O vírus do “fale mal, mas fale de mim”

No dia 23 de agosto de 1944, a Romênia foi libertada do domínio nazista. Ironicamente, isso se deu a partir de um golpe comandado pelo rei Mihai, que depôs a ditadura do general Ion Antonescu: o exército romeno, que lutava na Segunda Guerra Mundial sob o comando alemão, passou para o lado dos aliados – mais precisamente, da União Soviética. Em 1947, o rei foi deposto e a Romênia tornou-se uma “república popular” sob o domínio do Partido Comunista, regime que durou 42 anos.

Até 1989, o dia 23 de agosto era o principal feriado nacional na Romênia. A data era marcada por grandes celebrações que, além de exaltarem o país, também promoviam o culto à personalidade do ditador Nicolae Ceausescu, nos últimos anos de seu regime opressor.

Em dezembro de 1989, o povo romeno se rebelou contra a ditadura e o racionamento de tudo (desde a comida até a calefação durante o inverno) que lhe era imposto enquanto a família Ceausescu vivia na opulência (com direito a construir para ser sua residência o maior palácio do mundo, que hoje abriga o parlamento da Romênia). Nicolae e sua esposa, Elena, foram executados no dia de Natal, após um julgamento “de cartas marcadas” que condenou o casal à morte.

Após a queda do “socialismo”, aconteceu com a Romênia o que foi regra nos demais países do Leste Europeu no pós-1989. Tudo o que era anterior passou a ser considerado “velho”, que precisava ser urgentemente abandonado. O feriado de 23 de agosto foi abolido, e muita gente adotou hábitos ocidentalizados, mais “estadunidenses” do que “romenos”. Os próprios símbolos nacionais perderam popularidade, ainda mais com a crise econômica que atingiu o país.

Dentre esses símbolos se encontra o chocolate Rom, fabricado desde a década de 1960 e cuja embalagem contém as cores da bandeira romena. Com a abertura da Romênia ao “mercado” no pós-1989, lojas e supermercados romenos foram “invadidos” por marcas estrangeiras, principalmente dos Estados Unidos, que começaram a ofuscar o tradicional chocolate.

Foi quando uma mudança radical foi anunciada: a embalagem do Rom deixaria de ter as cores da bandeira da Romênia, e passaria a ostentar a dos Estados Unidos. Afinal, se todo mundo gostava tanto dos “esteites”… Nada melhor do que virar “estadunidense”, comendo um “American Rom”. Até a campanha publicitária passou a ser exibida em inglês, não mais em romeno.

Só que a mudança gerou efeito contrário. A população se sentiu ofendida com tamanha “profanação”, e os protestos não se limitaram às redes sociais: jovens chegaram a ir às ruas, exigindo a volta do Rom “autêntico”. O chocolate virou assunto nacional.

Então a agência de publicidade responsável pela campanha esclareceu a situação: tratava-se de um “viral”, que tinha justamente o objetivo de mexer com o orgulho nacional do país e, desta forma, alavancar as vendas do Rom. E deu certo: o consumo do chocolate (cuja embalagem voltou a ter as cores da bandeira da Romênia, e a ser anunciado em romeno) aumentou em 79%. Não bastasse tudo isso, a campanha publicitária acabou premiada no festival Cannes Lions deste ano.

Então, parece que está aí a inspiração para as “mudanças” na Ipanema FM de Porto Alegre, que chegaram a gerar reações indignadas na semana passada. A rádio, cuja programação é baseada no rock – e por conta disso sempre teve um público fiel – tornaria-se mais “popular”, para obter mais audiência. E foi o que se ouviu na rádio durante o dia 15.

A consequência, foi a mesma do “American Rom”: revolta de muitos e, principalmente, o fato de ser “o assunto mais falado”. Para depois voltar ao “normal”, mas sendo lembrada por mais gente do que antes.

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