Por que não votarei em Dilma no 1º turno

Em 2006, no 1º turno da eleição presidencial, votei em Cristóvam Buarque. Estava decepcionado com muita coisa no governo Lula: mensalão, liberação dos transgênicos, alianças espúrias… Tudo bem que por não ter a maioria no Congresso, o PT tivesse de ampliar seu leque de alianças para poder governar. Mas buscar apoio dos Sarney, com tudo o que eles fazem no Maranhão, convenhamos, é fisiologismo demais.

Decidi votar em Cristóvam por sua proposta de dar ampla prioridade à educação, que é o problema mais sério do Brasil – e dele decorrem outros. Instruir à população é resolver, numa tacada só, várias mazelas que afligem o país, como a violência e até mesmo os problemas de saúde pública (quem tem mais conhecimento fica menos doente por saber como se prevenir – o que ajuda a diminuir as filas para consultas médicas).

Mas, como todos se lembram, Cristóvam não foi para o 2º turno – o que era previsto. Sobraram Lula e Alckmin, e não tive a menor dúvida em votar no primeiro. Pois, se estava decepcionado com Lula, também não queria o PSDB de volta ao Palácio do Planalto, para quebrar o Brasil de novo como no governo FHC.

Quatro anos depois, novamente não pretendo dar meu voto ao PT no 1º turno. Além das alianças espúrias, que continuam a acontecer (Renan Calheiros, Sarneys, Collor…), há outros fatores que me levaram a tomar essa decisão.

O primeiro deles, é o modelo de desenvolvimento defendido pelo atual governo: apenas crescimento econômico, sem maciços investimentos em educação nem preocupação com o meio ambiente. Recentemente, Lula deu uma declaração de matar: “só não me peçam para vender menos carros”. Pois é, o país quase parando com tantos automóveis entupindo as ruas, e o presidente quer mais? Deveríamos é incentivar a produção de bicicletas, e não de carros.

E agora, temos o caso de Belo Monte – que está mais para “baita monstro”. A construção da usina hidrelétrica foi decidida sem ouvir quem será diretamente atingido por ela, ou seja, todas as pessoas que terão seus lares inundados e precisarão se mudar para outros lugares – o que nunca é algo simples como muitos pensam. E se há tanta demanda por energia elétrica, por que não investir em fontes alternativas e menos agressivas ao ambiente, como a solar (porra, a maioria esmagadora do território brasileiro fica na zona tropical!) e mesmo a eólica – pelo menos aqui no Rio Grande do Sul, o que não falta é vento, principalmente no litoral.

Outro motivo que me leva a não votar em Dilma Rousseff no 1º turno é a lamentável opinião dela (e do próprio governo Lula) sobre a tentativa de revisão da lei de anistia de 1979. Dilma acha que a anistia, do jeito que foi concedida, evita o “revanchismo”. Acreditem se quiser: ela foi barbaramente torturada durante a ditadura militar, e agora vem dizer que “justiça” é igual a “revanchismo”? Por favor…

“Revanchismo” seria torturar um torturador – ou seja, fazer ele sentir na pele o que é ser torturado – e o autor deste crime contra a humanidade não ser punido.

Sinceramente, acho que o fundamental nisso tudo nem é mais simplesmente colocar os torturadores atrás das grades – uma coisa é tirar a anistia deles, outra coisa é conseguir com que sejam condenados. O que eu quero é ter o direito de, caso faça uma pesquisa histórica e descubra que “fulano de tal” foi torturador, publicar o trabalho citando o nome do cara – e as fontes utilizadas – sem que ele possa me processar. Mas eu nem tenho como fazer algo assim e dizer “foda-se” para o risco de processo, pois o acesso aos arquivos da ditadura é simplesmente negado – Lula não manda abrir porque não quer.

Charge de 2004 do Kayser

Assim sendo, como votar na Dilma no 1º turno? Simplesmente não dá!

Ainda não estou bem decidido sobre quem receberá meu voto para presidente, mas já antecipo que não será José Serra, de jeito nenhum. Marina Silva, além de também concordar com a decisão do STF de manter a anistia aos torturadores (igual a Dilma e Serra), tem se manifestado contra o aborto e as pesquisas com células-tronco (como alguém que se define como “esquerda” pode defender ideias assim?) e seu partido, o PV, não tem coerência nenhuma. Até agora, só Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, se manifestou contrariamente à manutenção da anistia aos torturadores. Aguardo a publicação do programa de governo (e espero que o PSOL faça uma autocrítica quanto ao acontecido em 2008, quando aceitaram doações de grandes corporações para suas campanhas), mas cresce a pontuação de Plínio no meu “votômetro”.

Ele não tem chances? Azar. Cristóvam também não tinha em 2006.

Votar em Dilma, só no 2º turno, para evitar a volta do PSDB ao governo.

Além disso, a política brasileira não se resume a apenas estes dois partidos. E também é falaciosa a postura adotada por muitos militantes de ambos, de identificar o seu como “o bem absoluto” e o adversário como “o mal absoluto”. Embora haja diferenças entre os dois projetos, eles são muito mais parecidos do que os fanáticos pensam – o de Dilma é menos pior.

