O retrocesso no calendário do futebol brasileiro

Ano passado, quando listei os motivos pelos quais prefiro o inverno ao verão (lista atualizada quando se iniciou o último verão), lembrei que a combinação de “verão” com “futebol no Rio Grande do Sul” dava “Gauchão”. Nada contra o futebol gaúcho, muito pelo contrário. É que acho o atual modelo de estaduais anacrônico, ruim para o futebol do interior do Estado – ao contrário do que muita gente pensa. Em breve, pretendo escrever mais sobre como se poderia realmente melhorá-lo.

(No atual Gauchão, que começou em 15 de janeiro, passou-se quatro meses jogando para a decisão ser, mais uma vez, um Gre-Nal. Apesar de que fazia quase 20 anos que não se tinha dois Gauchões seguidos decididos em Gre-Nal – a última ocasião foi nos anos de 1991 e 1992 -, Grêmio e Inter decidindo o título é talvez a maior tradição do campeonato. A década passada é que foi “estranha”, quando apenas em 2006 e 2010 o Gauchão acabou em Gre-Nal.)

Mas, voltando à questão “retrocesso calendárico”. Conforme falei, o campeonato começou em 15 de janeiro (menos de um mês, portanto, do fim da temporada de 2010 para o Internacional, que no ano passado disputou o Mundial de Clubes). E só termina hoje, 15 de maio. Ou seja, se “verão + futebol gaúcho = Gauchão”, ao mesmo tempo não podemos chamar o campeonato estadual de “torneio de verão”, visto que já se foi quase metade do outono, e daqui a pouco mais de um mês já será inverno.

Como bem lembrou o Vicente em seu ótimo texto no Carta na Manga, desde 2003 (quando foi adotada a fórmula dos pontos corridos no Brasileirão), o campeonato nacional nunca tinha começado tão tarde. Naquele ano, iniciou-se em 29 de março (ou seja, os estaduais foram realmente “torneios de verão”), terminando em 14 de dezembro. Em 2004 e 2005 começou mais tarde, no final de abril, durando respectivamente até 19 e 4 de dezembro (primeiro domingo do último mês do ano, como passou a ser regra desde então). O Brasileirão de 2006 teve seu início um pouco mais cedo, em 15 de abril, devido à paralisação prevista durante a Copa do Mundo. A partir de 2007, passou a começar no segundo sábado de maio, fazendo os estaduais avançarem um pouco mais outono adentro (foi assim inclusive em 2010, ano de Copa). E agora, em 2011, começa apenas em 21 de maio, um mês antes do início do inverno.

Ou seja, temos estaduais cada vez mais longos, e um Campeonato Brasileiro cada vez mais espremido. Um certame de 20 clubes disputado em turno e returno (ou seja, com 38 rodadas) não pode durar apenas seis meses e meio (o Brasileirão 2011 termina em 4 de dezembro). É jogo demais em pouco tempo – e lembrando que a Libertadores ainda não terminou, e no segundo semestre tem Copa Sul-Americana para vários clubes (e aí estranham quando os que estão bem no Brasileirão escalam reservas na “Sula”).

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Mas uma coisa é verdade também. Com tanto espaço no calendário, se poderia tranquilamente reduzir o número de participantes do Campeonato Gaúcho e fazê-lo em pontos corridos, turno e returno. E também não teria se visto aquela polêmica quanto ao Gre-Nal da decisão do 2º turno (a Conmebol não marcaria um jogo do Grêmio na terça já sabendo que ele teria de jogar dois dias antes, visto que a partida do Gauchão estaria marcada há meses).

Mas, entre um Gauchão longo de pontos corridos com Brasileirão espremido, e um Gauchão curto e “formulista” com Brasileirão de oito meses (e, claro, disputado em pontos corridos, turno e returno), prefiro sem dúvida alguma a segunda opção.

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9 comentários sobre “O retrocesso no calendário do futebol brasileiro

  1. Pior do que ganhar só o Gauchão é não ganhar nem o Gauchão!

    40 vezes campeão estadual! O mais Internacional do Sul também é o mais regional!

    • Já tinha visto… Minha proposta vai ser semelhante à tua, com algumas diferenças. Mas escrevo mais sobre isso outra hora, que já é muito tarde! :P

  2. Creio que um Gauchão com pontos corridos em 2 turnos seria rejeitado pelos clubes do interior, pois preferem torneios curtos que permitam eventuais “disparadas” repentinas de times pequenos, facilitando a classificação destes nas fases seguintes do campeonato. Prefiro um Gauchão rápido com semifinal e final e no máximo 10 clubes, deixando a fórmula de pontos corridos apenas para o Brasileirão. Em vez de inchar os regionais, estes deveriam encurtar ainda mais, de fevereiro a meados de abril. Já tinha pensado num calendário parecido com o do André Egg, mas com os regionais classificando direto pra Série B. Mas pra isso, os times da A seriam excluídos dos estaduais e jogariam um Brasileirão de ano inteiro, voltando a disputá-los apenas quando rebaixados. Inviável na prática, pois os dirigentes dos times pequenos jamais aceitariam.

  3. Pingback: Minha proposta de calendário para o futebol brasileiro (e sul-americano) « Cão Uivador

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