A Copa e a política no Brasil (parte 1)

1930 foi um ano muito importante, tanto no futebol como na política brasileira. No primeiro caso, devido à realização da primeira Copa do Mundo, de 13 a 30 de julho em Montevidéu, no Uruguai (todos os estádios utilizados ficavam na capital uruguaia). Já na política do Brasil, foi bem mais conturbado.

Em 1º de março de 1930, houve eleição presidencial. A disputa era entre o paulista Júlio Prestes, representante das oligarquias de São Paulo; e o gaúcho Getúlio Vargas, que concorria em nome de “todos os outros” (mas não podemos esquecer da posição do Rio Grande do Sul na economia nacional: era o terceiro Estado mais importante), e contava com o apoio de Minas Gerais devido à ruptura por parte dos paulistas do acordo entre as oligarquias dos dois Estados (a chamada “política do café-com-leite”, em que presidentes paulistas e mineiros se revezavam no poder).

O Brasil de então não tinha nenhum partido político de caráter nacional (exceto o Comunista, clandestino): os principais eram estaduais, como o PRP (Partido Republicano Paulista), o PRM (Partido Republicano Mineiro) e o PRR (Partido Republicano Riograndense), o que favorecia a que os candidatos se vinculassem mais a oligarquias regionais do que a projetos políticos.

Oficialmente, Júlio Prestes ganhou a eleição. Mas Getúlio Vargas também afirmava ter vencido: na época, as fraudes eram corriqueiras. De qualquer forma, não demorou muito a aceitar o resultado.

Em julho, dois fatos importantes: um simbólico, e outro político – que acabou definindo os rumos do país.

O primeiro, foi a participação brasileira na Copa do Mundo. A Seleção que foi ao Uruguai, na prática, era do Rio de Janeiro: devido a desavenças entre a CBD, comandada por cariocas, e a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), os paulistas decidiram boicotar o time: exceto Arakem Patusca, do Santos, todos os outros jogadores eram do Rio de Janeiro (Patusca, brigado com seu clube, embarcou no navio que levava a Seleção ao Uruguai quando este aportou em Santos). O Brasil foi eliminado na primeira fase: perdeu por 2 a 1 para a Iugoslávia (que garantiu a vaga na semifinal ao golear a Bolívia por 4 a 0) e despediu-se também goleando os bolivianos por 4 a 0. Festa em São Paulo, devido ao “fracasso da organização carioca”, e acusações mútuas entre paulistas e cariocas de “traição à pátria”.

A Copa ainda não havia terminado quando outro acontecimento teve ainda mais repercussão na vida nacional. João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, governador da Paraíba e candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas que perdera a eleição presidencial em março, foi assassinado no dia 26 de julho, quando estava em Recife. O crime, embora não haja provas de que tenha sido “político”, serviu de motivação para a chamada Revolução de 1930, que a 24 de outubro derrubou Washington Luís, impediu a posse de Júlio Prestes e instalou Getúlio Vargas no governo.

A Revolução de 1930 teve caráter meramente político, sem alterar a ordem social brasileira. Inclusive há quem considere inapropriado utilizar o termo “revolução”. Acho que podemos utilizá-lo, mas, claro, fazendo a ressalva de que foi apenas uma revolução política.

O futebol foi afetado pela Revolução de 1930. Getúlio Vargas percebeu a popularidade do esporte, e como isso poderia beneficiar tanto o seu “projeto nacional” para o Brasil como a si próprio.

Vargas procurou “pacificar” as relações futebolísticas entre paulistas e cariocas, idealizando em 1933 o Torneio Rio-São Paulo (que passaria a ser disputado com regularidade em 1950). Aliás, era do interesse de Vargas agradar aos paulistas após a revolta de 1932, que ficou conhecida como Revolução Constitucionalista: embora derrotados militarmente, politicamente podemos dizer que a vitória foi paulista, já que o governo convocou uma Assembleia Nacional Constituinte.

O governo de Getúlio Vargas também promoveu a profissionalização do futebol no Brasil (acabando com o “profissionalismo marrom” que imperava até então), e procurou principalmente vincular a imagem do presidente à da Seleção Brasileira, que já começava a ser vista como “símbolo nacional”.

Em 1938, a ideia de que a o futebol representava a “criatividade do brasileiro” já fazia parte da propaganda do governo – ditatorial desde novembro de 1937, com a proclamação do Estado Novo. A presença de negros na Seleção era exaltada como símbolo da “democracia racial” – tese defendida por Gilberto Freyre – e a mestiçagem, antes desprezada, tornava-se símbolo de identidade nacional. Era preciso que a equipe que representaria o Brasil na França realmente fosse representativa da população desta “nação brasileira” em formação.

Houve um grande empenho governamental em torno da Seleção que disputaria a Copa de 1938, no sentido de justamente associar a imagem do time à de Vargas. Mas, acima de tudo, era preciso que a Seleção promovesse uma visão positiva do Brasil no exterior, a fim de apagar as impressões deixadas em 1934 (quando a participação brasileira na Copa se resumiu a 90 minutos, derrota de 3 a 1 para a Espanha) e, principalmente, contribuir para o aumento da popularidade do regime varguista. E de fato, foi o que aconteceu, mesmo sem conquistar o título: a derrota para a Itália na semifinal foi atribuída a “roubo”, o que causou um clima de comoção nacional.

Se o esporte já era encarado como símbolo da nacionalidade e também de civilização, organizar um grande evento esportivo era visto de igual forma. No caso do Brasil, a oportunidade que se apresentava era a Copa do Mundo de 1942, que o país fora escolhido para sediar. Porém, a Segunda Guerra Mundial mudou os planos, e a Copa ficou para 1950.

(Continua)

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6 comentários sobre “A Copa e a política no Brasil (parte 1)

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    • Logo pretendo postar a continuação – ainda mais que vamos acabar entrando no tema do meu TCC (apesar dele não ser exatamente sobre a Copa do Mundo). ;)

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  4. Ola amigo, estou pesquisando o evento politico e social da época que antecede até o momento da copa de 50, para um projeto audiovisual. Vamos trocar algumas ideias. O que acha? Abraços Felipe

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