Aborto é questão de saúde pública, não religiosa

Está lá, na Constituição Federal de 1988: a República Federativa do Brasil é um Estado laico. Ou seja, não tem religião oficial. As pessoas podem ter a fé que bem entenderem, e até mesmo não ter nenhuma. Mas não se pode dar preferência a qualquer uma que seja, por motivos religiosos.

Porém, o debate sobre a legalização do aborto no Brasil se dá como se nosso país não fosse laico. Não há nenhum avanço em direção à garantia deste direito para as mulheres devido à força dos religiosos, tanto no Congresso Nacional (afinal, é dele o poder de legalizar ou não o aborto) como fora dele. Graças a panfletos mentirosos dizendo que Dilma Rousseff iria legalizar o aborto – e também à própria incompetência da campanha petista, que não soube responder às mentiras, mesmo contando com depoimento de pastores evangélicos em apoio a Dilma – que a eleição foi para o segundo turno, dando novo fôlego à campanha de Serra. Aliás, interessante é que Serra declarou-se contra o aborto, depois de já ter sido favorável a ele. Tudo para ganhar votos…

O aborto tem de ser legalizado por uma questão de saúde pública. Não se pode, só porque certas religiões são contrárias, negar um direito para as mulheres que não pertencem a tais credos. Quem acha que o aborto é pecado, que não o faça (afinal, “legalizar” não quer dizer “tornar obrigatório”). Mas deixe quem não acha isso errado abortar de forma segura.

Uma amostra do que passam as mulheres que desejam interromper uma gravidez indesejada onde o aborto é considerado ilegal nos é dada pelo filme romeno “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” (2007), de Cristian Mungiu. A história se passa em 1987, dois anos antes da derrubada da ditadura de Nicolae Ceausescu. O megalômano ditador queria governar uma grande população, e por conta disso o aborto foi proibido na Romênia. Tal medida resultou em um grande número de crianças deixadas em orfanatos, e muitas foram parar nas ruas das cidades romenas.

Anúncios

6 respostas em “Aborto é questão de saúde pública, não religiosa

  1. Em época de eleições, tudo pode acontecer, se bem que a candidata Dilma disse a mesma coisa que o Plínio na campanha. Eles não são a favor do aborto, mas é questão de saúde pública, ou seja, como deixar que mulheres pobres fiquem à mercê de clínicas clandestinas? As mais abastadas procuram bons médicos e continuam com sua fé inabalável. Não seria contraditório ou é mesmo hipocrisia?
    Eu, como advogada, nunca entendi pq ainda mantemos em nosso preâmbulo as palavras “sob a proteção de Deus”. Quem redige o texto (várias mãos) aproveita para colocar suas crenças no documento que regerá uma nação inteira.
    Interessante ler a análise abaixo, onde são abordados vários aspectos deste tema:
    http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=8519

  2. Dando uma amostra do caráter de muitos direitosos, um deles veio aqui defender o besteirol de que “aborto é assassinato”, e ainda postando como anônimo. Obviamente não liberei os três comentários da figura: até parece que não há blogs direitosos (como o daquele carinha da Veja) para ele deixar seus bostejos…

  3. Pingback: Avalanche direitosa « Cão Uivador

  4. saúde pública? faça-me o favor…
    exterminar os cachorros sarnentos e raivosos das ruas, isso sim seria saúde pública, mas certamente, os que querem o extermínio de nascituros iriam defender o cães…
    Onde iremos parar com esse discurso simplista? Hoje matamos fetos, amanhã viciados em crack, depois mendigos, soropositivo, deficientes… não seria saúde pública exterminá-los? todo estes vão morrer um dia mesmo! Que coisa nojenta essa aplicação de “saúde pública”!
    porque estas brilhantes cabeças não pensam formas reais de auxiliar as mulheres a não engravidarem indesejadamente? Possibilitar que mulheres possam fazer ligadura de trompas temporariamente, por exemplo, ao invés de assassinar inocentes com o viés higienista.

    • “Viés higienista”? Faça-me o favor…

      Uma coisa é assassinar pessoas, outra bem diferente é interromper uma gravidez em seu princípio (esse papo de que “a vida começa na concepção” é muito “cristão” para que eu leve a sério).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s