NÃO à anistia aos torturadores

Imaginem que, após a Segunda Guerra Mundial, tivesse sido decretada anistia “ampla, geral e irrestrita”, que incluísse a todos os carrascos nazistas. Ou que, além de se julgar os nazistas, também tivessem sido levados a julgamento todos os que resistiram ao nazismo e acabaram matando pessoas na Segunda Guerra Mundial.

Pois é tratamento semelhante que o Brasil dá ao período mais nefasto de sua História, a ditadura militar (1964-1985). Com a lei de anistia de 1979, os que sequestraram, torturaram e mataram muitos brasileiros naquela época, se livraram de serem julgados como seus pares argentinos, chilenos e uruguaios. Já os militantes de esquerda que enfrentaram a tirania foram perseguidos, presos, torturados e mortos.

Eis que, quando se fala em revisar a anistia “ampla, geral e irrestrita” concedida há 30 anos, temos de ouvir muita gente, que sequer tem conhecimento de História, vir com o papo furado de “ter de julgar os dois lados”. Pois é, em 1964 foi derrubado um presidente legitimamente eleito, se instaurou um regime que se sustentou com base no terror, e querem acusar os que lutaram contra isso de serem os “terroristas” e de terem agido “ilegalmente”! Quem me dera fosse apenas uma piada…

Pessoas morreram por conta de ações promovidas pela resistência ao regime? Sim, morreram. Mas, foi o aparato repressivo do Estado ditatorial o responsável por muito mais mortes. Nem dá para comparar o número de mortos “pelos dois lados”: a repressão matou muito mais.

Quem lutou contra a ditadura já foi preso, torturado, morto ou desaparecido. Já os responsáveis pelo terrorismo de Estado vivido por muitos anos no Brasil, continuam impunes, mesmo tendo cometido crimes de lesa-humanidade. Até quando?

Se até agora não convenci o leitor de que não é justo “julgar os dois lados”, valho-me do tradicional ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e passo a bola para o cartunista Carlos Latuff:

Para que haja chance de ser feita justiça, clique aqui e assine o manifesto contra a anistia aos torturadores.

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8 comentários sobre “NÃO à anistia aos torturadores

  1. Não conhecia o manifesto, mas já está devidamente assinado e divulgado.
    Parece que criou-se, no Brasil, a idéia de que porque a ditadura aqui matou menos pessoas que em outros países, não deve ser julgada como a comunidade internacional fez. E, nisso, os torturadores vão morrendo e ganhando tempo, rindo dos que tanto lutaram para derrotá-los.

  2. Em primeiro lugar, é injusto comparar uma ditadura com uma guerra de proporções globais, são coisas diferentes em diversos aspectos. Se você acha isso, então podemos dizer também que os americanos não podem ser criticados pelas suas bombas atômicas contra o Japão, já que as nações estavam em guerra. Embora sabemos muito bem que o ódio mortal pelos EUA certamente vai fazer surgir alguma justificativa para dizer que com eles é diferente, que eles estão errados (como diz um dos mandamentos da esquerda, “odiarás sempre os EUA”).

    Você acha que não é justo julgar os dois lados? Então parece que para você o que faz um crime não é o ato criminoso em si, mas quem o comete? Os militares mataram e devem ser julgados e punidos, mas os militantes que também mataram são inocentes porque na sua cabeça eles “supostamente” lutaram pela democracia? É o corporativismo falando mais alto que a justiça, os amigos estão sempre certos e os inimigos estão sempre errados, independente do que façam. É o típico pensamento da esquerda, que se julga a dona da verdade e que acha que todos os seus atos são justifiáveis, independentes do quanto os mesmos sejam criminosos.

    Digo supostamente porque qual a garantia de que esses terroristas (sim, terroristas) lutavam por um regime democrático? Como você mesmo disse, eles lutavam contra o regime vigente, mas isso não significa que eles queriam a democracia, qual a prova que temos disso? Ou vai me dizer que os militantes da época, ostentando o foice e o martelo no peito e com um retrato do Che Guevara no quarto, não queriam colocar uma outra ditadura aqui, só que de esquerda? Exatamente como aconteceu em Cuba, “paraíso” comunista da América Central tão enaltecido por esses militantes.

    E acho curioso como uma justificativa sua para defender a matança promovida pelos militantes é dizer que o Estado matou mais. Você diria então que os crimes cometidos pelos militantes foram mais “brandos” dos que os da ditadura? Gostaria de ver você dizer isso para as famílias dos que foram mortos por esses terroristas. Agora, vai um jornal dizer que aqui foi “ditabranda” devido a quantidade de mortos comparando-se com outras ditaduras… Aí não pode, né?

