A Copa e a política no Brasil (parte 3)

Clique e confira a segunda parte, caso ainda não a tenha lido.

Acharam que só porque a Copa acabou, eu não ia continuar com a série? Como eu poderia acabá-la sem falar da época da ditadura, quando o governo mais se utilizou do futebol para obter dividendos políticos?

Desta vez, o texto – longo, por sinal – não se restringe apenas às Copas, mas trata bastante justamente da influência política sobre a Seleção Brasileira na época.

Em 1º de abril de 1964, o presidente João Goulart foi deposto por um golpe militar, que suspendeu parcialmente a normalidade democrática no Brasil – e mesmo totalmente, como no período de vigência do Ato Institucional nº 5 (1968-1978), que “legalizava” o poder ditatorial do presidente da República. Prisões por motivos políticos tornaram-se corriqueiras, assim como a censura à imprensa.

Dois anos após o golpe, a Seleção Brasileira disputou a Copa do Mundo na Inglaterra, em busca do tricampeonato. E para a ditadura, a vitória do Brasil na Copa era algo muito interessante, afinal, serviria como fator de “união nacional” em um momento em que as oposições se fortaleciam.

Porém, após uma preparação desastrosa, a Seleção treinada por Vicente Feola (o mesmo técnico campeão de 1958) acabou eliminada na primeira fase da Copa do Mundo: venceu a Bulgária por 2 a 0 na estreia, mas depois levou 3 a 1 de Hungria e Portugal. O governo militar chegou a falar em criação de uma CPI para investigar o fracasso do Brasil na Copa, mas foi demovido da pretensão assim que a situação se acalmou.

O presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange, decidiu mudar a estrutura da Seleção, criando a Comissão Selecionadora Nacional (COSENA), claramente inspirada no modelo militar que caracterizava a própria política nacional na época. Os maus resultados continuaram, com direito a uma derrota para o México em pleno Maracanã, no final de 1968 – mesma época em que a ditadura se “institucionalizava”, com o governo militar reagindo aos protestos que marcaram aquele ano no Brasil (e em todo o mundo) com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que ampliou a repressão.

No futebol, a “reação” consistiu na dissolução da COSENA e na tentativa por Havelange de acertar a Seleção Brasileira a qualquer custo: assim, a CBD decidiu contratar João Saldanha para ser o novo técnico. Saldanha era um jornalista de opiniões polêmicas e, acima de tudo, tinha ligações com o clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB), ou seja, era “contrário aos valores revolucionários”. Mas tudo isso foi esquecido até mesmo pelos mais reacionários devido aos resultados obtidos pelo Brasil nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1970: a Seleção se classificou com muita facilidade, vencendo todos os jogos, e o time ficou conhecido como “as feras do Saldanha”.

Ironicamente, foi sob o comando do comunista Saldanha que as relações entre Seleção e ditadura se tornaram ainda mais estreitas. Em 30 de outubro de 1969, o general Emílio Garrastazu Médici assumiu a presidência da República. Fanático por futebol, costumava ir a estádios com muita frequência, o que contribuiu para aumentar sua popularidade. Durante seu período de governo (até 15 de março de 1974) o Brasil viveu provavelmente seus piores tempos em termos de liberdade, com a intensificação da repressão, da tortura e dos desaparecimentos forçados.

No início de 1970, a Seleção viveu um mau momento, perdendo amistosos na preparação para a Copa do México (um deles, 2 a 0 para a Argentina – que ficou fora daquele Mundial – no Beira-Rio). O temperamento de Saldanha contribuia para conturbar o ambiente: o técnico chegou a dizer, por exemplo, que Pelé teria “problemas de visão”. A polêmica com Médici foi apenas “a gota d’água”: o ditador não escondia sua admiração tanto pelo artilheiro Dario, do Atlético-MG, como também pelo esquema de jogo adotado por Saldanha. Mas a resposta do técnico aos jornalistas que falaram sobre a opinião de Médici sobre Dario – “o presidente escala o ministério dele, que eu escalo o meu time” – foi o pretexto para sua substituição por Mário Zagallo.

