Será que nasci no país errado?

Sou graduado em História, título conquistado em 14 de dezembro de 2009, quando minha monografia de conclusão recebeu conceito “A” da banca. (Oficialmente foi em 18 de fevereiro de 2010, dia da formatura em gabinete, mas para mim a data marcante foi 14 de dezembro de 2009.)

Se minha formação é em História, obviamente sou um cara que valoriza o passado. O que não quer dizer que ache bom tudo que é antigo, nem ruim tudo que é novo. Num exemplo, eu não trocaria o Brasil de hoje pelo de 30 anos atrás.

Brasil, 30 anos atrás… Era 1981: além de ser o ano que nasci, nosso país era também uma ditadura militar. Decadente, mas ainda ditadura, que chegava a apelar para o terrorismo para tentar evitar a volta da democracia, como se viu naquele atentado no Riocentro.

Em 1981, a ditadura na Argentina também estava em decadência – mas, para tentar esconder isso, no ano seguinte os militares argentinos apelaram para o orgulho nacional que envolvia a centenária disputa pelas Ilhas Malvinas, enviando soldados para uma guerra suicida contra a Inglaterra.

O povo argentino voltou a votar para presidente em 1983. Já aqui no Brasil, isso só se deu em 1989, ou seja, seis anos mais tarde.

Com o fim da ditadura na Argentina, iniciou-se uma luta por justiça. Militares envolvidos com a repressão foram julgados e condenados. Houve um retrocesso (a “Lei do Ponto Final” e a “Lei da Obediência Devida”, visando ao esquecimento), mas com o passar do tempo, tornou-se imperioso passar a limpo o tenebroso período que, apesar de ter durado apenas sete anos (1976-1983), resultou na morte e/ou no desaparecimento de cerca de 30 mil pessoas. Resultado: se voltou a julgar criminosos de lesa-humanidade, e os arquivos da repressão foram abertos.

Já no Brasil, 26 anos após o poder voltar às mãos dos civis, ninguém foi punido por atrocidades cometidas durante os 21 anos (1964-1985) de ditadura militar. Enquanto na Argentina até mesmo os ditadores (como Jorge Rafael Videla) foram parar na cadeia, aqui todos eles já morreram, sem pagarem por seus crimes. O acesso aos arquivos da repressão é negado. E não bastasse isso, Jair Bolsonaro consegue ser eleito deputado federal (quem vota nele, defensor da democracia não é).

E agora, mais uma notícia que me fez sentir muita inveja dos argentinos: um padre que abençoava os “voos da morte” (em que prisioneiros ainda vivos eram jogados de aviões ao mar) foi denunciado enquanto rezava uma missa.

A Argentina tem memória, se recusa a deixar que o período mais tenebroso de sua história caia no esquecimento, enquanto no Brasil não vemos nenhum esforço no sentido de se esclarecer aqueles tristes anos (e quem procura lembrar, para que não se repita, ainda é chamado de “revanchista”). Diante disso, começo a achar que nasci no país errado. Mas, ainda tenho esperança de que se comprove que minha nacionalidade brasileira não é um erro geográfico.

31 de março e 1º de abril, amanhã e sexta, são dois dias para se lembrar, nas redes sociais, que há 47 anos houve um golpe que instaurou uma ditadura militar no Brasil, e que não queremos isso NUNCA MAIS.

13 respostas em “Será que nasci no país errado?

  1. Concordo com sua opinião. mas não esqueça que quem foi perseguido pela ditadura não queria democracia, mas sim uma ditadura comunista como as de Cuba, URSS, etc. Concordo também que os torturadores devem ser punidos. Os torturadores dos dois lados, pois no momento os guerrilheiros estão recebendo polpudas somas devido a terem sido “perseguidos”. Os criminosos de direita e de esquerda devem receber o mesmo tratamento, pois, do contrário, será apenas revanchismo e não democracia onde todos devem ser iguais perante a lei.

    • Antes de qualquer coisa, Antonio, dá uma olhada nisso aqui: https://caouivador.files.wordpress.com/2010/01/lei-de-anistia.jpg

      E agora me diz: ainda achas justo “julgar os dois lados”?

      E digo mais: lembrando uma frase perfeita do Weber que a Niara postou em comentário a meu texto de sábado, “Quem se declara neutro já se decidiu, mesmo sem saber, pelo lado mais forte” (e quem acha que nesta questão “os dois lados” se equivaliam ou que o mais forte não era o Estado, não merece ser levado a sério).

      Quanto ao “quem foi perseguido pela ditadura não queria democracia, mas sim uma ditadura comunista como as de Cuba, URSS, etc.”, interessante saber que esse era o desejo de CARLOS LACERDA, que depois de apoiar o golpe em 1964, acabou se voltando contra o regime militar pois este não devolveu o poder aos civis em 1966 (quando Lacerda esperava assumir a presidência, vencendo a eleição que deveria ter ocorrido em 1965 mas foi cancelada pelos militares). Vai ver foi por isso que teve seu mandato de deputado federal cassado em 1968: seu verdadeiro objetivo era implantar o comunismo no Brasil…

      Vale lembrar que a morte de Lacerda, em 1977, se deu em circunstâncias muito suspeitas (assim como as de JK e Jango, no ano anterior), levantando a hipótese de que tenha sido assassinado pela ditadura.

