No que se tornou a Feira do Livro

Termina hoje a 56ª Feira do Livro de Porto Alegre, sem que eu sequer tenha chegado perto da Praça da Alfândega – o que não acontece desde quando eu era criança.

Contribuíram para isso motivos climáticos, financeiros e também “de espaço”. Gosto mais de ir à Feira quando chove, pois assim fica mais fácil caminhar pelos corredores – que ficam abarrotados em dias de sol. E faltou chuva na Feira esse ano. Na última terça-feira choveu (e foi um temporal), mas só à tarde. Mas de qualquer jeito, mesmo que chovesse todos os dias eu provavelmente não iria à Feira, pois com pouco dinheiro, seria difícil não voltar “zerado” (é difícil resistir a livros). E por fim, mesmo com chuva e carteira recheada, também teria o problema sério de falta de espaço para novos livros na minha estante.

Porém, antes desta primavera seca, sem grana e de estante abarrotada, eu já não vinha mais tendo o mesmo entusiasmo que tinha pela Feira do Livro em anos anteriores. A última vez em que realmente percorri os corredores em busca de livros foi em 2007. Eu cursava uma cadeira sobre mídia na faculdade, e teria de ler “Sobre a televisão”, de Pierre Bourdieu. Como havia retirado o livro na biblioteca da UFRGS e percebido o quanto era bom, decidi comprá-lo na Feira. Devo ter procurado em mais de cem bancas… Já estava praticamente decidido a desistir e ir a uma livraria, quando consegui encontrar o livro. No ano seguinte, em busca de outra obra de Bourdieu (“O poder simbólico”), nem perdi tempo procurando na Feira, e fui direto à livraria.

Aí é que está: para concorrerem com a Feira do Livro, várias livrarias de Porto Alegre também oferecem descontos nesta época. Ou seja, pode-se gastar um pouco menos (os livros apenas ficam menos caros), com direito a ar condicionado (num dia como foi a segunda-feira passada, faz diferença) e a achar as obras que têm menor apelo comercial e por isso não vão para a Feira – onde o mais fácil de se encontrar são os best-sellers.

E foi para criticar a atual mercadologização da literatura que a escritora Telma Scherer apresentou a performance artística “Não alimente o escritor” na Feira do Livro, na última sexta-feira. Apresentação que foi encerrada pela Brigada Militar (aliás, quem chamou a Brigada?). Pouco me interessa que Telma não tivesse autorização ou apresentação prevista na programação da Feira, visto que a Constituição Federal, no artigo 5º, inciso IX, estabelece que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”; sem contar que o espaço em que a Feira acontece é público.

E pior é que não se tratou de um fato isolado: no último dia 16 de outubro, uma apresentação de teatro de rua foi interrompida na esquina da Avenida Borges de Medeiros com a Rua dos Andradas – o ponto da cidade que ironicamente é conhecido como “Esquina Democrática”.

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2 comentários sobre “No que se tornou a Feira do Livro

  1. Que absurdo o que ocorreu na Feira do Livro!
    O Marquinho Binatti, o cidadão que no início do vídeo foi “detido”, é um artista popular e músico bem conhecido também.
    Esperemos que depois de uma triste época de DESGOVERNO, onde cultura virou caso de polícia (lembrando que Monica Leal que havia concorrido a senadora como uma especialista em segurança pública foi escolhida como “secretária de Cultura estadual”) isso não aconteça mais no Rio Grande.

  2. SIm, um verdadeiro absurdo. Eu não vi a notícia na imprensa. Mas como é q não tinha nenhum advogado por perto? Quem deu ordens pra prender a moça? Desde qdo temos que acompanhar um policial sem motivo? Qual a acusação? Pq ela não poderia ter se identificado no local mesmo? Pelo que notei, ela entrou sozinha no carro da polícia. Nem morta q eu entrava nem fazia exame nenhum. A truculência foi visível. Se não tivesse ninguém mais ao lado dela, possivelmente seria algemada. Parece que estamos voltando ao passado. A feira já estava até terminando. Não sei pq ela estaria atrapalhando. Algum grandalhão deve ter dado a ordem e depois escondeu a cara. Diga-se de passagem, a ordem para levá-la foi MANIFESTAMENTE ILEGAL. Estamos numa DEMOCRACIA e não num ESTADO DE EXCEÇÃO.
    Constituição da República Federativa do Brasil em vigor:
    Art. 5. inc. LXI – ninguém será preso senão em FLAGRANTE DELITO ou por ORDEM ESCRITA E FUNDAMENTADA DE AUTORIDADE JUDICIAL COMPETENTE e não por ordem de um PM. PM não é autoridade JUDICIAL (só um juiz é autoridade judicial) e não havia ordem escrita. Ele devia saber que estava cumprindo ordem ILEGAL!!! E…Cadê o delito? Infelizmente falta à população, mesmo de classe alta, conhecimento básico da nossa lei maior. Pq os populares não chamaram alguém da organização da feira pra dar uma explicação??? Temos que cobrar isto da imprensa.
    Voltando ao teu texto, todos os livros do PB são ótimos.
    Sempre compro a Constituição do Senado na Feira. É de excelente qualidade e preço bem abaixo do mercado. Sem contar os livros de história maravilhosos. Alguns estão em domínio público mas nem todos. Dá pra pedir pelo correio sem taxa de envio pq o SF é isento. Quem se interessar, consulte o site da livraria do senado.Tb estou com um baita problemão de espaço, mas decidi conseguir alguns caixotes para fazer de estantes. Cabem em qq canto e ficam bem legais.
    Iniciativa muito interessante da livraria do SF foram as sacolas de papelão com alça de corda. Infelizmente os organizadores da feira ainda não fizeram nada qto a isso. Tentarei dar esta sugestão pra eles. Espero que não mandem me prender.

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