Aliás, para os que vêem o Brasil como só tendo duas opções, pouco me importando o lado, mando meu aviso: não me encham o saco.

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19 comentários sobre “Por que não votarei em Dilma no 1º turno

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  2. Eu votarei na Dilma, mas concordo com o que você colocou aí. No entanto, não vejo uma opção melhor, ao menos, por enquanto.
    Quanto à Marina, não cheguei a ler a notícia, mas comentaram comigo que ela tinha dito que jamais bateria uma foto sequer com a bandeira do movimento gay. Bem complicado ser presidente com uma cabeça assim…

  3. se a Marina não crescer, essa eleição tem grandes chances de ser decidida já no 1º turno. Todos candidatos tem defeitos, mas dar chance do psdb voltar é errado. Eu votarei na Dilma.

    • No 2º turno, também voto Dilma. Não cogito anular o voto justamente para não dar chances a Serra.

      Agora, no 1º turno, para ele ganhar precisa ter 50%+1 dos votos válidos – ou seja, mais que a soma dos outros candidatos. Assim, se eu votar Plínio, Marina ou Dilma, não faz a menor diferença contra Serra.

  4. Já está na hora mesmo de comerçarmos a falar sobre a inutilidade do chamado voto útil!
    Tipo: vota-se em A para derrotar B mas o programa de A é igual ao programa de B!
    Daí embora haja uma opção C, que melhor se encaixa nas minhas convicções, acabo deixando de votar em C porque somente o A tem chances de derrotar B (que eu repudio).

    Essa armadilha da democracia representativa é brilhantemente descrita pelo filósofo italiano Domenico Losurdo no livro “Democracia ou Bonapartismo”.
    Nessa obra ele faz um histórico da democracia moderna mostrando os seus dois momentos: o primeiro em que as elites excluíam as classes subalternas do direito de voto; e o segundo é quando, não podendo mais negar o direito de voto, eles começam a pensar em fórmulas eleitorais para minimizar o efeito do voto das classes subalternas. Uma delas é a clásula de barreira (que vigora até hoje na Alemanha) que visava excluir do parlamento os candidatos dos Partidos Comunistas. Outra foi o voto plural, onde as classes têm votos com pesos diferenciados, que vigorou na Inglaterra até 1948.

    Não é por acaso que hoje a Inglaterra tem dois ou três partidos, que os EUA tem dois, com condições de disputar o poder.

    Assim, o que as classes dominantes mais desejam é que nos tornemos reféns do inútil voto útil onde nos limitamos a escolher entre o seis e o meia-dúzia!

    Exposto isso, informo que respeito a opinião de cada um, mas eu particularmente em Plínio de Arruda no 1º e no 2º turno… KKK

    • Camarada, eu também desejo muito poder votar no Plínio nos dois turnos… Tomara que minha previsão de que ele não vai ao 2º turno esteja totalmente errada!

  5. Concordo contigo que, no 1º turno, não tem essa de “voto útil”; é importante marcar posição escolhendo aquela proposta com que mais me identifico. Só não concordo em já declarar voto em outro no 2º turno. Afinal não é garantido que Plínio perderá. Tem de acreditar. Em 1994, ninguém levava o Enéas a sério, e chegou em 3º, na frente de Brizola e Ciro Gomes. Pra 2010, ainda tô procurando um “Cristóvam Buarque” pra votar, mas tá difícil… e anular, jamais.

    • Declaro um hipotético voto na Dilma no 2º turno por achar muito provável que só restem Serra e ela depois de 3 de outubro – já que a maioria (à esquerda e à direita) opta pela enganação do “voto útil” (que só é “útil” mesmo quando a eleição tem só um turno). Mas torço bastante para que eu esteja totalmente errado, e Plínio vá ao 2º turno – seja contra quem quer que seja.

      • Bem, o meu voto em Plínio no 2º turno se dará mesmo se ele não for para o 2º turno.
        A maquininha que se vire… KKK

  6. Depois de ter ajudado a fundar o PT, pela primeira vez na vida colocarei um voto não petista na urna. Pelas mesmas razões expostas aqui, votarei no Plínio. Mas tem mais uma, que acho bem importante, que vai além do voto simbólico: o governo PT/Dilma precisa de oposição à esquerda, que à direita já tem de sobra, de dentro e de fora. Assim, quanto mais o “campo de esquerda” (seja lá o que isso quer dizer) receber votos, mais uma Dilma eleita terá que prestar atenção nesse lado. Não acredito que ela realmente pense isso da anistia, acho que está jogando para a torcida. Então vamos agitar mais as bandeiras do outro lado o estádio.

  7. Meu voto não será para os petistas. Voteimpor duas vezes no Lula mas estou decepcionada. Mais marqueting do que ação é o que vejo e uma tentativa de trazer de volta uma ditadura sob o manto de uma democracia. Portanto meu voto também irá para o Plinio.

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