      • Caro Rodrigo. Já notei que o missivista tem o hábito de fazer gracinhas quando é contrariado e não tem argumentos para debater. Típico de quem foi doutrinado e não procura conhecer os dois lados da história para depois tirar conclusões. Mais um “maria-vai-com-as-outras”. E como bom democrata que é, ainda define o que é bem vindo ou não no debate, em tipica censura. É a democracia que os guerrilheiros queriam e você defende, não é? Minha avó já dizia nessas ocasiões “Ora, vá plantar batatas…”

        • Tu deixas qualquer um entrar na TUA casa e fazer o que bem entende? Certamente que não.

          Pois o MEU blog é como se fosse a MINHA casa. Se me der na telha, acabo inclusive com o espaço de comentários, embora obviamente não planeje fazer isso. Não há “censura” alguma nisso: qualquer um (inclusive tu) pode muito bem criar seu blog e escrever o que bem entender, portanto, não me venha com esse papo furado de “censura”.

          Doutrinado, todo mundo é, de certa forma. É muito fácil acusar meu adversário de ser “doutrinado, manipulado”, enquanto eu sou “o iluminado, detentor do conhecimento”, que é certamente como tu te julgas. E já estou (literalmente) careca de saber “os dois lados da história”, só que eu não sou hipócrita de me declarar “neutro” (o que, como disse o Weber, corresponde a apoiar o lado mais forte, mesmo sem saber disso). Eu tenho lado e não escondo, diferentemente de ti, que tenta posar de “neutro” para defender a ditadura.

          Disseste que eu não quero debater, mas eu quero sim. Debate, não trollagem.

  2. Vi o Conexão Repórter hoje no SBT sobre a ditadura e os torturadores e mandantes estão muito velhos. Acho q o Brasil vai esperar que morram. Daí ninguém vai descobrir os corpos e nada será provado etc.
    Dia 5 de abril começa uma novela Amor e Revolução no mesmo SBT às 22:15. Será retratado o Brasil da época da ditadura e as atrocidades q eram cometidas em nome da ordem. Será q os outros canais lembrarão do ocorrido?

  3. Na Argentina e Uruguai, q eu saiba, os condenados são os torturadores e não os torturados. Só se o Brasil resolver ter a iniciativa de alguma aberração jurídica. Por favor, os guerrilheiros estavam lutando contra uma ordem instituída por um GOLPE DE ESTADO. Como dizia um profe de direito penal na faculdade: Não vamos admitir hipóteses absurdas!!!
    Sorte de quem nasceu na década de 80. Eu passei a faculdade toda sem poder me expressar livremente. Eu e toda a minha geração.

  4. Pingback: Carlos Lacerda, o comunista « Cão Uivador

  5. Na minha casa, deixo entrer somente quem eu quero, assim como você diz que faz. Mas um blog é público. Se não quer comentários sobre o que escreve, realmente acabe com o espaço de comentários. É uma posição cômoda. Quanto a crer que os dois lados devem sofrer as consequencias de seus atos, não é neutralidade. Neutralidade seria deixar acontecer sem emitir opinião a respeito. Querer igualdade de tratamento chama-se justiça. Quero, e isto é ter posição, que os criminosos de ambos os lados sejam punidos.

    • Não, Segetto, um blog não é público. Ele é aberto ao público, mas tem um dono, é um espaço PRIVADO. Assim como, por exemplo, o Santander Cultural é aberto ao público, inclusive promovendo atividades com entrada franca, mas não deixa de ser um espaço privado.

      E eu quero, sim, comentários sobre o que escrevo, por isso faço questão de que as pessoas venham aqui e, se tiverem alguma opinião interessante para colaborar com o debate, colaborem. Aliás, o que estás fazendo agora, apesar de eu discordar completamente do que disseste. ;)

      Isso é bem diferente de mandar não um, mas dois textos gigantescos, tirados sabe-se lá de onde, que nada mais fazem do que bater na mesma tecla. Isso é o que chamo de trollagem.

      Quanto à tua opinião de que é preciso igualdade de tratamento (leia-se “punir os dois lados”), discordo, pois como diz aquele velho ditado, “não podemos tratar de forma igual os desiguais”. Primeiro, porque se fizermos assim, teríamos de submeter os torturadores (que estavam a serviço do ESTADO) a choques elétricos e pau-de-arara, assim como eles fizeram com os militantes de esquerda, mas aí sim teríamos “revanchismo”, e o que se quer é justiça – ou seja, julgamento justo, com direito à defesa etc.

      Segundo, pois os militantes de esquerda (tenham participado da luta armada ou simplesmente manifestado opinião contrária à ditadura – vide VLADIMIR HERZOG) já foram severamente punidos – sem julgamentos justos, sem direito à defesa nem nada. Se forem punidos DE NOVO, foi-se a igualdade de tratamento…

  6. Pingback: Comissão da Verdade: “meia-boca” é melhor que nada « Cão Uivador

  7. Pingback: Ah, se fosse na Argentina… | Cão Uivador

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