30 anos do atentado terrorista no Riocentro

Na mais recente campanha eleitoral, fomos bombardeado (geralmente, via e-mail) com a baixaria de que “Dilma foi terrorista”, e que por isso não deveríamos votar nela. Ora, se havia motivos para não votar nela, alguns eram os que apresentei em um texto postado em 5 de maio do ano passado (acabaria mudando o voto cinco dias antes do 1º turno). O fato dela ter combatido a ditadura militar (embora sem provas de que tenha participado de ações armadas), que motivou a alcunha de “terrorista” por parte dos reacionários, na minha opinião pesa a favor dela, e não contra.

Porém, o que os mesmos reaças teriam a dizer do acontecido na noite de 30 de abril de 1981? Naquela ocasião, enquanto acontecia no Riocentro um show de música popular para um público de 20 mil pessoas (comemorativo ao 1º de Maio), duas bombas explodiram no lado de fora: uma delas, dentro de um carro que manobrava no estacionamento do local; já a outra, mais potente, foi lançada contra a casa de força do Riocentro, mas não chegou a atingir seu alvo, e assim a explosão não resultou na escuridão que provavelmente causaria o pânico nas milhares de pessoas que assistiam ao show, o que obviamente teria consequências funestas. Dentro do automóvel Puma destruído por uma das bombas, estavam dois militares do Exército: um morreu na hora (sargento Guilherme do Rosário), o outro (capitão Wilson Machado) sobreviveu à explosão.

O atentado terrorista no Riocentro não foi um fato isolado. Desde o início do ano anterior, várias bombas já tinham explodido em várias partes do Brasil, inclusive com consequências fatais: em 27 de agosto de 1980, a explosão de uma carta-bomba na sede da OAB-RJ resultou na morte de sua secretária, Lyda Monteiro.

Por motivos óbvios, o governo (militar e ainda ditatorial, apesar da “abertura lenta, gradual e segura”) acusava “radicais de esquerda” de serem os autores dos atentados. Porém, tal hipótese era absurda, visto que a feroz repressão dos anos 60 e (principalmente) 70 acabara com os grupos armados de esquerda no Brasil. E o fato da bomba no Puma ter explodido no colo de um dos seus passageiros (que ainda por cima eram militares) não deixou dúvidas de que era a extrema-direita que, por meio do terrorismo, pretendia “fabricar” uma ameaça, de modo a “justificar” a retomada de uma repressão mais severa e, consequentemente, a continuidade da ditadura por mais tempo. O que obviamente interessava ao governo de então.

A investigação do atentado foi feita no âmbito da Justiça Militar, e o inquérito acabou arquivado em setembro de 1981. A reabertura do caso, em 1999, foi breve: três meses depois, o processo foi novamente arquivado; apesar de alguns envolvidos terem sido indiciados, nenhum deles cumpriu pena. Em 30 de abril de 2001 (ou seja, há dez anos), o crime prescreveu.

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Agora voltemos ao começo do texto, e à questão do uso do termo “terrorista”. Acusavam (erradamente) Dilma de ter participado de ações armadas contra a ditadura, considerando isso como “terrorismo”, mesmo que os alvos fossem específicos (ou seja, gente ligada ao regime, de modo a conseguir a libertação de presos políticos).

Pode-se até questionar o método dos militantes de esquerda em sua luta contra a ditadura (afinal, houve inocentes que acabaram morrendo). Mas não é possível falar sério deixando de considerar o contexto histórico: mesmo que se consiga realmente provar que as guerrilhas pretendiam instalar “uma ditadura comunista” no Brasil, não foi contra um regime democrático que elas pegaram em armas, e sim contra o terrorismo de Estado que imperava desde 1964.

Bem diferente dos que tramaram os diversos atentados acontecidos em 1980 e 1981 em várias partes do país. Estes, eram contra a democracia – que, aliás, ainda nem tinha sido restaurada, mas só tal possibilidade já era suficiente para deixá-los em polvorosa. E aquelas bombas não tinham alvos específicos: o objetivo era assustar a população. Ou seja, terrorismo.

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