A banalização do termo “nazista”

Um dos raros motivos que me levam a dar uma olhada na Zero Hora é a coluna de Luis Fernando Verissimo. E hoje, então, o texto dele é tão bom que vale a pena ser postado aqui no Cão também. Literalmente “assino embaixo” do que ele escreveu.

Nazistas

Nos filmes da série Guerra nas Estrelas, os oficiais do império intergalático usavam uniformes parecidos com os dos oficiais alemães na II Grande Guerra. Era para identificá-los imediatamente como maus. Ou seja, mil anos no futuro, a analogia nazista ainda continuaria funcionando. Como funciona hoje, 65 anos depois da derrota do nazismo, quando se quer caracterizar um mal ou insultar alguém. Uma recente e maluca analogia foi feita por opositores do plano de saúde universal do Barack Obama, que chamaram o plano de nazista. O plano que o Baraca finalmente conseguiu aprovar é menos abrangente do que o que existe na maioria dos países industrializados do mundo, mas “nazista” era um epíteto mais ressoante do que “social-democrata” – que para a direita americana já é um palavrão. Cartazes do Obama com o bigodinho do Hitler faziam parte da campanha contra.

É bom que o mundo nunca se esqueça do nazismo e seus símbolos continuem a evocar um passado de horrores por muitos anos, mas a banalização do termo esvazia seu sentido. Quando tanto a direita quanto a esquerda se xingam de “fascista”, “fascista” passa a não ter significado histórico algum, ou aplicação fora do calor da briga. E “nazista” como a suprema imprecação de certa maneira libera vocações totalitárias e prepotentes que não se reconhecem no modelo execrado. Não foram poucas, a julgar pelo que se lia nos jornais, as pessoas que concordaram com a frase dita depois da matança de meninos na Candelária, a de que aquilo não tinha sido uma chacina e sim uma faxina. Quando se pode chamar até um plano de saúde de nazista, o verdadeiro pensamento nazista fica sem nome.

O Baraca conseguiu a aprovação do seu meio plano, mas continua sob fogo da direita – e da esquerda. Está sendo tímido nas mudanças sociais prometidas e não acabou com a intervenção americana no Afeganistão, o que não tinha sido prometido mas era esperado. Mandou mais tropas. E o Afeganistão continua sendo um sumidouro, engolindo o seu terceiro império seguido, depois dos ingleses e dos russos. Enquanto isto, a direita religiosa reza pela morte de Obama e “nazista” é apenas um dos rótulos que lhe deram.

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3 comentários sobre “A banalização do termo “nazista”

  1. O mesmo acontece com o termo “comunista”, termo banalizado por muitos “(de)formadores de opinião” quando querem se referir a algo “ditatorial” ou “intervencionista” ou “totalitário”, como se estes termos não se aplicassem à direita também.

  2. Nunca devemos esquecer e inclusive esfregar na cara da direita “fundamentalista do mercado” que um dos seus grandes ídolos, Ludwig von Mises (que será o tema do Fórum da Liberdade) fez em sua obra chamada “Liberalismo” uma declaração de agradecimento ao fascismo por este ter “salvo a civilização européia” por ter mantido a “propriedade privada”, vejam:
    http://mises.org/liberal/ch1sec10.asp

    Além do mais Mises apoiou o Governo fascista de Dollfus na Áustria e a cruel repressão do mesmo a classe trabalhadora daquele país em ato em que protestavam contra um acordo do governo do seu país com Mussolini. Ele justifica isso em uma autobiografia!

  3. Uma sociedade em que um plano que se propõe a aumentar o acesso à saúde, um direito básico do ser humano, é tratado como nazismo, só pode estar com muitos problemas mesmo.

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