Não precisava ser tão sofrido

Na noite de 2 de agosto de 1995, milhões de gremistas – eu incluído, é óbvio – passaram por um dos momentos mais angustiantes e dramáticos de suas vidas. O Grêmio disputava com o Palmeiras uma vaga na semifinal da Libertadores, com ampla vantagem (5 a 0) construída uma semana antes no Estádio Olímpico. O Tricolor poderia perder por até quatro gols de diferença, em um jogo para o qual foi criado um clima de guerra. E foi exatamente o que aconteceu: 5 a 1 para o Palmeiras. Nos últimos minutos, lembro que dava vontade de desligar a televisão, mas ao mesmo tempo temia ouvir foguetes e não saber de quem eram, então resisti até o aliviante apito final.

Por que relembrei aquela noite tão angustiante para os gremistas? Pois percebo estar acontecendo algo muito semelhante com a eleição presidencial brasileira. Só espero que não ocorra agora o que por pouco não se deu em 1995.

Durante boa parte da campanha eleitoral do primeiro turno, as pesquisas apontavam uma ampla vantagem de Dilma Rousseff, que tinha tudo para ganhar já em 3 de outubro, sem necessidade de segundo turno. A vantagem inicial, os “5 a 0”, era a alta popularidade do presidente Lula. E a subida nas pesquisas, uma situação semelhante à que vivia o Grêmio aos 8 minutos de jogo naquele 2 de agosto de 1995: o Tricolor fazia 1 a 0, que somado ao resultado da semana anterior dava 6 a 0. Impossível perder a classificação. Impossível?

Lembro bem que o Grêmio sofreu dois gols no primeiro tempo no Palestra Itália, mas a situação ainda era bem confortável. Quando sofreu o terceiro, pensei que iria tentar marcar logo um segundo gol no jogo, para liquidar a fatura – e não era algo muito arriscado, já que o Palmeiras precisava ainda mais ir para cima e consequentemente abriria espaços na defesa. Mas o Tricolor recuou demais, chamando o adversário ao ataque, e levou mais dois.

E é exatamente o mesmo que está fazendo a campanha de Dilma – que tinha uma enorme vantagem e permitiu que ela fosse diminuída. Diante da ofensiva tucana, ao invés de responder como se deveria – ou seja, comparando os governos FHC e Lula e alertando que votar em Serra significa defender o retorno àqueles tempos ruins – o PT se limita a fazer inserçõezinhas chamando o candidato do PSDB de “Zé Promessa” e a dizer que Dilma não pretende legalizar o aborto (questão que não cabe ao presidente, e sim ao Congresso). E de nada adianta acharem que basta os blogueiros fazerem campanha para Dilma: a cada vez que eu desminto uma “corrente” direitosca, outra invade as caixas de e-mails de muita gente, e fica cada vez mais difícil detonar todos os boatos. A campanha oficial foi criar uma “central anti-boataria” só depois de ter deixado a eleição ir para o segundo turno.

No momento, a vantagem ainda é de Dilma. Ou “marca logo o gol” e define a disputa, ou teremos de comemorar caso tenhamos um final semelhante ao daquela quarta-de-final da Libertadores de 1995. Numa eleição que, assim como aquele jogo, não precisava ser tão sofrida.

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Como comparei Dilma com o Grêmio, obviamente a comparação de Serra é com o Palmeiras (que coincidentemente, é o time dele). Aproveito para pedir desculpas aos palmeirenses eleitores de Dilma, pois como gremista que sou, a primeira lembrança que me veio para comparar com esta eleição foi aquele jogo dramático.

Já aos gremistas que votam em Serra não peço desculpas, e sim, que mudem o voto

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8 comentários sobre “Não precisava ser tão sofrido

  1. Interessante a relação que fez do jogo com as eleições, apesar de achar que a campanha da Dilma não está tão ameaçada assim (Mas a vaga do Grêmio também não estava, certo? rs)… Também não acho que o PT esteja recuando e não acho que esteja simplesmente fazendo “inserçõezinhas chamando o candidato do PSDB de “Zé Promessa” e a dizer que Dilma não pretende legalizar o aborto”. Vi e vejo sempre no horário eleitoral campanhas que forçam essa comparação de FHC/Serra com Lula/Dilma. A questão do aborto é interessante, e ficou meio contraditório, já que o PT se posicionou a favor do aborto, e a candidata agora que ir contra… A verdade é que ninguém deveria se posicionar neste caso, é uma questão polêmica, e como tal, deve ser relevada. Enfim, nem muito ligado à política eu sou, e penso que nenhum dos dois candidatos que foram ao 2º turno é o ideal para o Brasil. Mas essa lembrança do jogo do Grêmio realmente deu um toque especial ao texto, parabéns!
    Aproveitando, deixo link para o blog que criei recentemente para falar sobre a Eurocopa 2012. Postei ‘cruzadinhas’ especificamente sobre a competição hoje… espero que goste!
    http://eurokopa.wordpress.com

  2. !No pasarán!

    Feliz Aniversário! Que sigas uivando pelos próximos 29 anos.

  3. Deverei entregar, daqui a duas semanas, um trabalho de política comparada para a cadeira de mesmo nome, onde farei uma comparação das gestões Lula e FHC. Por último estou quase encerrando uma pesquisa aprofundada de política externa de ambos. Os resultados são surpreendentes tanto para os governistas que difundem que a política externa de Lula é “inovadora” e “progressista”, quanto para os direitoscos que acham que o Serra deixaria de fazer acordos comerciais com a Venezuela e o Irã. KKK

    Assim que tiver tudo pronto disponibilizo aos amigos!

  4. Oi Rodrigo, muito bom texto, aqui no Maranhão a Dilma ganhou disparado do Serra!!!!
    Cara tu não sabe onde posso comprar alguma camisa Tricolor do Gremio de 2003(Ano do Centenário) em bom estado por essas bandas aí???

  5. Pingback: Estamos nos acréscimos « Cão Uivador

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