Estupidez em Porto Alegre

Na madrugada de sexta-feira, enquanto boa parte de nós dormia confortavelmente em boas camas, o morador de rua Vanderlei Pires fazia o mesmo na esquina da Avenida João Pessoa com a Rua Lobo da Costa, em Porto Alegre. Ao acordar, estava pichado com tinta de cor prata, e ainda por cima alguém havia urinado em seus pés.

Assim como a Cris Rodrigues, não consigo imaginar que os autores de tamanha estupidez não tenham sido jovens bem vestidos, de classe média, querendo se mostrar.

Na verdade, o que aconteceu na madrugada de 2 de abril de 2010 em Porto Alegre é mais uma demonstração prática da mentalidade do que chamo classe mérdia (e mais uma vez ressalto que classe média não é igual a classe mérdia, antes que alguém em quem o chapéu serve muito bem venha escrever merda nos comentários). Eles se acham muito superiores – mesmo que sejam apenas baba-ovos das elites – e têm verdadeira ojeriza a pobres:  acreditam que “trabalhando muito, um dia chegam lá”, e que pobre é “vagabundo que não quer trabalhar”.

Eles procuram mostrar “o quanto são superiores” humilhando, espancando e até matando quem eles consideram “inferiores”, como já se viu em outras oportunidades: foram jovens desse tipo que atearam fogo no índio Galdino Jesus dos Santos enquanto ele dormia em uma parada de ônibus em Brasília, em 1997; e também foram jovens da mesma “categoria” que espancaram a empregada doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto em uma parada de ônibus no Rio de Janeiro, em 2007 (e ainda por cima roubaram dinheiro e celular dela). Não bastasse o que fizeram, os covardes ainda deram estúpidas justificativas: mataram Galdino por “terem pensado que era um mendigo”; já os que espancaram Sirlei disseram ter feito isso “por pensarem que era uma prostituta”.

E quando falei em humilhar, isto inclui outros atos além de pichar e urinar em um morador de rua. Pois já vi muita gente gritar “vai trabalhar, vagabundo!” a pedintes. Dá vontade de chegar em um destes babacas e falar: “Então dá um emprego para ele, já que achas tão simples arrumar trabalho” – um dia ainda farei isso.

Moradores de rua, pessoas pobres em geral, ao longo de suas vidas vão acumulando momentos de humilhação. De tanto serem mal-tratados, não é óbvio que uma hora muitos deles começarão a reagir? “Tô cansado de apanhar. Tá na hora de bater!”, diz a letra da música “Pátria que me pariu”, de Gabriel O Pensador.

Felizmente, Vanderlei Pires não pensa em vingança. “Espero que estas pessoas não façam nenhum outro mal para alguém como fizeram comigo”, disse ele.

4 respostas em “Estupidez em Porto Alegre

  1. Essas atitudes que citaste são diferentes apenas na gravidade da consequência que tiveram, pois têm a mesma motivação.

    E vem de uma inversão de valores, da qual tenho falado há um certo tempo. Vivemos em uma sociedade que valoriza mais o ter do que o ser, o que me faz acreditar que se eu tenho coisas materiais eu sou superior ao mendigo, que não tem. É bem triste.

    • Exato, Cris.

      E apesar dos jovens que fizeram as barbaridades (tanto a da última sexta como as outras que citei) serem todos de classe média alta (ou, pelas atitudes que têm, “classe mérdia”), esse é realmente um problema da sociedade como um todo. Pois é por conta desta supervalorização do “ter” em detrimento do “ser” que se vê tanta violência: quem não tem quer desesperadamente ter porque vê na televisão o quanto se valoriza quem tem um tênis caro, um carro importado… Já quem tem, se sente superior pelos mesmos motivos.

  2. São poucas as coisas que me deixam com tanta vontade de chorar quanto estas. Não entra na minha cabeça como a pessoa pode se divertir com a desgraça alheia, é ser egoísta e mau caráter demais pra minha capacidade de entender. A ironia é a data, em plena sexta-feira da Paixão. Parece que, cada dia mais, só o que importa são os ovos de Páscoa.

    • Pior, Camila, é que eu consigo entender (jamais defender) tamanha estupidez. Porque conheço gente assim (um amigo meu disse uma vez que “pobre tem de se f…”). São pessoas que dão uma importância maluca a bens materiais, às aparências. Vivem de aparências – e acham que os que pensam diferente, agem diferente, são “infelizes frustrados”. Aliás, por esse ponto de vista eu sou um desses “perdedores”, mas ironicamente, não consigo me imaginar vivendo como eles sem achar a vida um tédio…

      Aliás, ando cada vez mais afastado desse tipo de pessoas. Não tenho mais saco para conversas superficiais e não poder falar de política sem ter de ouvir seus discursos reacionários.

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