Meia década

É… Lá se vão cinco anos daquela tarde quente. Maluca. Inesquecível.

26 de novembro de 2005. Milhões de gremistas estavam angustiados diante da televisão. Pênalti contra, sete jogadores contra onze do Náutico, que jogava em casa. Levar o gol significava “morte”, não levá-lo apenas adiaria o inevitável. Afinal, como já foi dito, eram sete gremistas contra onze que ainda por cima tinha mais de 20 mil torcedores a seu favor.

Porém, os sete que enfrentavam onze mais 20 e poucos mil torcedores não vestiam uma camisa qualquer. Era a camisa do GRÊMIO. Não iriam perder o jogo. Não poderiam perder daquele jeito.

E não perderam. Não empataram. GANHARAM.

GANHAMOS, todos nós gremistas, uma lição de vida: a prova de que, realmente, nada é impossível.

Um jogo inesquecível que merece, sim, ser lembrado para sempre.

Porém, é preciso fazer uma ressalva. A Batalha dos Aflitos é uma lição de vida para nós torcedores, porque achávamos que estava tudo perdido. Mas não pode, de forma alguma, ser uma lição de futebol. Tanto que “assino embaixo” dos textos escritos pelo Bruno no Grêmio 1903 e pelo Natusch no Carta na Manga (esse, é do ano passado).

Afinal, o Grêmio só precisou disputar aquele jogo por ter sido incompetente um ano antes, ao não conseguir se manter na Série A. Ou seja, mesmo que tenha sido uma lição de vida, certamente todo gremista preferiria jamais tê-lo disputado. E a dramaticidade se deveu a uma série de fatores:

  • O Grêmio deixou de garantir a vaga antecipadamente por conta de dois jogos contra a Portuguesa: em São Paulo, a partida estava ganha, e acabou 1 a 1; no Olímpico, o 2 a 2 teve sabor de vitória, depois de derrota parcial por 2 a 0 no primeiro tempo. Se tivesse vencido apenas um deles, teria ido aos Aflitos já garantido na Série A;
  • Escalona foi corretamente expulso (sim, foi mão na bola e não bola na mão);
  • O árbitro Djalma Beltrami não “roubou” ao dar aquele pênalti inexistente de Nunes (ali foi bola no braço, e não braço na bola), ele “compensou” um erro cometido minutos antes, quando não marcou a penalidade cometida por Galatto sobre o atacante alvi-rubro Miltinho;
  • Com todos os jogadores partindo para cima do árbitro após a marcação do pênalti (como se ele fosse voltar atrás), tivemos sorte dele ter expulsado apenas Patrício, Nunes e Domingos – além de Escalona, que já levara o vermelho: mais um, o jogo acabaria e o Grêmio certamente perderia no STJD;
  • Se dependesse da vontade de muitos dirigentes e torcedores gremistas naquela hora (inclusive a minha), não teria acontecido nada daquilo que nos emociona só de lembrar, pois o Grêmio teria abandonado o jogo para impedir que o pênalti fosse cobrado, o que resultaria em derrota por WO e possivelmente uma punição por parte da CBF, que levaria o Tricolor para a Série C. Temos de agradecer (e muito!) a Renato Moreira, que alertou o presidente Paulo Odone sobre isso.

Sem contar que aquele jogo deixou mal-acostumados muitos gremistas – principalmente os mais novos, que não viram os grandes times do passado – que chegam ao ponto de achar que basta ter garra para conquistar títulos. Ora, se desde 2005 o que o Grêmio ganhou foram apenas três estaduais (2006, 2007 e 2010), é sinal de que não basta garra, é preciso qualidade técnica: pois foi isso que faltou na Libertadores de 2007 (aquele time foi sem dúvida um dos mais raçudos que já vi, mas fraco) e também no Campeonato Brasileiro de 2008.

Mesmo que o Grêmio tenha tradição de jogadores raçudos, não podemos esquecer que a qualidade técnica também teve muita importância nas grandes conquistas do Tricolor. Foram lances de puro talento de Renato Portaluppi que nos levaram ao título mundial de 1983; Dinho, o “cangaceiro gremista” de 1995-1997, sabia desarmar adversários sem fazer falta; se Jardel não sabia jogar com o pé mas fazia muitos gols, isso se devia à grande qualidade dos cruzamentos de Arce, Roger e Paulo Nunes, fundamentais para levantarmos a Libertadores de 1995; na atualidade, como negar a importância de Douglas na reação do Grêmio neste Brasileirão?

E podemos até voltar à Batalha dos Aflitos. Ganhamos o jogo “na raça”, mas também graças ao talento de Anderson – que chamamos de “Andershow” justamente por conta disso.

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5 respostas em “Meia década

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  2. O artigo do camarada está mais lúcido do que o de outros gremistas. Aliás os gremistas que veneram a “Batalha dos Aflitos” não podem reclamar e nem se sentirem ofendidos de serem chamados de Segundinos!
    Se o Inter tivesse que passar pelo sufoco que vocês passaram em um jogo de Série B contra um time mediano eu acharia feio e não bonito! Ora, “jamais nos matarão!”, mas o que há de mais morto do que estar na Série B? Já estavam mortos!

    Mas como eu sempre disse, inclusive para o próprio camarada: o tempo vai passando, a poeira baixando e aos poucos alguns vão percebendo o baita tiro no pé que é ficar celebrando esse jogo. E nisso o artigo do camarada é uma demonstração disso.

    Por fim eu sempre gosto de relembrar da fantástica frase do Citadini para reflexão:
    “Comemorar a ascensão (…) para a primeira divisão é como fazer churrasco quando um primo é solto da cadeia. A gente compra a carne, a cerveja, comemora, mas…dá uma vergonha dizer o motivo da festa”. (Antonio Roque Citadini, ex-dirigente do Corinthians)

    Por outro lado a Inter de Milão, ao que parece perdeu mais um jogador para o Mundial (Júlio César). Já são dois, como o Barcelona de 2006. As coincidências do Mundial de 2006 com o de 2010 começam a se desenhar. Agora falta o Murici ser campeão brasileiro de novo e com um tricolor (como em 2006) e o Grêmio garantir vaga na Libertadores. KKKK

    • “Mas como eu sempre disse, inclusive para o próprio camarada: o tempo vai passando, a poeira baixando e aos poucos alguns vão percebendo o baita tiro no pé que é ficar celebrando esse jogo. E nisso o artigo do camarada é uma demonstração disso.”

      Olha, camarada, não foi isso que eu quis dizer.

      Tanto que disse logo depois do vídeo: foi uma lição de vida para os torcedores, sim. Afinal, quando o Ademar foi cobrar aquele pênalti, eu já estava pronto para ver aquela bola no fundo da rede e consequentemente o Grêmio ficar mais um ano na Série B; mas não foi gol. O que não quer necessariamente dizer que tenha sido uma lição de futebol. Isso, definitivamente, não foi.

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