Final monárquica

Domingo, o seleto clube das seleções campeãs mundiais ganhará um novo integrante. Mas a decisão entre Holanda e Espanha também tem outro fato curioso a ser destacado: ambos os países são Estados monárquicos.

A última monarquia campeã mundial foi a Inglaterra, em 1966. E a última (e única, até agora) vez em que duas monarquias decidiram a Copa do Mundo foi em 1938: o título ficou com a Itália (campeã também em 1934), que tinha Benito Mussolini como seu primeiro-ministro, mas o Chefe de Estado era o rei Vítor Emanuel III, que reinou até 9 de maio de 1946, pouco antes da proclamação da República Italiana; já o vice-campeonato ficou com a Hungria, também monárquica na época, embora o Chefe de Estado não fosse propriamente um rei, e sim um regente eleito, Miklós Horthy, que colaborou com o nazismo e “reinou” até 1944, quando abdicou defendendo um armistício com a União Soviética.

A Hungria de 1938 não foi a única monarquia vice-campeã mundial. Também “bateram na trave” a Suécia em 1958, e a própria Holanda, em 1974 e 1978.

Como se vê, a maioria esmagadora das Copas teve como campeãs e também vices seleções representantes de países republicanos. Alguns, apenas nominalmente: duas vezes, países sob ditaduras militares ganharam a taça – o Brasil em 1970, e a Argentina em 1978 (jogando em casa).

Já os países “socialistas” (acho mais adequado o termo “burocráticos de partido único”) chegaram duas vezes ao vice-campeonato: a fantástica Hungria de Ferenc Puskás em 1954, e a Tchecoslováquia em 1962 (inclusive, se diz que a liberação de Garrincha para jogar a final mesmo tendo sido expulso na semifinal contra o Chile se deveria ao temor de que uma seleção do “bloco soviético” ganhasse a Copa).

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Outra curiosidade desta “final monárquica” é que ela também é a segunda consecutiva entre seleções europeias, o que não acontecia desde 1934 (Itália x Tchecoslováquia) e 1938 (Itália x Hungria).

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10 comentários sobre “Final monárquica

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  2. Uai, mas no tri a gente não era uma monarquia também? O rei do futebol jogava no Brasil.

    Li em algum lugar, acho que na biografia do Garrincha (Ruy Castro), que a liberação do Mané para a final no Chile teria sido uma espécie de retribuição da FIFA, pela realização da Copa de 50. Exaurida financeiramente pela guerra, a Associação não teria condições de realizar a Copa. Aí o Brasil bancou. Si non é vero…

    Vou torcer pra Holanda porque eles têm carecas no time. Somos discriminados e temos que nos unir nessas horas. Ah, e tb porque os holandeses são abertos com relação a certos hábitos fumacentos que cultivo…

    Mas deixemos que o Paul-vo decida.

  3. Não sabia dessas curiosidades que você posta, são bem interessantes. Será que nas monarquias o papel do futebol como circo funciona como nas ditaduras – e mesmo em algumas repúblicas ditas democráticas -?

    • É bem provável que seja assim, principalmente naquelas mais autoritárias como a Arábia Saudita.

      Aliás, na Espanha de Franco (que se comprometeu a devolver o poder à família real depois que morresse – democrático o cara, né?), a rivalidade entre Real Madrid e Barcelona se fortaleceu nessa época: a ditadura usava o supertime do Real na década de 50 como instrumento de propaganda do regime e símbolo da “Espanha unida”, e o Barça representava a resistência dos catalães ao centralismo da ditadura.

  4. Cão Uivador é cultura!

    Mas as duas finais européias de 1934 e 38 tinham um fator diferente do atual. Naquela época as seleções não viajavam para copas em outros continentes. Era muito caro e as confederações não eram ricas como hoje.

    O Uruguai, o melhor time da época, não foi para as duas copas, por isso ficou mais fácil para a Itália. E ela também não tinha vindo aqui no Prata em 1930.

    • Boa observação, André. Eu não tinha reparado nisso.

      Em 1930, a Europa só teve Bélgica, França, Iugoslávia e Romênia como suas representantes. E em 1938, o Brasil foi a única seleção sul-americana. Como na época as viagens eram de navio e levavam semanas, e muitos jogadores eram amadores e não podiam se ausentar por muito tempo de seus empregos, em cada Copa do Mundo predominavam os países do continente em que ela era disputada.

  5. A Hungria de 54 também foi prejudicada pela arbitragem na final ao ter um gol legítimo do craque Puskas anulado por um árbitro inglês!

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