Não existe discurso sem ideologia

Causou certa repercussão a decisão do empresário Anton Karl Biedermann de deixar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do Governo do Estado, por considerá-lo “ideologicamente comprometido”.

Não deixa de ser estranho: se Biedermann não compartilha da mesma ideologia do governo Tarso, por que foi convidado para integrar o “ideologicamente comprometido” CDES sem ter de fornecer “atestado ideológico”?  Mais: já que ele discorda do documento enviado aos integrantes do CDES que apresenta Porto Alegre como referência da luta contra o neoliberalismo (afirmação da qual discordo: Porto Alegre foi referência, não é mais), não é melhor participar e apresentar sua opinião?

A Zero Hora, claro, não podia deixar passar… E disse em seu editorial de hoje que foi “oportuno” o alerta de Biedermann, ao mesmo tempo que afirmou esperar dos integrantes do CDES que tenham discernimento para dialogar com o governo e também questionar “propostas anacrônicas”, principalmente as que refletirem “o radicalismo e o atraso denunciados pelo empresário”. (Ficou claro de que lado está a ZH, ou querem que eu desenhe?)

Não existe nenhum discurso que não reflita a maneira como seu autor (pessoa ou instituição) vê o mundo. Até mesmo uma fala considerada neutra, como a da moça da previsão do tempo na televisão: ela costuma definir um dia ensolarado como “tempo bom”, então quer dizer que há também o “ruim”, que obviamente é a chuva. Mas vá dizer isso aos moradores de Bagé, que há meses sofrem racionamento de água devido à estiagem… Para eles, no momento, “tempo bom” é justamente essa chuva que atinge o Rio Grande do Sul, mesmo que insuficiente para recuperar o nível das barragens.

Alguém pode pensar que uma previsão do tempo não é ideológica. Afinal, a palavra “ideologia” é costumeiramente associada à política partidária* e, principalmente, à esquerda (a “ideologia comunista”). Convém então explicar que ideologias são conjuntos de valores que norteiam a visão de mundo das pessoas e também de coletividades (desde um pequeno grupo, até o conjunto da sociedade). Ou seja, têm relação com a política partidária*, mas não se restringem a ela.

Obviamente que elas podem – e devem – ser contestadas. Como o próprio exemplo que citei, da previsão do tempo: dizer que um dia de sol é “tempo bom” (ou seja, aplicar um juízo de valor) é, sim, uma afirmação ideológica, já que reflete uma visão de mundo que valoriza as atividades de lazer ao ar livre, que é diferente do ponto de vista de um agricultor, que precisa de certa quantidade de chuva para não ter prejuízo. O fato de ser “senso comum” definir um dia ensolarado pela expressão “tempo bom” não a torna neutra.

Mas, óbvio, essa é a minha maneira de ver o mundo.

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* Ressalto a expressão “política partidária”, pois a política não se resume apenas a eleições e partidos. Uma simples troca de ideias já é um ato político.

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5 comentários sobre “Não existe discurso sem ideologia

  1. Foi Max Weber quem disse – e não Karl Marx – “Quem se declara neutro já se decidiu, mesmo sem saber, pelo lado mais forte”. Dessa frase do Weber só discordo um tiquinho do “mesmo sem saber”. Quase sempre sabem. Todos temos ‘lado’ e ideologia. O discurso da neutralidade ou apartidarização serve a quem quer esconder a sua ideologia para oprimir/controlar melhor.
    Muito oportuno tocares nesse assunto, Rodrigo.
    Beijo!
    :)

  2. Combater o (neo)liberalismo é ideológico. Mas e defendê-lo?

    “O liberalismo não é religião, nem uma visão de mundo, nem um partido de interesses especiais. Não é religião, porque não exige fé nem devoção, porque não há nada místico nele e porque não professa dogmas. Não é visão de mundo, porque não tenta explicar o cosmo e porque não diz coisa alguma, e não procura dizer coisa alguma sobre o significado e o propósito da existência humana. Não é partido de interesses especial, porque não fornece, nem busca fornecer qualquer vantagem especial a quem quer que seja, indivíduo ou grupo. É algo totalmente diferente! É uma IDEOLOGIA, uma doutrina da relação mútua entre os membros da sociedade e, ao mesmo tempo, aplicação desta doutrina à conduta dos homens numa sociedade real.”

    – Ludwig von Mises, o intelectual liberal mais festejado da atualidade.
    http://blogdomonjn.blogspot.com/2010/07/o-liberalismo-e-uma-ideologia.html

  3. Prática, ponto.
    Os caras querem grana e vão usar os mais variados expedientes de discurso pra derrubar o que se oponha.
    Não precisa fazer análise, é simples assim.

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