Não devemos deixar os sonhos de lado

Semana passada, assisti ao excelente documentário Utopia e Barbárie, de Sílvio Tendler. O filme tem como tema o mundo e, principalmente, o Brasil pós-Segunda Guerra Mundial. Fala sobre os sonhos que tinham muitas pessoas, as utopias que guiavam suas vidas, e também sobre as frustrações, que não foram poucas.

Nem vou me estender demais falando simplesmente sobre o documentário (a Cris e a Camila já fizeram isso muito bem), apenas recomendo a todos que o assistam.

Sinceramente, o que seria de nossas vidas se não pudéssemos sonhar? Temos os sonhos pessoais, que variam de pessoa a pessoa, mas dá para dizer que para a maioria, correspondem a um trabalho bacana, o “amor da vida”, filhos etc.

Em geral, acreditamos que basta realizarmos os nossos sonhos pessoais e assim “encontraremos a felicidade”. Será? É possível ser uma “ilha de felicidade” no meio de muitas pessoas infelizes, sem que a maioria acabe por puxar os poucos felizes para baixo? Não seria melhor que fossem todos mais felizes?

Mas a maioria embarca nessa canoa furada. Parece que é proibido desejar um mundo mais justo e, consequentemente, mais feliz. Isso é “perda de tempo”, ainda mais em uma época em que as pessoas vivem correndo. É preciso ter pressa em tudo: para passar no vestibular (no curso que mais agrade, desde que o “agrado” seja igual a “dinheiro”), arranjar um emprego (afinal, “o trabalho dignifica o homem”), comprar um carro (mesmo que não se precise de um), namorar (quando mal se conhece a pessoa), noivar (sem ter muito tempo de namoro), casar (imaginem só que horror, os amigos casando e eu não, sou um fracassado!) e ter filhos (quando mal se tem tempo de brincar com eles).

Já a única urgência que eu enxergo é a de se voltar a ter utopias. Deveríamos ter pressa para resolver os problemas do mundo, e não para adquirirmos bens de consumo.

Algum conformista poderá dizer que o comunismo, utopia que guiou os sonhos de muitos, resultou em muitas mortes. Não é verdade. O comunismo jamais chegou a ser implantado, o que existiam eram países onde o poder estava nas mãos do Partido Comunista, mas onde o Estado era autoritário e burocrático, pois a ideia de “mundo melhor” de uma vanguarda (e por que não dizer “elite política”?) foi imposta a todos, com pouca discussão, sem a participação do povo. Mesmo assim, por ser “o socialismo que existia”, era ingenuamente exaltado pelos que sonhavam com um mundo mais justo, sem um olhar mais crítico. E assim, muitos comunistas acabavam apoiando – mesmo que involuntariamente – situações que eram contrárias ao que realmente acreditavam, e que jamais defenderiam se conscientes disso. Como mostra o filme: a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, exaltada por intelectuais de esquerda no Ocidente que jamais tinham ido à China, foi uma verdadeira tragédia para milhões de chineses. Onde se pensava estar em construção uma nova sociedade, mais feliz e justa, na verdade encontrava-se muito medo e injustiça. E a fraternidade entre os povos, tão sonhada, era impedida pelo Muro de Berlim.

Em 1989, parecia que as utopias estavam sepultadas, com o “fim da História” e a “vitória irreversível” do capitalismo. As pseudo-revoluções que varreram o Leste da Europa naquele ano obviamente respingaram no Brasil, que elegia diretamente o presidente depois de 29 anos: Fernando Collor de Mello, utilizando-se do “anti-comunismo” e do apoio da Globo, derrotou Luís Inácio Lula da Silva, o candidato da “bandeira vermelha”. O medo vencia a esperança. Anos depois, Lula ganhou, mas não era mais aquele de 1989; e o PT, que parecia representar os sonhos de um Brasil mais justo, caiu na “vala comum” dos partidos tradicionais.

Mesmo assim, ficou claro que a História não acabou: enquanto houver humanidade, haverá História. E haverá lutas. Só que hoje em dia elas são fragmentadas. Parece faltar uma utopia em comum para milhões de pessoas em todo o planeta.

Planeta… Não seria uma boa ideia todos lutarmos para que continuemos podendo habitá-lo? Já passou da hora de o tratarmos melhor, né?

Porém, uma pessoa sozinha não consegue melhorar o mundo. O importante é que cada um faça a sua parte. Tanto pela preservação do meio ambiente, como pela diminuição das injustiças – luta que jamais deve ser abandonada. Agindo localmente, mas pensando globalmente: se todos fizerem um pouco em seu bairro, na sua cidade, a soma resultará numa grande mudança para melhor em toda parte.

Mas, acima de tudo, é preciso acreditar que é possível, sem desanimar. Não adianta nada passar por insucessos e só por conta disso passar a achar que “não tem jeito, o negócio é se adaptar para se dar bem”. Lembremos a frase dita por Apolônio de Carvalho em Utopia e Barbárie: “Se perdemos hoje, não quer dizer que não podemos vencer amanhã”.

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6 comentários sobre “Não devemos deixar os sonhos de lado

  1. No que tange às mudanças sociais profundas a situação chegou a um ponto em que isso não é mais algo meramente ideológico ou sonho utópico: mudar o atual estado de coisas virou uma necessidade da espécie humana.
    Ou suplantamos o atual sistema econômico e social ou seremos suplantados por ele.

  2. Não tenho mais o que falar do filme, dá vontade de sair por aí entregando pra cada pessoa que encontramos, pra ver se acordamos pra necessidade de fazer diferente, de, realmente, mudar o mundo – mesmo dando a cara a tapa sententa vezes sete vezes -.

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