Para ser de esquerda, é preciso saber ouvir

A partir daquele texto do Sakamoto, a Cris também escreveu sobre o mesmo assunto (ser de esquerda e ter amigos de direita), apresentando um ponto de vista bastante interessante.

No final, ela disse o seguinte (só discordo do começo do parágrafo, pois não achei o texto inútil):

Enfim, todo esse post meio inútil e sem sentido é pra dizer que a sociedade é plural. Que o conhecimento é múltiplo e que a construção é coletiva. Que a gente ganha muito mais trocando do que impondo. E pra dizer que é por tudo isso que eu sou de esquerda. Parece contradição, né, estou aqui defendendo que temos que ouvir todos os lados, que minha razão não é bem a razão e tal e coisa, mas o simples fato de um cidadão considerar que todos têm contribuições a dar faz dele um defensor da igualdade. Faz dele um cidadão de esquerda.

De fato, o que ela disse parece contraditório, mas não é. Afinal, quem é de esquerda, defende a igualdade. E quando não se dá a determinadas pessoas o direito a opinar, independentemente dos motivos, não há igualdade.

Não por acaso, em seu livro “A Revolução dos Bichos” (que é uma sátira ao stalinismo), George Orwell mostra como o Partido Comunista, que teoricamente deveria promover a igualdade na União Soviética, na prática tornou-se uma nova “aristocracia”. Na fábula de Orwell, os animais de uma fazenda fazem uma revolução e expulsam seu dono (o “tzar”); os porcos, por serem os mais inteligentes (ou seja, o PC, “vanguarda revolucionária”), assumem o comando com o discurso de que todos os animais eram iguais (semelhante ao ideal comunista). Mas o que acaba se vendo na prática é que o “governo suíno” é tão brutal quanto o anterior (ou seja, dos humanos), e os próprios porcos acabam se comportando como os homens. E o principal “mandamento revolucionário”, de que todos os animais eram iguais, é modificado para “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”. Ou seja, valia apenas a opinião dos porcos, que ditavam as regras para os outros bichos.

Logo, ser de esquerda é mais do que discursar em favor da igualdade. É necessário promovê-la na prática – o que vai além de apenas reduzir a desigualdade econômica. E uma das maneiras de fazer isso é respeitando as diversas opiniões – até mesmo de quem não é de esquerda. É preciso saber ouvir (o que reconheço não ser algo fácil, ainda mais quando o que o outro tem a nos dizer pode, de certa forma, ser até ofensivo*).

É essa necessidade de saber ouvir, de conviver com a diferença, que o ex-cosmonauta Sigmund Jähn defende em uma fictícia mensagem aos cidadãos da Alemanha Oriental em outubro de 1990, após assumir a presidência do país. É uma “ficção dentro da ficção”, no caso, do filmaço “Adeus, Lênin!”: o personagem principal procurava evitar que a mãe soubesse da derrocada do chamado “socialismo real”, chegando a produzir noticiários fictícios que passassem a impressão de que acontecia o contrário da realidade. Mas a mensagem (que começa aos 03:14 no vídeo), vamos combinar, é muito válida. (Só um aviso: o “gênio” que fez as legendas trocou RDA por RFA, e vice-versa.)

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* Sou formado em História, e me sinto ofendido quando ouço “inocentes úteis” falando merda com base em mentiras e discursinhos reacionários como os de Jair Bolsonaro.

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5 comentários sobre “Para ser de esquerda, é preciso saber ouvir

  1. Nem tudo o que o “lado de lá” diz é errado. O mais errado é a glorificação e justificação que eles fazem da sociedade injusta que eles desejam manter e eternizar. Quem já leu as obras de Marx sabe que ele faz muitas referências à Adam Smith e David Ricardo, ora reconhecendo seus méritos teóricos, ora criticando suas insuficiências e equívocos.

    O que não podemos confundir é o justo reconhecimento das boas sacadas do “lado de lá” com a conivência com os mesmos. Nós defendemos a transformação social radical e eles a manutenção e o aprofundamento do atual estado de coisas. Neste caso “amigos, amigos… ideologias à parte!”

  2. Perfeito.

    E “Adeus, Lênin” é um dos meus filmes preferidos. Aliás, “Revolução dos Bichos” está entre meus livros… heheh

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