sem perceberem que estão agindo de forma racista.

Assim, no Dia da Consciência Negra, tal questionamento é fundamental: onde guardamos o nosso racismo?

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4 comentários sobre “Onde você guarda o seu racismo?

  1. O individuo e racista simplesmente por usar a expressao “denegrir” ou se referir a tal coisa como sendo “programa de indio”?. Bah depois dessa eu larguei. Daqui a pouco se eu falar que “a coisa ta preta” alguem vai dizer que isso e racismo e coisa e tal. Meu caro o racismo e algo institucionalizado no brasil como tu mesmo desses o exemplo do apartheid e isso se reflete nas contradicoes economicas da sociedade na qual vivemos: Rico e rico pobre e pobre. Agnaldo Timoteo artista negro famoso e rico afirmou que o que existe na nossa sociedade e o preconceito economico. Quem tem mais pode mais independentemente de ser negro branco amarelo etc. Se ele que e negro diz isso quem sou eu pra discordar?. O sistema de cotas esta ai para provar a minha tese. Apesar de ser uma medida paliativa que inclui o negro nas melhores universidades do pais ela acaba tambem fazendo o efeito contrario aumentando ainda mais as diferencas sociais economicas e etnicas entre as classes sociais. Quanto ao racismo se manifestar sutilmente ate concordo mas nao atraves dessas expressoes que voce escreveu.

    • Eu não disse que o indivíduo é racista por conta disso, mas que é uma atitude racista – mesmo que a pessoa não perceba isso.

      Inclusive, eu mesmo procuro me policiar para não acabar usando tais expressões. Sempre prefiro falar “a coisa tá feia” ao invés de “preta”.

  2. Pingback: Cassar Bolsonaro não resolve o problema | Cão Uivador

  3. Vivemos num país racista. onde se observa a frase: Faz serviço de branco. Sempre pensei, como seria este serviço de branco. É eficiente, verdadeiro e legal. Onde encontramos os negros nas telenovelas, como serviçais ou pegadores de mulheres. Até quando o negro sera medido por ser negro. Todos são marginais ou são excluidos na vida. Que programas são fornecidos aos negros, para conseguir bons empregos na vida. Até quando, seremos brilhos em escolas de samba , e não pelo nosso saber e ser.

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