Brasil, Cuba, liberdade e falta dela

Ontem, o presidente Lula cometeu um ato extremamente infeliz. Questionado sobre o recurso à greve de fome utilizado por presos por motivos políticos em Cuba para obterem liberdade, Lula comparou-os a presos comuns para criticar a medida.

A declaração do presidente foi infeliz por dois motivos. Primeiro, porque no passado muitos presos políticos no Brasil se utilizaram da greve de fome para denunciarem suas detenções arbitrárias pela ditadura militar. Segundo, porque não dá para comparar um preso por assassinato com um que simplesmente declarou ser contra o governo e por isso foi para trás das grades: assassinato é crime sempre, já ser contra o governo só é considerado crime se o governo for ditatorial.

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Claro que não dá para igualar o regime do Partido Comunista Cubano com a ditadura militar brasileira de 1964-1985. Pois se os dois reprimiram discordantes em relação ao governo, Cuba hoje é melhor do que era antes da Revolução (e vale lembrar que não era nem um pouco democrática): basta verificar seus indicadores sociais, superiores aos nossos. Já o Brasil de 1985 tinha a economia em frangalhos, pior distribuição de renda do mundo, aumento da favelização e do domínio do tráfico nas favelas (já que por 21 anos o Estado esteve mais preocupado em “combater o comunismo” do que em dar assistência aos pobres), dentre outras mazelas. Diz o ditado que “a melhor das ditaduras não é melhor que a pior das democracias”, mas na comparação entre ditaduras, não resta dúvidas sobre qual delas foi melhor (ou pior) para seu povo.

Quanto à liberdade (ou a falta dela), Cuba pode ser criticada. Mas é preciso ter cuidado, porque para os cubanos, “liberdade” pode ser muito mais do que o simples direito a contestar seus governantes – provavelmente eles não se sentissem muito livres em um país no qual se pode falar mal do governo mas, caso não se tenha dinheiro para o tratamento de uma doença, a morte fica mais próxima.

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Ao mesmo tempo, uma coisa é certa. Muitos direitosos virão com o papo de que “em Cuba se violam os direitos humanos!” e blá blá blá para criticarem a esquerda.

Porém, ao mesmo tempo defendem a ditadura militar no Brasil, pena de morte e ainda dizem que “o pessoal dos direitos humanos só defende bandidos”. Trata-se de pura hipocrisia, pois criticam os atos de um outro país mas defendem os mesmos ou semelhantes para o seu.

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4 comentários sobre “Brasil, Cuba, liberdade e falta dela

  1. Cuba vive sob uma ditadura cruel sanguinaria e opressora desde 1959. No Brasil a ditadura militar durou 21 anos(1964-1985). Realmente nao ha comparacao quanto a qual ditadura foi pior.

    • Há, sim, comparação, tanto que a fiz. E não foi mera opinião, foi argumentação mesmo.

      Em Cuba, a vida da maioria da população melhorou muito desde 1959. No Brasil, apenas uns poucos melhoraram de vida; os ricos ficaram mais ricos e os pobres mais pobres.

      E se formos falar de “ditadura”, não podemos esquecer que a Revolução de 1959 em Cuba derrubou o governo ditatorial de Fulgencio Batista. Logo, o argumento de que “acabou com a liberdade em Cuba” não cola, até porque antes o país era completamente subordinado aos interesses dos Estados Unidos – que liberdade é essa?

  2. Bem disse o Celso Amorim. Se querem uma evolução, porque não levantar o “absurdo” e desumano embargo comercial contra Cuba? Isso, ninguém fala…A direita raivosa condenava Lula pelo que imaginava que fizesse e agora condena pelo mesmo motivo…

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