Não se sabe ao certo se Médici estava tão empenhado na escalação de um jogador específico, em um momento em que os desafios governamentais eram tão grandes. Certo, sim, é que a figura de Saldanha era considerada muito inconveniente pelo seu destempero e por sua pretensa independência política. Temia-se que o treinador chegasse ao México com uma lista de presos políticos no bolso, e, em entrevista coletiva, diante de microfones e câmeras do mundo todo, denunciasse o desrespeito aos direitos humanos que vinha ocorrendo no Brasil. (AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional. Rio de Janeiro: Mauad/FAPERJ, 2002, p. 160)

A ditadura via a conquista do título como fundamental para legitimar-se ainda mais diante da sociedade. O que resultou na militarização da comissão técnica da Seleção, principalmente a preparação física, considerada uma das causas do fracasso de 1966 – e a perspectiva de jogos na altitude durante a Copa só contribuiu para “dar mais razão” ao que acontecia. A Seleção seria composta por “atletas-soldado”: grande preparo físico e rígida disciplina (o que não diferia do tratamento dado aos cidadãos brasileiros submetidos à ditadura).

Uma grande ironia foi que esta Seleção Brasileira de “atletas-soldado” acabou marcando época por ser considerada um exemplo do chamado “futebol-arte”, encantando o mundo com o futebol apresentado por craques como Clodoaldo, Jairzinho, Rivellino, Tostão e Pelé. Mas o preparo físico também prevaleceu: a Seleção venceu os seis jogos na Copa marcando a maioria dos gols quase sempre no segundo tempo. A cada vitória do Brasil no Mundial, Médici fazia questão de aparecer na televisão demonstrando “sua paixão” pela Seleção – e consequentemente, “pelo Brasil”. E quando do retorno do time campeão, Médici – e vários políticos governistas – quiseram posar para fotos ao lado dos craques.

A conquista da Copa no México serviu para alimentar ainda mais a campanha ufanista da ditadura. A marchinha “Pra frente, Brasil”, de apoio à Seleção, tornou-se uma “canção patriótica”. E na mesma época, o governo criou diversos slogans nacionalistas, do tipo “Ninguém segura esse país” e “Brasil: ame-o ou deixe-o” (em que “amar o Brasil” também era entendido como “apoiar o regime”). A Seleção Brasileira, mais do que uma equipe de futebol que representava o país, passou a ser usada pela ditadura como símbolo das realizações e do “Brasil forte e unido” que os militares propagandeavam. Em novembro de 1970, as eleições (que eram só parlamentares, para darem ao Brasil a aparência de uma democracia – mesmo que só aparência) foram vencidas de forma esmagadora pelo partido do governo, na carona da grande popularidade advinda da associação entre política e futebol.

“Símbolo das realizações do Brasil”: lembra um pouco o que se queria mostrar com a Copa de 1950, né? Pois foi algo semelhante que se preparou para junho e julho de 1972: a Taça Independência, também conhecida como “Minicopa”, torneio comemorativo aos 150 anos da independência do Brasil. Interessava à ditadura mostrar ao mundo “um país que progredia”, simbolizado pelos vários estádios que eram inaugurados pelo Brasil – quando Médici não podia estar presente, autoridades governamentais sempre compareciam.

As principais forças do futebol europeu – Alemanha Ocidental, Inglaterra e Itália – não quiseram participar da “Minicopa”, alegando que a competição tinha propósitos mais políticos que esportivos. Que iam muito além de “promover a imagem do Brasil”: João Havelange, presidente da CBD, não media esforços para obter votos na eleição para a presidência da FIFA, que aconteceria dois anos depois, chegando ao ponto de pagar 25 mil dólares (mais do que a Seleção Brasileira cobrava para jogar um amistoso na Europa) pela participação da Venezuela (historicamente, uma das seleções mais fracas da América do Sul) na “Minicopa”.

A convocação da Seleção Brasileira para o torneio provocou uma “dor de cabeça” para a CBD e o regime militar. Ao deixar Everaldo, lateral-esquerdo do Grêmio e titular do Brasil na Copa de 1970, de fora do grupo que disputaria a “Minicopa”, Zagallo despertou a ira de jornalistas e torcedores gaúchos, que viram a “desconvocação” como um “desprestígio” ao Rio Grande do Sul. O colunista Antônio Carlos Porto, da Folha Esportiva, propôs um boicote aos jogos da “Minicopa” em Porto Alegre, ideia que ganhou força, e em resposta Havelange disse que os gaúchos não tinham “sentimento de brasilidade”, acirrando ainda mais os ânimos: os mesmos colunistas passaram a tratar o dirigente por seu nome de batismo, “Jean Marie” (Havelange é de origem belga, apesar de nascido no Brasil), de modo a dizer que ele era o “estrangeiro”.