    Os dois lados cometeram crimes, e acho que os dois lados devem ser julgados sim, até porque a Anistia foi acordada entre ambas as partes e de certa forma benefeciou todos com a absolvição de seus crimes. Me desculpe, mas é muita sacanagem querer julgar e punir apenas um dos lados, enquanto o outro que também cometeu seus crimes fica impune e é até agraciado com indenizações milionárias. Isso é esperado uma vez que essa revisão da Anistia foi escrita e proposta pelos mesmos militantes do passado, hoje no poder. E depois vem me dizer que não é revanchismo?

    • Cara, por favor, não repitas mais essa frase “a esquerda acha que é dona da verdade”: ora, a direita também acha que é “dona da verdade”. TODOS temos AS NOSSAS VERDADES. O que não se pode, é brigar contra os fatos, comprovados através de INVESTIGAÇÃO HISTÓRICA.

      Quanto à comparação que fiz, óbvio que é “guardadas as proporções”. Mas já que falastes das bombas atômicas, basta estudar HISTÓRIA: o Japão estava prestes a se render, e os EUA largaram as duas bombas atômicas não para “apressar o fim da guerra”, e sim, para dar um recado à URSS, que já planejava também atacar o Japão (o que resultaria numa divisão do Japão igual à da Alemanha).

      Quanto a não achar justo “julgar os dois lados”, eu já disse: os militantes de esquerda já foram perseguidos, presos, torturados e mortos. Já foram, de certa forma, “julgados”, embora por um regime de exceção. Não vejo a revisão da Anistia como “revanchismo”, e sim como uma questão de JUSTIÇA, conforme já expliquei: os torturadores JAMAIS foram presos por isso. Não quero que sofram exatamente o que fizeram (isso sim seria “revanchismo”), mas sim, que sejam presos.

      Ah, e não esqueças que muitos militantes atuavam apenas no plano intelectual, inclusive sem jamais terem defendido a luta armada. Era assim com o PCB, que igualmente foi perseguido, vide o exemplo de VLADIMIR HERZOG. Queres julgar pessoas que cometeram o “crime” de terem uma opinião contrária à ditadura?

  3. Algumas posições relativas ao tema seriam bastante engraçadas se não fossem preocupantes. Usa-se a expressão “ambos os lados” como se os “dois lados” fossem iguais em força e capacidade de coerção. Não apenas isso, mas também pressupõe que haviam dois lados. Basta pegar aquele livro, o Brasil Nunca Mais. Em um trecho, há uma relação das pessoas “interrogadas”. Vê-se lá: engenheiro, dona de casa, advogado, eletricista, estudante, e por aí vaí. Qualquer um, independente de credo ou posição ideológica, podia “tomar uma ruim” ao ser acusado de subversivo. Neste caso, acho que uma posição minimamente liberal viria não a se preocupar com a reação da sociedade civil em relação à ação de exceção do Estado, mas justamente o programa de atuação do Estado em relação à sociedade civil.

    • Ótima observação, Luciano!

      Isso me fez lembrar do caso de um cidadão, que inclusive é de direita, mas totalmente contrário à ditadura. Naquela época, um dia ele estava no Centro quando surgiu uma passeata, e a BM chegou descendo a lenha. Ele, que nada tinha a ver com a manifestação, foi levado junto. Tava com um relógio bom e o delegado ainda ficou tirando sarro: “tão bem de vida esses comunas”… E o cara tentando explicar de tudo que era forma o fato de que só estava “no lugar errado, na hora errada”.

      Já o meu pai conta que uma das maneiras de ferrar alguém era simplesmente chamar de “comunista”: muitos amigos se afastavam, e a pessoa passava a ser mal-vista pelos “cidadãos de bem”.

  4. Tem uma frase do Trotsky que é mais ou menos assim: “combater as vítimas só serve ao carrasco!”

    E não tem sido essa a postura dos defensores da ditadura e de alguns “fariseus moralizantes”(*) que igualam “reação” e “resistência”?

    (*) Termo utilizado por Trotsky no livro “Moral e Revolução”

  5. “até porque a Anistia foi acordada entre ambas as partes e de certa forma benefeciou todos com a absolvição de seus crimes”…tirando o fato que este cidadão conseguiu sobreviver a anencefalia, fica a parte hilária, que é : ele pode escrever livremente está asneira, pois em algum lugar do Brasil um herói lutou pela sua liberdade de expressão! Um País sem Memória é um País que não sabe escrever sua História!

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