Carlos Lacerda, o comunista

Certos direitosos se contradizem muito facilmente. Como um tal de Antonio, que deixou um comentário com argumentação facilmente desmontável no texto de quarta-feira, procurando “justificar” o golpe de 1964.

Concordo com sua opinião. mas não esqueça que quem foi perseguido pela ditadura não queria democracia, mas sim uma ditadura comunista como as de Cuba, URSS, etc. Concordo também que os torturadores devem ser punidos. Os torturadores dos dois lados, pois no momento os guerrilheiros estão recebendo polpudas somas devido a terem sido “perseguidos”. Os criminosos de direita e de esquerda devem receber o mesmo tratamento, pois, do contrário, será apenas revanchismo e não democracia onde todos devem ser iguais perante a lei.

Aquele velho papo furado de que o golpe “impediu uma ditadura comunista” (que bela maneira de proteger a democracia, implantando uma ditadura…), de que “é preciso punir os dois lados” (como se ambos fossem equivalentes em força, e nenhum deles tivesse sofrido punição – ou querem coisa pior que tortura, execução e desaparecimentos?), revanchismo etc.

Mas o argumento mais tosco é o de que “quem foi perseguido pela ditadura queria uma ditadura comunista”. Pois bem: se é assim, isso quer dizer que Carlos Lacerda era comunista!

É, ele mesmo, um dos mais ferrenhos anticomunistas que o Brasil tinha nas décadas de 50 e 60. Carlos Lacerda chegou a ser comunista na juventude, mas depois “endireitou”, e foi um modelo perfeito para o famoso ditado “o pior reacionário é o esquerdista recalcado”. Dono do jornal “Tribuna da Imprensa” e líder da conservadora UDN, Lacerda apoiou abertamente o golpe de 1964, ocasião em que era governador do Estado da Guanabara (correspondente ao atual município do Rio de Janeiro).

Deposto João Goulart, era previsto que os militares ficariam no poder até 31 de janeiro de 1966, data em que se encerraria o mandato de Jango e seria empossado o presidente eleito em 3 de outubro de 1965. Dentre os cotados para vencer aquela eleição estavam Carlos Lacerda e o ex-presidente Juscelino Kubitschek.

Só que, como todos sabem, o regime militar não foi apenas “transitório”, e acabou apenas em 1985. E os planos de Lacerda para chegar à presidência foram por água abaixo.

Percebendo que fora “escanteado” pelos militares, Lacerda voltou-se contra a ditadura e uniu-se a seus antigos adversário Juscelino e Jango, formando a “Frente Ampla”. Obviamente o regime não deixou barato: em nome da “segurança nacional”, um dos maiores apoiadores do golpe que instaurara aquela ditadura teve seus direitos políticos cassados, e passou a sofrer perseguição política.

Carlos Lacerda faleceu em 1977, em circunstâncias bastante estranhas (estava internado em uma clínica devido a uma gripe comum, ou seja, nada de grave), levantando a hipótese de que teria sido assassinado pela ditadura.

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