Era previsto para o dia 17 de junho um amistoso da Seleção em Porto Alegre, como preparação para a “Minicopa”. Mas as circunstâncias levaram a FGF a propor que o adversário da Seleção fosse um combinado de jogadores de Grêmio e Inter (“Seleção Gaúcha”), ideia aceita pela CBD. A partida foi realizada no Beira-Rio, que reuniu o maior público de sua história para assistir ao empate em 3 a 3.

Faixa levada por torcedores ao jogo "Seleção Gaúcha" x Seleção Brasileira, em 17/06/1972

A Seleção Brasileira foi intensamente vaiada pelo público. Mas com um detalhe interessante: muitos dos presentes ao estádio não estavam “nem aí” para Everaldo. Um exemplo é o meu pai, colorado, que dirigia suas vaias não à Seleção em si, mas sim ao que ela simbolizava: o Brasil “de fantasia” da ditadura militar. Que a propaganda oficial pintava como “forte, feliz e unido”. Mas que a realidade mostrava ser bem diferente: muitos não estavam felizes com a situação, ainda mais no Rio Grande do Sul, que, apesar de ser o Estado natal de muitos membros do governo (inclusive o próprio Emílio Médici), não era o mais favorecido pelas políticas de Estado da ditadura, sendo relegado à condição de produtor de grãos para exportação. A única maneira de se protestar contra isso era no futebol, que servia de “válvula de escape” para ressentimentos quanto a questões que iam muito além da escalação da Seleçao Brasileira: “O Rio Grande, ao qual se negara o pertencer a essa pátria vencedora, ia, uma vez mais, para a guerra contra a corte, ali no terreno em que melhor se consolidava a imagem da nação” (GUAZZELLI, Cesar Augusto Barcellos. 500 anos de Brasil, 100 anos de futebol gaúcho: a construção da “província de chuteiras”. In: Anos 90. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000, n. 13, p. 48).

Claro que a realização da partida não significou grande coisa em termos de escalação da Seleção: Zagallo não mudou sua lista de convocados após o jogo. O Brasil conquistou a Taça Independência vencendo Portugal na decisão por 1 a 0, e aos poucos foi montando o time que disputaria a Copa do Mundo de 1974 – que contou com dois “gaúchos”, os colorados Carpeggiani e Valdomiro (que é catarinense).

Mas, Zagallo não achava que deveria se preocupar com a Holanda de Cruijff & cia. E por isso, o Brasil perdeu por 2 a 0 e teve de se contentar com o 4º lugar (após perder o bronze para a Polônia do artilheiro Lato, autor do único gol do jogo que valia o 3º lugar).

(Continua)

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8 comentários sobre “A Copa e a política no Brasil (parte 3)

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  5. E foi agora, relendo o texto já postado, que lembrei de um fato importante: “Jean Marie” conseguiu ser eleito presidente da FIFA em 1974…

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  7. Apenas para complementar… Na época as vilas de Porto Alegre e as cidades vizinha eram redutos de oposição (PTB, Brizola), um dos poucos do Brasil. Me elmbro deste dia. Não entrou mais gente no estádio pq não dava e no Jornal Naciona, Cid Moreira acusa os gaúchos de vaiarem a seleção brasileira, com direito a opinião de tipos populares e et cetera. Também é verdade que o Médici torcia para o Grêmio, e a diretoria mantinha uma revista que, orgulhosa, colocava na capa: Grêmio, O Time do Presidente. Ai meu grêmio, que esta indo rumo ao bi da segundona.

  8. Esta série sobre a copa não deve terminar nunca, ou então só terminar qdo abrirem todos os arquivos e punirem todos os criminosos torturadores. Muitos ainda estão por aí, recebendo aposentadorias e recompensas pelos trabalhos prestados à nação. E a gente pagando imposto para sustentar essa máfia!!!
    Mete bronca, meu caro. Radicalismo é o que eles faziam nas sessões de interrogatório.

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