A tragédia de Realengo

Ainda não tinha tido tempo de escrever sobre a tragédia acontecida quinta-feira no Rio de Janeiro – algo que eu estava acostumado a só ver no noticiário internacional. E com tantas “explicações” para o massacre, fica difícil formar uma opinião que não seja mera reprodução de uma das versões para o fato. Porém, o que me parece indiscutível é que, em momento de comoção como o atual, sempre aparece um monte de gente com “explicações simples” para o problema.

A primeira, é o equívoco de se culpar a venda legal de armas de fogo e munição pela tragédia. Por acaso alguém acha que Wellington Menezes de Oliveira obteve suas armas de maneira legal? Ora, mesmo que a opção “sim” tivesse sido a mais votada no referendo de 2005, a venda de armas de fogo não teria acabado: ela continuaria a existir, apenas ilegalmente, assim como o tráfico de drogas (que há décadas é combatido, mas não acaba nunca).

Outra, que foi bastante explorada pela mídia corporativa, foi sobre o suposto (e põe suposto nisso!) “fundamentalismo islâmico” de Wellington. Basta ler a carta atribuída a ele e divulgada pela própria mídia, para perceber que ele fala muito em Jesus Cristo, ou seja, que o cara é cristão, e não muçulmano. Ou seja, aquela velha história de tratar os muçulmanos como “terroristas em potencial”, como se todos (e apenas) eles fossem “fanáticos”, e não existisse fanatismo em outras religiões.

Pior, é repetirem constantemente que Wellington era “retraído, antissocial, vivia no computador etc.”, criando o estereótipo de que todo mundo que é assim, um dia vai comprar armas (ilegalmente, repito), invadir uma escola e matar um monte de gente. Ora, o que não falta no mundo são pessoas tímidas, fechadas, e que usam bastante o computador – e nem por isso temos tantos assassinos em potencial. Wellington era alguém com problemas psicológicos, que precisava de tratamento: afinal, a pessoa sã vai pensar muitos milhares de vezes antes de sair matando todo mundo (e não cometerá tal ato).

Assim, acaba deixando-se de discutir o que realmente é necessário, como o bullying nas escolas e em diversos ambientes sociais, o fato de Wellington ter matado prioritariamente meninas, o ódio ao diferente que é cada vez mais fomentado (Bolsonaro, lembram?), o individualismo e aquela estúpida divisão entre “vencedores e perdedores” (que se vê muito em filmes estadunidenses que retratam escolas, mas que também está presente no Brasil), dentre outras questões. Mas isso, vou deixar para o(s) próximo(s) post(s).

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3 comentários sobre “A tragédia de Realengo

  1. Rodrigo, pelo que li não era bullying, e sim que ele foi “bolinado”. Se isto for verdade, não teve apoio de ninguém e resolveu se vingar qdo e como pode. Ou seja, algum pedófilo está solto por aí fazendo o mesmo com outros futuros Wellingtons. Ele deve ter ficado muito traumatizado principalmente na parte sexual, daí a aversão dele por qq “coisa” que lembre sexo, como “mulheres”, no caso as estudantes. Não entendi pq ninguém falou nisso. Vi na televisão um trecho da carta e ali dizia “bolinado”. O jornalista não deu importância à palavra e tocou pra frente a reportagem. Nenhum comentarista referiu essa palavra.

  2. “… e há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade e há tempos são os jovens que adoecem e há tempos o encanto está ausente e há ferrugem nos sorrisos…”

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