Abaixo a Batalha dos Aflitos!

A derrota do Grêmio, acreditem, não chegou a me irritar demais – serviu foi de desculpa para exagerar na cerveja após o jogo. Eu não tinha lá muita esperança de que passaríamos pelo Universidad Católica (no máximo, pensava que a classificação significaria simplesmente adiar a eliminação). Não achava que fôssemos perder em casa, é verdade. Mas, assim como o Guga, também não fiquei surpreso.

Agora, irritação das grandes me veio quando soube da entrevista pós-jogo de Paulo Odone, que falou da Batalha dos Aflitos como “exemplo” para o Grêmio reverter a situação em Santiago do Chile. (Reverter a situação no Chile? Um time que tem medo de chutar a gol e não terá o ataque titular, vai marcar no mínimo dois gols na casa do adversário? Vou ali falar com o Papai Noel para saber a opinião dele, esperem aí.)

Chega de falar dessa Batalha dos Aflitos! Foi bacana naquela época? Foi sim, por muitos motivos: o Grêmio tinha um time horrível, estava com quatro jogadores a menos, na casa do adversário e com um pênalti contra, eu já me preparava psicologicamente para mais um ano na segunda divisão… Mas acabou ganhando o jogo, quando tudo indicava que perderia.

Só que isso foi em novembro de 2005. E já estamos praticamente em maio de 2011. Ou seja, se passaram cinco anos e meio daquilo. E o que ganhamos desde então? NADA! O Gauchão (conquistado pelo Grêmio em 2006, 2007 e 2010) não pode mais servir de parâmetro para um clube que já conquistou o MUNDO.

Se o Gauchão – competição na qual temos a oportunidade de enfrentarmos nosso tradicional adversário – não pode servir de parâmetro, o que dizer da Série B? Como eu já disse em texto postado aqui em novembro passado (em ocasião do quinto aniversário da Batalha dos Aflitos), aquela partida contra o Náutico só se tornou memorável devido à assombrosa incompetência do Grêmio: primeiro, por não ter conseguido se manter na Série A em 2004; em segundo lugar, por ter deixado de vencer um jogo que já estava ganho contra a Portuguesa em São Paulo – com aqueles dois pontinhos a mais o Tricolor já teria assegurado a classificação uma semana antes da bola rolar nos Aflitos. E vale lembrar que a campanha na Série B de 2005 não foi nenhuma maravilha, com direito a uma humilhante derrota de 4 a 0 para a Anapolina, que considero como um dos dez maiores vexames da história gremista.

Comemorar a Batalha dos Aflitos, e usá-la como exemplo, até considero aceitável nos primeiros anos após aquilo, quando, além dela ser mais recente, o time do Grêmio era bem mais fraco que o de 2011. Agora, por favor, basta disso! Em seus grandes títulos o Tricolor contava com jogadores que não tinham apenas garra (o que considero obrigação de qualquer atleta profissional), como também muita qualidade. Ou será que foi esquecido que o “cangaceiro gremista” Dinho também sabia desarmar muito bem sem precisar fazer a falta? Renato Portaluppi é nosso ídolo-mor não por ter dado trocentos pontapés nas canelas adversárias, mas sim por seu futebol de alta qualidade, simbolizado por aqueles dois golaços contra o Hamburgo. Lembram daquela sensacional sequência de passes que resultou no terceiro gol do Grêmio (marcado por Marcelinho Paraíba) na decisão da Copa do Brasil de 2001? (Que, aliás, foi nossa última conquista de verdade.)

A impressão que tenho, é de que ficou proibido querer que o Grêmio pratique um futebol de qualidade: o importante é (só) ter garra, dar pontapé (mas concordo que às vezes é realmente necessário cometer algumas faltas) e ganhar jogando mal… Como foi na maldita Batalha dos Aflitos. Opa, nem tanto: sem o talento de Anderson, não teríamos vencido aquele jogo (no máximo teríamos empatado em 0 a 0 e nos classificado em 2º lugar). Esse desprezo pela qualidade técnica e valorização do pontapé, que não se via no Grêmio e em sua torcida nos anos 90, me faz lembrar o que aconteceu com o futebol do Uruguai, cuja seleção passou 40 anos sem conseguir chegar às quartas-de-final de uma Copa do Mundo (isso quando as disputava):

No futebol uruguaio, a violência foi filha da decadência. Antes, a garra charrua era o nome da valentia, e não dos pontapés. No Mundial de 50, sem ir mais longe, na célebre final do Maracanã, o Brasil cometeu o dobro de faltas que o Uruguai. (Eduardo Galeano. Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 206.)

————

E, caro leitor, há mais dois textos sobre esse mesmo assunto, que também valem muito a pena serem lidos: o do Igor Natusch no Carta na Manga, e o do Bruno Coelho no Grêmio 1903 e no Tribuna Gremista.

Anúncios

9 respostas em “Abaixo a Batalha dos Aflitos!

  1. hehe Finalmente um de vocês se deu conta. Tomara que a tua forma de pensar não se dissemine.

    Agora, porrada por porrada, a mim pareceu que aqueles jogadores chinelos sabiam bater mais e melhor que uruguaios e gaúchos juntos. Caramba, nunca vi um time descer tanto a lenha em outro! E o juizinho lá, na dele…

    Tá na hora de acabar com outro tipo de raciocício, o de que “Libertadores é isso aí mesmo, o cacete come solto e o cara tem que ser macho pra aguentar”.

    Sobre o Dinho: lembei que naquela última fase gloriosa de vocês, em meados dos 90, quando protagonizaram aqueles duelos memoráveis contra o Palmeiras, a imprensa café-com-mé descia a lenha no cara, dizendo que era um jogador agressivo, violento, um bandido. Enquanto isso, sujeitos como o Amaral, o bonitinho, jogavam exatamente do mesmo jeito, e eram tachados de voluntariosos, esforçados, exemplos de garra.

  2. É… parece que a Batalha dos Aflitos se tornou mais importante que o Toyotão 83. Pelo menos é mais citada como exemplo por dirigentes e alguns torcedores. Paciência, cada um com a sua “glória”! rsrsrsrsrs

  3. Pingback: Isto sim que é referência para o Grêmio « Cão Uivador

  4. É comum ouvir de torcedores do Grêmio que além de tradicionalmente violento, é um time que sempre ganhou quando jogou como time pequeno. A referência à campanha da segunda divisão ganha nos Aflitos reforça isso. Aliás, cá em Pelotas, nós xavantes temos que ouvir setores do Brasil e de parte da famigerada imprensa local que o Brasil irá para a primeira divisão do futebol gaúcho se jogar como time de segunda divisão, com balão e pontapé. É dose.

  5. Pingback: O hino nacional mais bonito de todos « Cão Uivador

  6. Pingback: Grêmio: 10 anos sem títulos de expressão « Cão Uivador

  7. Pingback: Uruguai, o maior da América « Cão Uivador

  8. Pingback: Teremos vaias para Guerreiro e Odone também? | Cão Uivador

Deixe uma resposta para fernando paim Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s